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Brasil prepara seu primeiro leilão de gás natural da União e colocará 1,1 milhão de m³ por dia à disposição de siderúrgicas, químicas, fábricas de fertilizantes, vidro e cerâmica
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 06/10/2026 às 15:25
Atualizado em 06/10/2026 às 15:50
Petróleo e Gás
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Brasil prepara leilão inédito de 1,1 milhão de m³ de gás por dia para abastecer indústrias de base entre março e dezembro de 2027.
O Brasil prepara uma operação inédita para colocar parte do gás natural pertencente à União diretamente em disputa entre grandes consumidores industriais. Segundo a Pré-Sal Petróleo, a PPSA, o primeiro Leilão de Gás Natural da União tem como data-alvo 22 de outubro de 2026 e prevê a oferta de 1,1 milhão de metros cúbicos por dia durante parte de 2027. O combustível será direcionado inicialmente a setores como química, petroquímica, fertilizantes nitrogenados, cerâmica, vidro, siderurgia, metalurgia e mineração.
O volume será entregue na saída da Unidade de Tratamento de Gás de Itaboraí, instalada no Complexo de Energias Boaventura, antigo Comperj, no Rio de Janeiro. A partir dali, cada comprador terá de contratar o transporte até sua unidade industrial. O fornecimento está previsto entre março e dezembro de 2027.
Leilão vai colocar 1,1 milhão de metros cúbicos por dia no mercado
A escala ajuda a entender o tamanho da operação. A PPSA pretende oferecer 1,1 milhão de metros cúbicos de gás natural processado por dia. Esse volume será transformado em lotes padronizados de 10 mil metros cúbicos diários.
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Na prática, a primeira rodada poderá reunir até 110 lotes.
A divisão em pequenos lotes permite que empresas com demandas diferentes participem do mesmo processo. Uma fábrica não precisará necessariamente comprar centenas de milhares de metros cúbicos por dia para entrar na disputa.
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A Portaria Normativa MME nº 141/2026 estabelece ainda que cada grupo econômico poderá adquirir, inicialmente, no máximo 16 lotes, correspondentes a 160 mil metros cúbicos de gás por dia.
Cinco grandes setores industriais terão prioridade
O primeiro leilão não será aberto inicialmente a qualquer consumidor de gás. A prioridade foi direcionada para atividades classificadas pelo governo como indústria de base, segmentos que utilizam grande quantidade de energia ou gás natural diretamente no processo produtivo.
O maior espaço será destinado às indústrias química e petroquímica, que poderão disputar até 35 lotes. Siderurgia, metalurgia e mineração terão até 32. O setor cerâmico terá até 20 lotes, fertilizantes nitrogenados até 13 e a indústria de vidro até 10.
Somados, os limites chegam exatamente aos 110 lotes que representam os 1,1 milhão de metros cúbicos diários previstos para a primeira rodada.
A distribuição procura aproximar a oferta do peso de cada segmento na demanda industrial de gás natural.
Uma única empresa poderá comprar até 160 mil m³ por dia
O limite individual também é importante. Cada participante, considerando todo o grupo econômico ao qual pertence, poderá adquirir inicialmente no máximo 160 mil metros cúbicos por dia.
Isso representa 16 lotes.
A regra evita que uma única empresa compre a maior parte do volume disponível e procura distribuir o gás entre diferentes consumidores industriais.
Caso sobrem lotes na primeira etapa, a PPSA poderá realizar uma nova rodada com regras diferentes. Se ainda houver gás sem comprador, a legislação permite um novo leilão no mesmo ano destinado a consumidores livres industriais que não façam parte dos cinco setores prioritários.
Ou seja, a estrutura foi montada para tentar evitar que parte do gás continue sem destino comercial.
Gás sairá do Complexo de Energias Boaventura, no Rio de Janeiro
A entrega física terá um ponto definido. O gás será disponibilizado na saída da Unidade de Tratamento de Gás de Itaboraí, conhecida como UTG Itaboraí, dentro do Complexo de Energias Boaventura.
Depois desse ponto, a responsabilidade logística muda de mãos.
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A empresa vencedora terá de contratar capacidade de transporte para levar o combustível até sua fábrica. Isso poderá ser feito diretamente ou por intermédio de uma comercializadora autorizada pela ANP e habilitada a atuar como carregadora.
Esse detalhe é fundamental porque o valor vencido no leilão não representa sozinho todo o custo final do gás dentro de uma indústria localizada a centenas ou milhares de quilômetros de Itaboraí.
Transporte, distribuição e outros encargos podem entrar na conta antes de o combustível chegar ao consumidor final.
Petrobras terá papel importante antes de o gás chegar ao leilão
Embora a venda seja comandada pela PPSA, a Petrobras também participa da estrutura. Em 10 de setembro de 2026, PPSA e Petrobras firmaram um acordo com prazo de três anos que designou a estatal como agente comercializadora do gás natural da União.
O arranjo prevê operações envolvendo gás rico e gás processado entre as duas empresas.
Isso permite que a PPSA receba volumes de gás já processados e posteriormente os ofereça diretamente ao mercado por meio dos leilões.
A assinatura desse acordo foi uma das etapas que permitiram estruturar o primeiro certame previsto para outubro.
Governo quer usar o gás para aumentar a competição
O novo modelo faz parte de uma política mais ampla de abertura do mercado de gás natural.
Historicamente, o mercado brasileiro foi marcado por forte concentração na produção, processamento, transporte e comercialização.
Nos últimos anos, novas empresas passaram a produzir e vender gás, transportadoras se tornaram independentes e grandes consumidores começaram a migrar para o chamado mercado livre.
A estratégia agora acrescenta um novo ofertante: a própria União, por intermédio da PPSA.
Em vez de comercializar esses volumes apenas por estruturas anteriores, o governo pretende utilizar leilões para aproximar o gás diretamente de consumidores livres industriais.
A expectativa oficial é aumentar a concorrência e criar referências mais transparentes de preço para o mercado.
Siderúrgicas e mineradoras poderão disputar até 320 mil m³ por dia
A maior reserva depois das indústrias química e petroquímica ficará com siderurgia, metalurgia e mineração.
São até 32 lotes, equivalentes a 320 mil metros cúbicos por dia.
Essas atividades utilizam grandes quantidades de energia térmica. Dependendo do processo industrial, o gás pode substituir outros combustíveis e alimentar fornos, sistemas de aquecimento e diferentes etapas produtivas.
Para empresas intensivas em energia, pequenas diferenças no custo por unidade de gás podem se transformar em grandes valores quando multiplicadas por milhões de metros cúbicos ao longo de um ano.
É por isso que a disputa por contratos mais competitivos interessa diretamente a setores exportadores.
Cerâmica e vidro também dependem de calor constante
O gás natural também é importante em duas indústrias menos lembradas quando se fala em grandes consumidores: cerâmica e vidro.
Fornos usados nesses setores precisam trabalhar em temperaturas elevadas e de maneira extremamente controlada.
Alterações no combustível podem interferir em qualidade, eficiência e custos.
A indústria cerâmica recebeu espaço para até 20 lotes, equivalentes a 200 mil metros cúbicos por dia. O setor de vidro terá até 10 lotes, ou 100 mil metros cúbicos diários.
A PPSA já iniciou reuniões com representantes da indústria cerâmica para explicar as regras do certame, os limites de aquisição e as formas possíveis de contratação.
Gás comprado no leilão não poderá simplesmente ser revendido
Outra regra procura evitar que empresas comprem o gás apenas para negociar novamente com lucro. O participante vencedor deverá destinar os volumes adquiridos ao próprio consumo industrial.
A revenda, cessão ou transferência para terceiros será limitada a situações específicas previstas na regulamentação, como oscilações temporárias de consumo ou paradas de manutenção.
Mesmo nesses casos, a norma proíbe que o comprador obtenha margem comercial ou ágio sobre o preço pago à PPSA.
A ideia é fazer com que o benefício da oferta chegue efetivamente às unidades produtivas que justificaram a criação do leilão.
Edital definitivo ainda não havia sido publicado em 6 de outubro
O processo ainda está em fase de estruturação. A PPSA publicou o pré-edital em 22 de setembro e recebeu contribuições do mercado até 28 de setembro.
Até 6 de outubro, a página oficial do certame ainda apresentava os documentos como preliminares e deixava claro que eles poderiam sofrer alterações antes da divulgação do edital definitivo.
A data de 22 de outubro permanece apresentada pela companhia como alvo para realização do leilão, mas detalhes finais dependerão da publicação dos documentos definitivos.
Isso significa que volumes gerais e diretrizes já estão definidos em atos do MME, enquanto regras operacionais específicas ainda podem receber ajustes.
Primeiro leilão pode abrir caminho para vendas anuais até 2030
O certame de outubro não foi desenhado para ser um evento isolado. A Portaria Normativa nº 141 determina que a PPSA realize um leilão desse tipo uma vez por ano, com entrega do gás até o final do ano seguinte.
A política cobre o período de 2026 a 2030 e ainda permite a realização de leilões adicionais quando existirem volumes disponíveis.
Isso cria a possibilidade de uma sequência de ofertas conforme a produção de gás pertencente à União crescer.
O efeito estrutural pode ser maior que os 1,1 milhão de metros cúbicos iniciais porque novos campos do pré-sal continuam entrando em produção e aumentando a parcela de petróleo e gás recebida pelo governo.
União começa a assumir papel de fornecedora direta no mercado industrial
O ponto mais importante dessa história não está apenas no volume. Pela primeira vez, grandes indústrias poderão participar de um leilão estruturado especificamente para comprar gás natural processado pertencente à União.
O modelo coloca lado a lado três elementos que raramente apareciam juntos: produção do pré-sal, propriedade pública sobre parte desse gás e venda direta para consumidores industriais livres.
Se o certame tiver forte concorrência, poderá criar uma nova referência comercial para o mercado.
Se os preços não forem atrativos depois de incluído o transporte, o resultado também servirá para mostrar onde continuam os maiores gargalos da cadeia brasileira.
Em 22 de outubro, caso o cronograma seja mantido, até 110 lotes poderão começar a definir uma experiência inédita no mercado nacional. Serão 1,1 milhão de metros cúbicos por dia destinados inicialmente a setores que produzem aço, fertilizantes, produtos químicos, vidro e cerâmica.
O gás já existe no pré-sal. A infraestrutura de tratamento está montada em Itaboraí. A nova pergunta é quanto a indústria estará disposta a pagar para levar esse combustível até dentro de suas fábricas e se a entrada direta da União conseguirá aumentar de fato a competição no mercado brasileiro.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

