Faça um comentário
6 min de leitura
Astrônomos identificam primeira estrela verde já documentada, a 280 anos-luz da Terra, após sódio alterar sua cor
Escrito por Ana Alice
Publicado em 24/10/2026 às 23:36
Atualizado em 24/10/2026 às 23:41
Ciência e Tecnologia
Grupo
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Anã branca localizada na constelação de Draco apresenta tonalidade verde-chartreuse em modelos baseados em seu espectro, resultado da interação entre sódio, hélio e outros elementos presentes em sua atmosfera.
Uma anã branca localizada a cerca de 280 anos-luz da Terra chamou a atenção de astrônomos por apresentar uma característica até então sem registro confiável em estrelas: uma tonalidade verde.
Batizado de WD J1330+6435, o objeto possui uma atmosfera rica em hélio contaminada por elementos como sódio, cálcio e lítio, combinação que modifica o espectro de luz e produz uma aparência verde-chartreuse nos modelos desenvolvidos pelos pesquisadores.
A descoberta faz parte de um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Warwick, no Reino Unido, publicado em 15 de outubro de 2026 na revista científica RAS Techniques and Instruments.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O trabalho analisou como temperatura, composição química e as condições extremas das atmosferas de anãs brancas podem produzir cores muito diferentes das normalmente associadas às estrelas.
Segundo os autores, não havia até agora outro caso de uma estrela, ativa ou remanescente, descrita de maneira confiável como genuinamente verde. A afirmação se refere ao conhecimento disponível e às observações estudadas pela equipe, não à existência de todas as estrelas da Via Láctea.
A WD J1330+6435 fica na direção da constelação de Draco e já era conhecida pelos astrônomos antes do novo estudo. O que mudou foi a compreensão de como sua composição altera a luz que deixaria sua superfície e, consequentemente, a cor que seria percebida por um observador suficientemente próximo.
Estrela verde não foi fotografada diretamente dessa forma
É importante fazer essa distinção porque nenhum astrônomo observou diretamente um disco verde no céu.
A estrela está distante e é fraca demais para que sua superfície seja resolvida dessa maneira. A tonalidade foi calculada a partir do espectro registrado pelos instrumentos e de modelos que reproduzem como essa luz seria percebida pela visão humana.
A NASA destacou o objeto em 22 de outubro em sua série Astronomy Picture of the Day. A imagem divulgada é uma ilustração artística da anã branca cercada por gás e fragmentos rochosos, e não uma fotografia mostrando diretamente uma esfera verde no espaço.
O motivo da coloração está relacionado às condições incomuns encontradas na atmosfera da WD J1330+6435. Anãs brancas são os remanescentes densos deixados por estrelas de baixa e média massa depois que elas esgotam seu combustível nuclear e passam pelas etapas finais de evolução.
A estrela estudada possui temperatura efetiva próxima de 4.240 kelvin e uma atmosfera dominada por hélio. Apesar de ser chamada de anã “branca”, sua composição inclui traços de elementos mais pesados, principalmente sódio, cálcio e lítio.
Esses elementos não deveriam permanecer indefinidamente nas camadas externas de uma anã branca. A interpretação dos pesquisadores é que eles vieram de material rochoso pertencente ao antigo sistema planetário da estrela, que acabou sendo incorporado à sua atmosfera.
Sódio modifica o espectro e favorece a tonalidade verde
O sódio tem papel central na tonalidade encontrada. Em condições comuns, esse elemento absorve uma faixa relativamente estreita da região alaranjada do espectro.
Na atmosfera extremamente densa da WD J1330+6435, porém, os átomos de sódio interagem constantemente com os átomos de hélio ao redor.
Essas colisões modificam o comportamento das linhas de absorção. Em vez de retirar apenas uma faixa estreita da luz alaranjada, o sódio passa a absorver uma região muito mais ampla, abrangendo parte das tonalidades amarelas, laranjas e vermelhas.
O cálcio também interfere na distribuição da luz ao absorver comprimentos de onda na região violeta. O resultado combinado é uma concentração maior do fluxo visível em torno de aproximadamente 500 nanômetros, região associada ao verde.
Nos modelos da equipe, isso produz a aparência chartreuse observada para a estrela.
A descoberta ajuda a explicar por que estrelas verdes são tão incomuns. Em estrelas comuns, a cor percebida depende fortemente da temperatura. Objetos mais frios tendem para tons avermelhados e alaranjados, enquanto os mais quentes aparecem brancos ou azulados.
Mesmo quando uma estrela emite grande quantidade de luz na região verde, ela também produz luz em comprimentos de onda próximos. Ao serem combinadas pela visão humana, essas emissões normalmente resultam em uma aparência branca, e não verde.
Nas anãs brancas mais frias e com atmosferas muito densas, a situação pode ser diferente. Elementos químicos presentes nessas camadas conseguem retirar determinadas partes do espectro de forma intensa, alterando o equilíbrio entre as cores que chegam ao observador.
Pesquisa encontrou outras anãs brancas com cores incomuns
O estudo de Mark Hollands, Boris Gänsicke, Pier-Emmanuel Tremblay e Detlev Koester examinou não apenas a WD J1330+6435, mas a variedade de cores que anãs brancas poderiam apresentar quando seus espectros são convertidos para uma representação compatível com a percepção visual humana.
Os pesquisadores analisaram uma amostra representativa de 151 anãs brancas localizadas a até 20 parsecs, cerca de 65 anos-luz do Sol.
Na maior parte dos casos, o resultado confirmou aquilo sugerido pelo próprio nome desses objetos: elas realmente tenderiam a parecer brancas.
A temperatura de cor mediana encontrada na amostra foi próxima de 6.800 kelvin. Cinco objetos, porém, apresentaram cores mais incomuns, incluindo tons amarelados e rosados.
Segundo a Universidade de Warwick, isso equivale aproximadamente a uma em cada 30 anãs brancas dessa amostra apresentando coloração fora do padrão.
Outro caso destacado pelos pesquisadores foi a WD J1011+2845. Rica em carbono, ela teria aparência salmão-rosada.
Nesse objeto, movimentos de convecção levam carbono das regiões internas para a superfície, onde moléculas formadas pelo elemento absorvem partes do espectro visível e alteram a cor percebida.
A WD J1330+6435, por outro lado, representa um mecanismo diferente. Sua tonalidade verde está associada principalmente à presença de material externo incorporado à atmosfera e às condições de pressão que modificam a absorção produzida pelo sódio.
O resultado também mostra que chamar esses objetos de “anãs brancas” não significa que todos tenham exatamente a mesma aparência. Dependendo da temperatura e da composição atmosférica, os modelos do estudo indicam que podem surgir tons de amarelo, verde, ciano, rosa ou roxo.
A própria história da WD J1330+6435 já havia fornecido pistas sobre sua composição. Estudos anteriores identificaram sódio, cálcio e lítio em seu espectro e relacionaram esses elementos à incorporação de material rochoso.
O novo trabalho utilizou modelos atmosféricos atualizados para investigar o impacto dessa química na cor percebida da estrela.
A distância de aproximadamente 280 anos-luz significa que a luz observada atualmente deixou essa região do espaço há cerca de 280 anos.
Ainda assim, a identificação da tonalidade verde não significa que a estrela tenha mudado recentemente de cor: o estudo revelou como a composição já presente em sua atmosfera interfere na luz emitida.
Os autores consideram possível que futuras observações revelem outros objetos com cores semelhantes. O próprio artigo aponta que anãs brancas frias, dominadas por hélio e contaminadas por metais podem formar uma sequência de tonalidades que passa por verde, ciano e azul conforme as características de absorção se tornam mais intensas.
A pesquisa foi publicada com o título Any colour you like: the diverse chromaticities of white dwarfs e busca ampliar o entendimento sobre como atmosferas estelares submetidas a condições extremas podem produzir espectros bastante diferentes daqueles esperados para estrelas comuns.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

