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Brasil pode colher 184 milhões de toneladas de soja, mas terminar a safra com 35% menos grãos em estoque: novo relatório revela por que uma produção recorde não garante sobra
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 25/10/2026 às 19:36
Atualizado em 25/10/2026 às 19:40
Agronegócio
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Brasil pode colher 184 milhões de toneladas de soja em 2026/27, mas terminar a temporada com estoque final de 3,96 milhões, queda de 35%, prevê o adido do USDA em Brasília. Exportações e indústria explicam a diferença.
O Brasil pode entrar em 2027 com uma safra de soja maior do que a anterior e, ao mesmo tempo, com muito menos grãos sobrando nos armazéns. Essa é a conta que chama a atenção no novo levantamento do escritório agrícola do governo dos Estados Unidos em Brasília: 184 milhões de toneladas de produção e 3,96 milhões de toneladas de estoques finais na temporada 2026/27.
O estoque final projetado representa uma redução próxima de 35% em relação ao ciclo anterior. Não existe quebra de safra confirmada por trás da projeção. O relatório projeta que mais soja será vendida ao exterior e processada pelas indústrias brasileiras, diminuindo o volume disponível para atravessar de uma temporada à outra.
O levantamento foi publicado em 22 de outubro sob o título Oilseeds and Products Update, preparado pelo adido agrícola norte-americano em Brasília. É uma projeção que poderá mudar com o avanço das lavouras. E há outra diferença importante: a avaliação do adido não é idêntica ao balanço oficial do USDA, que trabalha com estoques mais altos para o Brasil.
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Safra recorde de soja não impede queda de 2,1 milhões de toneladas nos estoques finais
A conta começa com o saldo previsto ao fim da temporada 2025/26: 6,06 milhões de toneladas. No ciclo seguinte, o volume recuaria para 3,96 milhões. São 2,1 milhões de toneladas a menos, apesar do crescimento esperado da produção brasileira.
Esse saldo, conhecido como estoque de passagem, é a soja que permanece disponível no encerramento do período, depois das vendas externas e do consumo do país. Ele não mede a quantidade máxima guardada durante a colheita e tampouco significa que as propriedades tenham ficado sem grãos. A previsão mostra quanto poderá restar depois de uma temporada inteira de negócios.
Para quem planta ou compra soja, a diferença importa porque uma colheita enorme pode ter destino quase todo definido entre exportações, fábricas e outros usos. O que fica guardado para o próximo ciclo depende tanto do tamanho da produção quanto do ritmo de saída dos grãos.
Exportações podem alcançar 117,5 milhões de toneladas e deixar menos soja de passagem
O adido prevê 117,5 milhões de toneladas exportadas em 2026/27, acima dos 115 milhões estimados para 2025/26. O acréscimo corresponde a aproximadamente 2,2%. O volume projetado representa a maior parte da produção brasileira e mantém forte a movimentação de grãos nos portos.
Ao mesmo tempo, o país pode estabelecer outro recorde no processamento industrial. As esmagadoras, empresas que transformam a soja em óleo e farelo, devem utilizar 65 milhões de toneladas, contra 63,5 milhões no ciclo anterior. A demanda adicional prevista para essas fábricas chega a 1,5 milhão de toneladas.
O farelo atende principalmente à alimentação de aves e suínos. O óleo é comprado por fabricantes de alimentos e pela cadeia de biocombustíveis, além de chegar ao consumidor. Com mais compradores internos e externos disputando o grão, a produção maior não precisa resultar em estoques maiores ao final do ano comercial.
Na avaliação do escritório agrícola, o consumo doméstico total subiria de 67,8 milhões de toneladas para 69,6 milhões. As vendas e a transformação dos grãos aparecem entre os fatores que apertam o saldo previsto para 2027.
USDA tem duas projeções para a soja brasileira, e a diferença é de 2,6 milhões de toneladas nos estoques
É preciso separar os dois levantamentos. O escritório do USDA em Brasília calcula uma safra de 184 milhões de toneladas e estoques finais de 3,96 milhões. O relatório oficial do departamento norte-americano utiliza 186 milhões de toneladas de produção e estima 6,56 milhões de estoques no mesmo ciclo.
O saldo final do USDA oficial, portanto, fica 2,6 milhões de toneladas acima do número do adido. Os dois balanços partem de quantidades iniciais distintas: 6,06 milhões de toneladas na avaliação de Brasília e 7,06 milhões no cenário oficial. Também divergem nas expectativas de colheita e de exportação.
Para as vendas externas, o USDA oficial prevê 118 milhões de toneladas, enquanto o adido indica 117,5 milhões. Ambos apontam esmagamento de 65 milhões de toneladas. Os dois balanços continuam prevendo produção elevada e comércio forte. A divergência nasce de premissas diferentes sobre o estoque de partida e a circulação dos grãos, não de uma escassez já observada.
Conab estima 181,6 milhões de toneladas: ainda existe distância entre as previsões de safra
O primeiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento, divulgado em 15 de outubro, prevê 181,6 milhões de toneladas de soja para 2026/27. É uma estimativa menor que as duas avaliações americanas. Entre a Conab e o USDA oficial há uma distância de 4,4 milhões de toneladas na produção projetada.
O órgão brasileiro trabalha com área de aproximadamente 49,3 milhões de hectares plantados, enquanto o adido estima 49,7 milhões. A soja ainda está no início de um longo ciclo e os números podem ser revistos conforme chuvas, temperaturas, área semeada e produtividade.
As projeções ajudam agricultores e compradores a medir a oferta potencial de soja ao longo da temporada. Mas nenhum número isolado define o preço recebido por uma saca. Demanda chinesa, câmbio, cotações internacionais, frete e custos das propriedades também pesam nas negociações.
Chuvas no Sul e custo de produção entram nas preocupações para a colheita de 2027
O relatório do adido aponta crescimento de 1,4% na área brasileira de soja, uma expansão mais lenta do que a média dos anos anteriores. Juros elevados, preços de fertilizantes e defensivos e incertezas do clima tornam o agricultor mais cuidadoso antes de ampliar a lavoura.
Parte das novas áreas deve se concentrar no Matopiba, que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Em outras regiões, a previsão considera compensações entre produtividade e clima para chegar às 184 milhões de toneladas.
As chuvas ajudaram o começo do plantio em grandes regiões produtoras, mas o escritório americano faz ressalvas sobre a persistência de precipitações no Rio Grande do Sul e a possibilidade de eventos intensos em diferentes estados. As preocupações podem ficar maiores na época da colheita de 2027 do que na semeadura.
A Conab, em boletim de 23 de outubro, também observou umidade favorável à soja em Mato Grosso e Goiás, enquanto chuvas excessivas restringiam trabalhos em parte do Sul. São condições registradas no campo, não prova de que a safra recorde vá falhar ou de que os estoques já estejam diminuindo.
Mais soja colhida e menos soja sobrando: o que pode mudar para produtores e compradores?
Se as exportações e o consumo industrial crescerem como projetado, o Brasil poderá terminar o ciclo com menos grãos disponíveis de uma safra para a seguinte. Para o produtor, acompanhar o ritmo dos embarques, a procura das fábricas e as próximas estimativas de produção pode ajudar nas decisões de venda e armazenagem.
O impacto sobre os preços ainda é incerto. Uma queda prevista do estoque final não assegura valorização da saca, assim como uma safra maior não garante queda de preços. Os números serão atualizados até a colheita, e a oferta de outros países também interfere no mercado.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

