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Desde 29 de setembro, órgãos do governo Trump são obrigados a trocar inteligência artificial por superinteligência em documentos oficiais, mas a ordem não vale para empresas e professor da UFPE vê estratégia de marketing
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 17/10/2026 às 18:39
Atualizado em 17/10/2026 às 18:40
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Ordem executiva determina que órgãos do Executivo dos Estados Unidos adotem “Super Intelligence” e “SI” no lugar de “Artificial Intelligence” e “AI” em comunicações e documentos não estatutários. A medida não obriga empresas, universidades ou outros países a abandonar o termo inteligência artificial.
Donald Trump formalizou uma tentativa de mudar a terminologia usada pelo governo dos Estados Unidos para inteligência artificial. Desde 29 de setembro de 2026, departamentos e agências do Poder Executivo federal devem, dentro dos limites permitidos pela lei, utilizar “Super Intelligence” e “SI” no lugar de “Artificial Intelligence” e “AI” em correspondências oficiais, comunicações públicas, sites, relatórios, documentos de política pública e outros materiais não estatutários.
A determinação consta da Ordem Executiva 14434, assinada por Trump. Ela não muda automaticamente o nome da tecnologia no mercado mundial, não obriga empresas privadas a adotar a expressão e tampouco apaga documentos federais antigos, contratos ou regulamentos já existentes.
A tentativa de popularizar o novo nome chamou atenção porque a expressão “inteligência artificial” está consolidada há cerca de sete décadas. Em reportagem do g1, Cleber Zanchettin, professor de Engenharia da Computação da Universidade Federal de Pernambuco e especialista em IA, interpretou o discurso de Trump como uma estratégia de marketing para chamar atenção, sem efeito prático sobre a nomenclatura usada de forma geral pelo setor.
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O que exatamente Trump determinou em 29 de setembro
A ordem vale para a terminologia utilizada pela estrutura do Poder Executivo federal americano.
O texto determina que departamentos e agências substituam “Artificial Intelligence” e “AI” por “Super Intelligence” e “SI” em materiais como comunicações públicas, sites, relatórios e documentos de política pública que não estejam definidos diretamente em lei.
A Casa Branca afirma que o novo nome representa melhor o que considera ser o potencial das tecnologias atuais.
Na justificativa presidencial, sistemas modernos já fariam mais do que simplesmente imitar ou automatizar aspectos da inteligência humana e estariam entrando em uma nova fase tecnológica.
Essa é a interpretação adotada pela administração Trump. Não se trata de um consenso técnico internacional sobre uma mudança de categoria científica.
Ordem não obriga empresas de tecnologia a mudar o nome
O alcance da determinação é uma das principais ressalvas.
A ordem presidencial atua sobre órgãos que fazem parte do Executivo federal americano. Ela não determina que empresas como OpenAI, Google, Microsoft, Meta, Anthropic, Nvidia ou outras companhias passem a abandonar a expressão inteligência artificial.
Também não existe, no texto da ordem, obrigação imposta a universidades, publicações científicas, organizações internacionais ou governos estrangeiros.
Assim, uma empresa pode continuar classificando seus produtos como sistemas de inteligência artificial mesmo dentro dos Estados Unidos.
O alcance imediato é administrativo: muda a terminologia que o Executivo americano deverá usar em seus próprios materiais.
Documentos antigos não precisam ser reescritos
A ordem também possui uma limitação temporal e documental.
Ela estabelece expressamente que não é necessário modificar regulamentos, ações presidenciais, contratos, concessões e outros documentos históricos emitidos anteriormente.
Isso significa que referências anteriores a “Artificial Intelligence” continuarão aparecendo em inúmeros textos oficiais americanos.
A mudança é voltada principalmente para novos materiais produzidos pelo Executivo depois da ordem.
Governo americano ainda usa definição legal de inteligência artificial
Existe outra particularidade importante.
Embora a administração tenha determinado a troca do nome, a própria ordem estabelece que, por enquanto, “Super Intelligence” significa as mesmas tecnologias e sistemas abrangidos pela definição legal existente de “artificial intelligence” no Código dos Estados Unidos.
Ou seja, a troca de palavras não criou automaticamente uma nova categoria técnica.
Para executar a ordem, o governo continua utilizando como base a definição jurídica já existente de inteligência artificial.
Isso reforça a distinção entre uma mudança de terminologia administrativa e uma transformação científica na definição da tecnologia.
Casa Branca quer apresentar uma nova definição federal
A Ordem Executiva 14434 também determina uma etapa posterior.
O assessor presidencial para Ciência e Tecnologia deve apresentar ao presidente, dentro de 60 dias, uma proposta de texto legislativo para estabelecer uma definição federal de “Super Intelligence” e “SI”.
Essa proposta deverá avaliar se a nova definição deve modificar, ampliar ou substituir a definição legal existente de inteligência artificial.
Também poderá sugerir alterações em referências legais ao termo AI e recomendar novas medidas do Executivo.
Até que haja uma mudança legal ou nova ação presidencial, entretanto, a definição utilizada pela ordem permanece ligada à definição americana existente de inteligência artificial.
Trump disse que inteligência artificial faz a tecnologia soar “falsa”
A mudança vinha sendo defendida publicamente pelo presidente.
Em discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, Trump afirmou que a expressão “inteligência artificial” fazia a tecnologia parecer “falsa” e defendeu que documentos americanos e, segundo sua expectativa, materiais do restante do mundo passassem a utilizar “superinteligência”.
Depois, ele também colocou em discussão termos como “Superinteligência” e “Inteligência Superior”.
Naquele momento, porém, não estava claro apenas pelas declarações públicas como uma eventual alteração seria aplicada.
A ordem executiva de 29 de setembro resolveu parte dessa dúvida: dentro do Executivo americano, a troca tornou-se uma diretriz formal.
Isso não significa que Trump tenha poder para mudar unilateralmente o vocabulário utilizado globalmente.
Professor da UFPE vê jogada de marketing
Para Cleber Zanchettin, professor da UFPE e especialista em inteligência artificial, o discurso presidencial deve ser observado também pelo seu caráter comunicacional.
Ao comentar as declarações de Trump, ele classificou a iniciativa como uma “jogada de marketing para chamar atenção, sem efeito prático”, segundo o g1.
A existência da ordem executiva exige uma nuance nessa avaliação.
Dentro do governo federal americano, existe agora um efeito administrativo concreto: a nomenclatura oficial do Executivo deve mudar.
Já fora dessa estrutura, especialmente na tentativa de substituir mundialmente uma expressão consolidada em ciência, mercado e sociedade, não há mecanismo semelhante de imposição.
Outro pesquisador vê mensagem de soberania tecnológica
O pesquisador Allan Pscheidt apresentou outra interpretação.
Segundo ele, a tentativa de cunhar o termo “superinteligência” pode ser entendida como parte da disputa internacional por liderança em inteligência artificial.
Pscheidt comparou o momento à corrida espacial e afirmou que o discurso procura transmitir a ideia de que os Estados Unidos avançariam rapidamente em direção à chamada AGI, ou inteligência artificial geral.
AGI é uma expressão usada para uma hipótese de sistema capaz de executar uma ampla variedade de tarefas intelectuais em nível semelhante ou superior ao humano.
O próprio pesquisador, entretanto, ressalta uma limitação fundamental: não há comprovação científica de que uma superinteligência já exista.
“Superinteligência” já tinha outro significado no debate tecnológico
É justamente nesse ponto que a escolha do novo nome pode gerar confusão.
No debate acadêmico e tecnológico, expressões como inteligência artificial geral e superinteligência são frequentemente usadas para discutir capacidades hipotéticas superiores às existentes atualmente.
Ao usar “Super Intelligence” como substituto administrativo para toda a categoria anteriormente chamada de inteligência artificial, o governo Trump aplica o termo de maneira mais ampla.
A própria ordem deixa isso evidente ao dizer que, para seus efeitos atuais, “SI” corresponde às tecnologias já enquadradas na definição legal de IA.
Portanto, um sistema não precisa ter inteligência acima da humana para ser chamado de “Super Intelligence” pela administração federal americana.
Termo inteligência artificial surgiu há cerca de 70 anos
A dificuldade de mudar globalmente a nomenclatura está também na história da área.
O termo “artificial intelligence” foi formalizado em meados da década de 1950 nos Estados Unidos e está associado aos trabalhos de pesquisadores como John McCarthy, Marvin Minsky, Claude Shannon e Nathaniel Rochester.
A expressão surgiu para identificar uma área que reunia conhecimentos de matemática, engenharia, estatística e computação com o objetivo de desenvolver máquinas capazes de executar tarefas associadas ao raciocínio.
John McCarthy é normalmente relacionado à criação do termo em 1955.
As pesquisas, entretanto, são anteriores.
Alan Turing já discutia máquinas capazes de realizar processos associados ao pensamento nas décadas de 1940 e 1950.
IA se tornou parte do vocabulário cotidiano
Sete décadas depois, a expressão deixou de circular apenas em laboratórios.
Reconhecimento facial utilizado por bancos, assistentes digitais, drones, sistemas veiculares e recursos de fotografia computacional são exemplos de aplicações associadas à inteligência artificial.
A partir de 2017, a chamada IA generativa ganhou força e posteriormente chegou ao grande público por meio de ferramentas capazes de criar texto, imagens, áudio e vídeo.
ChatGPT, Gemini, Claude e outros sistemas ajudaram a transformar a sigla IA em parte do vocabulário cotidiano.
Essa popularização torna uma mudança internacional de nomenclatura muito mais difícil do que simplesmente substituir uma expressão em documentos governamentais.
Novo termo também pode aumentar receio do público, diz especialista
Zanchettin chama atenção ainda para um possível efeito contrário ao pretendido.
Segundo o professor, parte da população ainda tenta compreender o funcionamento básico da inteligência artificial e já demonstra receio em relação à tecnologia.
Termos como “superinteligência” ou “inteligência suprema” poderiam, em sua avaliação, parecer ainda mais ameaçadores e ampliar a rejeição.
A discussão ocorre em um momento de preocupação pública com sistemas que possam superar determinadas capacidades humanas.
Segundo pesquisa da CNN citada pelo g1, cerca de nove em cada dez americanos disseram estar mais preocupados do que animados com a possibilidade de a IA algum dia superar a inteligência humana.
Casa Branca já passou a usar SI em outras iniciativas
A mudança não permaneceu apenas no texto da ordem.
No mesmo dia, a Casa Branca apresentou o America.gov, portal destinado a centralizar acesso a informações e serviços federais, e passou a descrever o uso da tecnologia do sistema como Super Intelligence (SI).
Isso mostra que a administração já começou a incorporar a nova expressão em sua comunicação.
A adoção oficial, entretanto, continua circunscrita ao alcance da política federal definida por Trump.
Mudança americana não muda automaticamente o vocabulário mundial
A diferença entre esses dois níveis é central.
Trump conseguiu determinar como departamentos e agências subordinados ao Executivo devem chamar a tecnologia.
Ele não conseguiu, pela ordem executiva, alterar a terminologia científica internacional nem obrigar o setor privado a fazer o mesmo.
O termo inteligência artificial continua sendo utilizado globalmente por empresas, pesquisadores, universidades e organizações internacionais.
A possibilidade de “Super Intelligence” substituir “Artificial Intelligence” fora da administração americana dependerá da adesão espontânea de outros atores, algo que a ordem presidencial, por si só, não produz.
Assim, desde 29 de setembro existe uma mudança oficial e concreta dentro do Executivo dos Estados Unidos. Fora dele, a tentativa de transformar “superinteligência” no novo nome mundial da IA continua sendo uma disputa de linguagem e comunicação, exatamente onde especialistas como Cleber Zanchettin veem forte componente de marketing.
Na sua opinião, trocar inteligência artificial por superinteligência muda alguma coisa ou é só marketing? Deixe sua opinião nos comentários.
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Trump superinteligência
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

