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Indústria do cacau recebe 226 mil toneladas, 25% a mais, e passa 2 trimestres sem importar amêndoa, mas as fábricas moem 18,5% menos que em 2023 e a demanda é o gargalo
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 11/10/2026 às 14:36
Atualizado em 11/10/2026 às 14:37
Indústria
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Dados da AIPC mostram que sobrou cacau nacional nas fábricas na safra 2025/26, mas a moagem de nove meses ainda está 35 mil toneladas abaixo de 2023, e a própria associação aponta a demanda como o ponto fraco.
A indústria do cacau recebeu 226.497 toneladas de amêndoas de cacau entre outubro de 2025 e setembro de 2026, alta de 25,3% sobre o ciclo anterior. Os números foram divulgados na sexta-feira (9) pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), segundo a Forbes Brasil.
Só que o dado tem um segundo lado. De janeiro a setembro de 2026, as fábricas fizeram a moagem de cacau de 155.169 toneladas, 18,5% menos que no mesmo período de 2023. Chegaram mais amêndoas de cacau, mas as máquinas ainda não voltaram ao ritmo de antes.
Um cuidado antes de seguir. O número mede as amêndoas de cacau que entraram nas fábricas, não a colheita inteira do país, e a nota da AIPC reproduzida pela Revista Cultivar compara só com o ciclo anterior, sem falar em recorde. A Piranot faz o mesmo alerta: o dado não prova preço mais baixo na prateleira.
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Quantas amêndoas de cacau a mais chegaram às fábricas em um ano?
Se 226.497 toneladas são 25,3% a mais, o ciclo anterior ficou perto de 180,8 mil toneladas (226.497 dividido por 1,253). A diferença é de cerca de 45,7 mil toneladas, conta feita aqui com os números da AIPC.
No terceiro trimestre, o recebimento foi de 71.652 toneladas. Foi o maior volume para um terceiro trimestre na série que a AIPC acompanha, de 2023 a 2026, segundo a Canal Rural. O trimestre coincide com a época em que a safra brasileira concentra mais amêndoa, de abril a setembro.
Por que a moagem de cacau não acompanha a oferta?
A resposta da AIPC para a indústria do cacau, que tem amêndoas de cacau de sobra, é a demanda. A presidente-executiva da associação, Anna Paula Losi, diz que a moagem teve “reação importante” no terceiro trimestre, mas que o acumulado “permanece significativamente abaixo dos níveis de 2023 e 2024”, como publicou a Revista Cultivar.
Dá para medir o buraco. Com 155.169 toneladas moídas em nove meses e 18,5% abaixo de 2023, aquele ano chegou a cerca de 190,4 mil toneladas no mesmo recorte. A diferença na moagem de cacau é de 35 mil toneladas. Contra 2024, que ficou 8,6% acima, a conta dá cerca de 169,8 mil toneladas, ou 14,6 mil a mais que agora.
No terceiro trimestre, a moagem de cacau ficou 17.909 toneladas abaixo do que entrou: 71.652 toneladas chegaram às fábricas e 53.743 foram moídas. A AIPC não informa quanto disso virou estoque, e a conta não fecha sozinha, porque a amêndoa que chega num mês pode ser moída no seguinte.
Quem processa o cacau no Brasil?
O site da AIPC diz que a associação reúne Barry Callebaut, Cargill e Olam, mais a IBC, que entrou em 2024. Juntas, essas empresas respondem por 93% a 95% da compra e da moagem de cacau no país.
A indústria do cacau, no recorte da AIPC, soma mais de 4 mil empregos diretos e indiretos e faz parte de uma cadeia com mais de 120 mil pessoas, entre produtores rurais e fábricas de chocolate. A AIPC estima em R$ 23 bilhões por ano o valor gerado ao país. É a própria entidade quem faz essas contas, e o número não foi checado por fonte independente.
O Brasil parou de importar cacau?
Por enquanto, a indústria do cacau parou de comprar fora. Pelo segundo trimestre seguido, não houve importação de amêndoas de cacau. Todas as 18.068 toneladas compradas de fora em 2026 entraram no primeiro trimestre, 57,1% menos que em igual período de 2025. Isso equivale a cerca de 42,1 mil toneladas no ano passado, por cálculo reverso.
A AIPC pede calma com a leitura. Para a entidade, o recuo é conjuntural e não prova que o país produza tudo o que precisa. Segundo Losi, “as importações têm caráter complementar” e a necessidade varia conforme oferta e demanda, de acordo com a Revista Cultivar.
Nos derivados, o movimento é parecido. As importações caíram 16,1% no trimestre, para 9.373 toneladas, e somaram 32.709 toneladas em nove meses, 2,0% menos. A associação descreve esse conjunto como compatível com um mercado interno ainda frágil.
Para onde vai o derivado de cacau que o Brasil exporta?
Aqui está a notícia mais animadora. As fábricas brasileiras exportaram 17.311 toneladas de derivados de cacau no terceiro trimestre, 22,1% mais que no segundo e 54,3% mais que no mesmo período de 2025. De janeiro a setembro, foram 44.050 toneladas, alta de 10,2%.
Argentina e Estados Unidos ficaram com cerca de 32% do volume cada. Isso dá algo perto de 5,5 mil toneladas para cada destino no trimestre, conta nossa com o percentual da AIPC.
Se o Brasil exportou 17.311 toneladas e importou 9.373 de derivados, o saldo do trimestre foi de 7.938 toneladas a favor das fábricas daqui. A AIPC diz que esse avanço dos embarques ajuda a explicar a melhora da moagem.
O que a StoneX diz sobre o preço do cacau e do chocolate?
A nota da AIPC traz uma análise de Lucca Bezzon e Leonardo Rossetti, da StoneX. Para eles, o terceiro trimestre consolidou a acomodação dos preços do cacau iniciada no primeiro semestre, com a recuperação da safra na Costa do Marfim e a reposição dos estoques mundiais, conforme a Revista Cultivar.
O cenário mais provável, dizem os analistas, é de preços abaixo do pico da crise de oferta, mas com muita volatilidade. O motivo: atraso na formação das vagens em Costa do Marfim e Gana e os primeiros sinais de El Niño.
Sobre o chocolate na prateleira, nem a AIPC nem a StoneX falam em preço de barra ou ovo, e o dado de hoje não permite prometer queda. A pergunta já apareceu por aqui, na matéria Preço do chocolate vai cair?, publicada em janeiro.
O que falta para a recuperação virar emprego?
Losi resume o ponto: “Para que a maior oferta de cacau se traduza em mais atividade industrial, renda e empregos, a demanda por derivados precisa se recuperar de forma consistente“. A frase está na nota da AIPC.
A executiva também avisa que safra melhor não é recuperação estrutural para a indústria do cacau. Clima, sanidade das lavouras, produtividade, assistência técnica e investimento no campo decidem se 2025/26 foi um ponto fora da curva ou o começo de uma volta.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

