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Comunidades que recolhem o caroço jogado fora pelas batedeiras de açaí do Pará sustentam hoje parte das caldeiras da Alunorte, refinaria de alumina da Hydro que consumiu 104,6 mil toneladas do resíduo em 2025, mais de quatro vezes o volume de 2023
Escrito por Paulo Nogueira
Publicado em 24/10/2026 às 00:15
Atualizado em 24/10/2026 às 00:16
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O caroço de açaí que sobra do despolpamento no Pará virou combustível nas caldeiras da Alunorte, em Barcarena: a refinaria de alumina da Hydro já queimou 279 mil toneladas do resíduo no lugar de carvão mineral desde 2023, abastecida por dois grupos que organizam a coleta nas cidades do estado.
A Hydro divulgou nesta semana os números do projeto que troca parte do carvão mineral da Alunorte por caroço de açaí. Os dados foram publicados pelo portal Brasil Mineral e pelo site Notícia Marajó.
A refinaria fica em Barcarena, no nordeste do Pará, e produz alumina, etapa intermediária entre a bauxita e o alumínio. As caldeiras que geram energia térmica para essa etapa passaram a receber a biomassa.
Para quem vive do açaí, a novidade está na outra ponta da cadeia. O caroço que antes era descarte agora tem comprador e caminho certo até a fábrica.
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Consumo saiu de 24 mil para 104,6 mil toneladas em dois anos
Segundo a Hydro, a operação consumiu 24 mil toneladas de caroço em 2023. O volume subiu para 73,5 mil toneladas em 2024 e chegou a 104,6 mil toneladas em 2025.
Entre janeiro e setembro de 2026, a refinaria já absorveu cerca de 75 mil toneladas. Somando tudo desde os primeiros testes, são aproximadamente 279 mil toneladas processadas.
Na comparação entre 2023 e 2025, o consumo anual ficou mais de quatro vezes maior. É o tipo de salto que tira um projeto da fase de teste e o coloca dentro da rotina da fábrica.
Pesquisa com a UFPA começou em 2022 como estudo preliminar
O projeto nasceu de uma parceria entre a Hydro e a Universidade Federal do Pará, a UFPA. A ideia, anunciada em 2022, era testar se o caroço tinha poder calorífico suficiente para alimentar as caldeiras.
Especialistas da universidade e da empresa trabalharam juntos nos testes. Com a viabilidade comprovada, o uso da biomassa cresceu de forma constante, segundo a companhia.
O objetivo declarado é duplo: reduzir o uso de carvão mineral na refinaria e dar destino a um resíduo que se acumula em grande quantidade no estado.
Pará colhe 89,5% do açaí do país e só 20% do fruto vira polpa
A oferta de matéria-prima é o que sustenta o projeto. O Pará concentrou 89,5% de todo o açaí colhido no Brasil em 2025, o equivalente a 1,87 milhão de toneladas, segundo dados do IBGE citados pela Hydro.
Apenas cerca de 20% do fruto vira polpa. A maior parte, entre 80% e 90%, somando semente e casca, é descartada depois do processamento.
Fico imaginando o tamanho desse monte de caroço em cada cidade paraense. É justamente esse volume que exige uma destinação adequada, como reconhece a própria empresa.
Dois grupos parceiros organizam a coleta nas cidades
A demanda da refinaria estimulou a formação de uma cadeia local de fornecimento. Hoje, dois grupos parceiros mantêm alianças locais para organizar a coleta dos caroços pelas cidades do Pará.
Segundo a Hydro, essa rede gera renda extra para comunidades que antes lidavam com o caroço apenas como descarte. A empresa não informou quanto é pago por tonelada nem quantas pessoas participam da coleta.
Depois de recolhido, o material segue para as unidades das empresas parceiras, que fazem o beneficiamento e a secagem antes de a biomassa chegar à Alunorte.
Umidade caiu de 35% para menos de 25%
O trabalho conjunto nos últimos dois anos reduziu a umidade do caroço de 35% para menos de 25%, de acordo com a companhia. Isso melhora a queima nas caldeiras.
Quanto mais seca a biomassa, menos energia se perde para evaporar água dentro da caldeira. Para uma refinaria do porte da Alunorte, essa diferença pesa na eficiência exigida pela operação.
A empresa afirma que a biomassa chega pronta para servir imediatamente como matéria-prima para gerar energia, sem etapas adicionais dentro da refinaria.
COO da Hydro fala em simbiose entre alumínio e açaí
“Esse é um projeto que demonstra a simbiose entre as indústrias do alumínio e do açaí”, afirmou Carlos Neves, vice-presidente sênior e COO da Hydro Bauxita & Alumina.
Segundo ele, a iniciativa alia “o suprimento de uma fonte energética para a refinaria e a solução da questão ambiental que é a destinação do caroço do açaí”.
Neves também disse que, ao adotar o insumo, a empresa evita “que milhares de toneladas fiquem acumuladas sem uso na natureza” e fortalece a economia circular no Pará.
Resíduo virou peça da estratégia de descarbonização da refinaria
A Hydro apresenta o uso do caroço como parte da estratégia de descarbonização da Alunorte, que transforma um rejeito regional em matriz térmica para a planta.
Segundo a empresa, os estudos e testes da biomassa continuam, e as etapas de engenharia buscam viabilizar a ampliação do uso em substituição ao carvão mineral, com uma matriz energética cada vez menos fóssil.
No ritmo de 2026, a refinaria consome em média pouco mais de 8 mil toneladas de caroço por mês. O volume de 2025, porém, ainda é o maior registrado desde o início do projeto.
O que a companhia não informou é a fatia do carvão que já foi substituída. Sem esse dado, não dá para medir quanto das caldeiras ainda depende do combustível fóssil.
Hydro estuda caldeiras que funcionem só com o caroço
O próximo passo em estudo é substituir parte das caldeiras para que operem apenas com caroço de açaí, eliminando o carvão mineral nessas estruturas, segundo a Hydro.
“Estamos elaborando a engenharia necessária para amadurecer essa conversão”, disse Carlos Neves. A empresa não divulgou prazo nem valor para a mudança.
A troca ganha peso num momento delicado para a refinaria. No começo de outubro, a Hydro já tinha estimado o impacto de uma falha no fornecimento de gás que obrigou a Alunorte a cortar produção, o que mostra o quanto a energia pesa na conta da fábrica.
Você acha que o caroço de açaí pode substituir todo o carvão das caldeiras de uma refinaria do tamanho da Alunorte?
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Hydro troca parte do carvão da Alunorte por caroço de açaí
Caroço de açaí é usado para reduzir consumo de carvão mineral em refinaria no Pará
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Paulo Nogueira.

