Faça um comentário
6 min de leitura
NASA revela que centro de massa da Terra não fica parado e se desloca milímetros conforme água, gelo e até o ar mudam de lugar
Escrito por Ana Alice
Publicado em 24/10/2026 às 23:51
Ciência e Tecnologia
Grupo
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Água, neve, gelo, oceanos e massas de ar redistribuem peso pelo planeta ao longo do ano e fazem o geocentro terrestre oscilar alguns milímetros em diferentes direções.
O centro de massa da Terra não permanece exatamente no mesmo ponto ao longo do ano. Água das chuvas, neve, gelo, oceanos e até grandes massas de ar redistribuem peso pela superfície do planeta e fazem esse ponto se deslocar alguns milímetros em diferentes direções.
Uma análise liderada pelo Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA refinou as medições desse movimento e mostrou como as estações participam dessas pequenas oscilações.
O fenômeno não significa que o núcleo terrestre esteja mudando de posição dentro do planeta. O ponto analisado é o centro de massa de todo o sistema terrestre, chamado de geocentro, que considera a Terra sólida, os oceanos e a atmosfera.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O Serviço Internacional de Rotação da Terra e Sistemas de Referência (IERS) define justamente o geocentro dessa forma e registra que seu movimento ocorre na escala de poucos milímetros.
Se o planeta fosse uma esfera rígida com a massa distribuída de maneira constante, seu centro de massa ficaria praticamente sobreposto ao centro geométrico. A Terra real, porém, tem água circulando entre continentes e oceanos, neve se acumulando e derretendo, alterações na umidade do solo e massas atmosféricas que mudam de posição conforme as estações.
É essa redistribuição que faz o geocentro oscilar em relação ao centro geométrico. O movimento já era conhecido pela geodésia, mas o novo trabalho procurou estimar sua dimensão com maior precisão e entender melhor quanto cada componente do sistema terrestre contribui para o resultado.
O estudo foi publicado em 14 de setembro de 2026 no Geophysical Journal International.
Neve e água da Amazônia deslocam o centro de massa
Um dos exemplos mais claros ocorre no Hemisfério Norte. Em março, quando o acúmulo de neve na América do Norte e na Eurásia chega a um máximo sazonal, essa massa adicional desloca o centro de massa da Terra em aproximadamente 3 milímetros na direção do Polo Norte, segundo a NASA.
A situação muda poucas semanas depois. Em abril, a quantidade de água armazenada na bacia Amazônica atinge cerca de 2.400 gigatoneladas, ou aproximadamente 2,4 trilhões de toneladas.
A concentração dessa massa contribui para deslocar o geocentro cerca de 2,2 milímetros na direção da América do Sul.
O tamanho do deslocamento parece pequeno quando comparado às dimensões do planeta, mas a quantidade de matéria envolvida é enorme. O que muda não é a massa total da Terra de maneira relevante, e sim onde parte dessa massa está concentrada naquele momento.
O ciclo continua ao longo dos meses. A água acumulada pelas monções no Sudeste Asiático também contribui para a oscilação anual. Já entre agosto e outubro, o aumento da água nos oceanos provocado por chuvas e derretimento desloca o centro de massa em direção ao Pacífico Sul.
O Pacífico tem peso especial nesse processo devido à sua extensão. De acordo com a NASA, mudanças de massa naquele oceano conseguem superar as variações observadas individualmente em outras áreas oceânicas, embora mares como Mediterrâneo, Vermelho, do Norte, Báltico e de Barents também tenham participação menor.
Até o ar participa do movimento do geocentro
A atmosfera entra na conta pelo mesmo princípio. Ar tem massa e sua distribuição sobre a superfície terrestre não é uniforme ao longo do ano.
Para estimar esse efeito, os pesquisadores utilizaram um modelo do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo.
Os resultados indicaram que massas de ar frio e mais denso também ajudam a deslocar o centro de massa da Terra.
Por volta de 21 de dezembro, esse efeito aparece sobre áreas da Arábia, Ásia e norte da África. Próximo de 21 de junho, ocorre sobre partes da América do Sul e da África Austral.
Satélites ajudam a medir deslocamentos de poucos milímetros
Para medir movimentos tão pequenos em um planeta com mais de 12 mil quilômetros de diâmetro, os cientistas recorrem à geodesia espacial.
Satélites orbitam naturalmente em torno do centro de massa da Terra devido à gravidade. Mudanças minúsculas nas distâncias medidas entre esses satélites e estações instaladas no solo fornecem informações que permitem localizar o geocentro com grande precisão.
Dois equipamentos têm participação histórica nesse trabalho: LAGEOS 1 e LAGEOS 2, satélites densos lançados em 1976 e 1992.
Com aproximadamente 408 quilos cada e cobertos por refletores, eles recebem pulsos de laser disparados de estações terrestres. O tempo necessário para a luz ir até o satélite e retornar permite calcular distâncias com elevada precisão.
A técnica tradicional, porém, enfrenta limitações. As estações capazes de realizar esse rastreamento não estão distribuídas uniformemente pelo planeta, o que dificulta algumas estimativas.
A equipe liderada pelo geocientista Donald Argus, do JPL, acrescentou medições de GPS e dados orbitais de vários satélites em órbita baixa.
O método também considera outro efeito: o peso da própria água e do gelo deforma a crosta terrestre, movimentando as estações de medição instaladas sobre ela.
Essa combinação levou a uma revisão da dimensão estimada da oscilação. Segundo Argus, o movimento anual do centro de massa agora é calculado em aproximadamente metade do que os pesquisadores acreditavam oito anos antes.
A necessidade de melhorar a precisão fica evidente em outra comparação apresentada pela NASA. Duas estimativas internacionais produzidas em 2017 e 2023 divergiram em 7 milímetros, diferença comparável à própria dimensão do fenômeno que os cientistas tentam medir.
Missão GRACE-FO acompanha mudanças na gravidade da Terra
As novas estimativas foram comparadas ainda com observações da missão GRACE-FO, parceria entre a NASA e o Centro Alemão de Pesquisa em Geociências.
Dois satélites voam em formação e detectam pequenas mudanças na gravidade terrestre provocadas principalmente pela movimentação de água acima e abaixo da superfície.
Quando o primeiro satélite passa sobre uma região com maior concentração de massa, como uma bacia hidrográfica cheia, a atração gravitacional modifica levemente sua distância em relação ao segundo.
Essas variações ajudam os cientistas a acompanhar mudanças mensais no campo gravitacional da Terra.
Conhecer melhor a posição do geocentro não é apenas uma questão de medir curiosidades sobre o planeta. Ele funciona como uma referência para sistemas modernos de posicionamento, levantamento da superfície e navegação por satélite.
Felix Landerer, coautor do estudo e pesquisador do JPL, afirmou que deslocamentos tão pequenos ganham importância porque diversas atividades dependem atualmente de medições extremamente precisas.
Entre as aplicações mencionadas pela NASA estão mapeamento, navegação, logística global e agricultura de precisão.
O estudo científico descreve a oscilação como resultado da troca sazonal de massa entre atmosfera, oceanos e água continental. Nesse último grupo entram neve, gelo sobre os continentes, rios, lagos, umidade do solo e água subterrânea.
O deslocamento de poucos milímetros, portanto, não representa um movimento da Terra inteira pelo espaço nem uma alteração de seu núcleo. Ele mostra como o ponto em torno do qual a massa total do planeta se equilibra varia ligeiramente conforme enormes volumes de matéria circulam pela superfície e pela atmosfera.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

