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Astrônomos observam pela primeira vez uma estrela “devorando” uma anã marrom em órbitas de 87 minutos, num processo que pode durar bilhões de anos
Escrito por Carla Teles
Publicado em 09/10/2026 às 21:21
Atualizado em 09/10/2026 às 21:25
Ciência e Tecnologia
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A estrela integra o sistema ZTF J0440+2325, a cerca de 330 a 490 anos-luz da Terra, onde uma anã marrom transfere matéria lentamente para sua companheira em uma configuração nunca observada diretamente.
Uma estrela pequena e fria está retirando matéria de uma anã marrom que completa uma órbita a cada 86,65 minutos no sistema ZTF J0440+2325, localizado a uma distância estimada entre 330 e 490 anos-luz da Terra. Astrônomos identificaram ali a primeira observação direta de transferência estável de massa de um objeto subestelar para uma estrela comum da sequência principal, processo que pode continuar por escalas de tempo de bilhões de anos.
O resultado foi publicado em 5 de outubro de 2026 na revista Nature Astronomy por uma equipe liderada por Aaron Householder, do MIT, e detalhado no Space Today em 7 de outubro. O estudo descreve o sistema principal e apresenta ainda o ZTF J1444+4820, de 67 minutos, como forte candidato a outro sistema de baixa massa com transferência de matéria.
Estrela recebe matéria de uma anã marrom a cada órbita de 87 minutos
O objeto central do estudo é uma estrela da classe espectral M8, pertencente ao grupo das anãs vermelhas. Os pesquisadores adotaram para ela uma massa de aproximadamente 0,083 massa solar, equivalente a cerca de 87 vezes a massa de Júpiter, enquanto seu raio fica próximo de um décimo do raio do Sol.
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Sua companheira está no regime subestelar. A análise das velocidades radiais indicou uma massa mínima de 9,7 ± 1,2 vezes a de Júpiter, valor que, combinado com outros sinais observacionais, levou a equipe a classificá-la como uma anã marrom.
Anãs marrons ocupam uma faixa intermediária entre os planetas gigantes e as estrelas. Elas se formam de maneira semelhante às estrelas, mas não acumulam massa suficiente para sustentar de forma estável a fusão de hidrogênio que caracteriza uma estrela da sequência principal.
No ZTF J0440+2325, porém, o ponto mais relevante não é apenas a proximidade dos dois corpos. A anã marrom está perdendo matéria, enquanto a estrela M8 recebe esse material continuamente, situação prevista teoricamente havia décadas, mas que ainda não havia sido observada dessa forma.
Gás atravessa o lobo de Roche e atinge diretamente a superfície da estrela
O mecanismo começa quando a anã marrom preenche seu chamado lobo de Roche, região ao redor de cada componente de um sistema binário em que sua gravidade domina. Quando o material ultrapassa um ponto de equilíbrio entre os dois corpos, conhecido como L1, o gás pode escapar em direção à companheira.
No sistema observado, esse fluxo não forma o disco de acreção comum em outras binárias compactas. O gás percorre uma trajetória curta e atinge diretamente a superfície da estrela, criando uma região aquecida conhecida como ponto quente.
Os cálculos indicam que os dois corpos estão separados por aproximadamente 200 mil quilômetros, pouco mais da metade da distância média entre a Terra e a Lua. Como a estrela receptora tem raio próximo de 70 mil quilômetros, há pouco espaço para que o gás complete uma órbita e forme um disco antes do impacto.
A trajetória também não ocorre em linha reta. Os modelos balísticos calculados pelos pesquisadores colocam o ponto de impacto cerca de 18,3 graus à frente da posição diretamente voltada para a anã marrom. A geometria prevista coincide com o momento em que o aumento de brilho foi registrado, reforçando a interpretação de que a estrela M8 é a receptora da matéria.
Região aquecida chega a cerca de 7.600 kelvins e altera o brilho do sistema
Uma das pistas mais claras apareceu nas observações realizadas com a câmera HiPERCAM, instalada no Gran Telescopio Canarias, nas Ilhas Canárias. No ultravioleta próximo, o sistema ficou mais de 30 vezes mais brilhante no máximo do que no mínimo durante cada ciclo de aproximadamente 87 minutos.
A diferença ocorre porque a própria estrela M8 é relativamente fria, com temperatura superficial estimada entre 2.600 e 2.800 kelvins. Já o ponto aquecido pela chegada do gás atingiria aproximadamente 7.600 kelvins, segundo os modelos usados no estudo.
Apesar da temperatura, a área envolvida é pequena. Os cálculos apontam para um raio entre aproximadamente 3.400 e 5.000 quilômetros, dependendo da distância adotada para o sistema, dimensão comparável à escala do planeta Marte.
Essa região corresponderia a apenas 0,22% a 0,50% do disco projetado da estrela, mas sua temperatura é suficiente para dominar o brilho do sistema em comprimentos de onda mais azuis. O comportamento periódico permitiu acompanhar o ponto quente entrando e saindo da região visível durante a órbita.
Pesquisadores descartaram a hipótese de um pulsar escondido
A equipe também precisou verificar se o sistema poderia ser explicado por outro fenômeno. Uma possibilidade era a presença de um pulsar do tipo “viúva-negra”, estrela de nêutrons que aquece e remove matéria de uma companheira de baixa massa.
Duas evidências pesaram contra essa interpretação. A primeira veio da velocidade radial da estrela, medida em 24,7 ± 2,6 quilômetros por segundo. Caso um objeto com cerca de 1,4 massa solar, típico de uma estrela de nêutrons, estivesse escondido no sistema, seria necessária uma orientação orbital extremamente improvável para produzir uma velocidade projetada tão baixa.
A segunda evidência veio dos raios X. Observações do telescópio Swift não detectaram a fonte e estabeleceram um limite de luminosidade abaixo da faixa típica encontrada nas chamadas viúvas-negras.
Com essas alternativas descartadas, a combinação entre velocidade radial, brilho periódico, espectroscopia e geometria do ponto quente sustenta o cenário de uma anã marrom transferindo massa para uma estrela anã vermelha. Parte da caracterização do sistema, especialmente sua distância exata, ainda depende de novas observações.
Transferência pode permanecer estável por bilhões de anos
O aspecto que diferencia o ZTF J0440+2325 de uma destruição rápida é a estabilidade do processo. Quando a anã marrom perde massa, seu raio pode mudar; ao mesmo tempo, a transferência de matéria para o corpo mais pesado tende a alterar a órbita e aumentar o tamanho de seu lobo de Roche.
Em determinadas condições, esses efeitos conseguem se equilibrar. Se a região disponível ao redor da anã marrom aumenta suficientemente rápido, o fluxo não entra em uma sequência descontrolada de perda de matéria. O resultado pode ser uma transferência lenta e duradoura em vez de uma destruição em poucas órbitas.
Os autores usam também um argumento baseado na duração provável do sistema. O processo que aproxima binárias desse tipo até o contato ocorre em escalas de aproximadamente um bilhão de anos. Se a transferência durasse apenas alguns milhões de anos, a chance de encontrar um sistema justamente nessa fase seria muito menor.
O estudo conclui que a fase observada deve persistir por pelo menos cerca de 10 milhões de anos e pode alcançar escalas muito maiores, potencialmente bilhões de anos. Essa duração é uma inferência apoiada pela configuração observada e pelos modelos; não significa que os astrônomos tenham acompanhado diretamente a evolução por esse intervalo.
Segundo sistema de 67 minutos pode ampliar a nova classe de objetos
A pesquisa apresenta ainda o ZTF J1444+4820, sistema com período orbital de 67,16 minutos e sinais de transferência de massa. Nesse caso, porém, a configuração é mais difícil de reconstruir porque uma estrela M4 mais distante domina grande parte da luz observada.
Os pesquisadores propõem que essa estrela pertença a um sistema triplo hierárquico e orbite externamente uma binária muito mais compacta. Dentro do par interno, os dados são compatíveis com componentes de baixa massa, mas a identidade exata da estrela receptora e da doadora ainda não está estabelecida com a mesma segurança obtida para ZTF J0440+2325.
O segundo caso, portanto, é apresentado como forte candidato, e não como outra confirmação equivalente. Observações com maior resolução angular e espectroscopia mais detalhada poderão ajudar a separar a luz das diferentes componentes.
O próprio estudo passa por novas etapas de análise à medida que novos sistemas semelhantes forem identificados. Os pesquisadores apontam o levantamento LSST, do Observatório Vera C. Rubin, como uma ferramenta capaz de encontrar mais objetos com variações periódicas de brilho desse tipo.
A identificação de novos casos permitirá testar com maior precisão quanto tempo a transferência permanece estável, como essas binárias chegam a órbitas tão curtas e com que frequência anãs marrons terminam gradualmente consumidas por suas estrelas. Por enquanto, ZTF J0440+2325 fornece a primeira evidência observacional direta de que esse destino previsto pela teoria realmente ocorre.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

