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Reajustes salariais de 5,27% e 83% das convenções acima da inflação: o novo indicador do Banco Central mostra quanto o trabalhador ganhou e por que isso mexe com a Selic
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 07/10/2026 às 09:40
Economia
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O Banco Central passou a publicar todo mês os reajustes salariais negociados em convenções coletivas de todo o país. O dado de agosto mostra aumento médio de 5,27%, ganho real perto de 1% e quase nenhuma categoria perdendo para a inflação, um sinal que pesa na decisão sobre os juros.
O Banco Central passou a divulgar todo mês um indicador de reajustes salariais negociados entre sindicatos de trabalhadores e de empresas. O anúncio saiu em 06/10/2026, na nota do BC sobre os indicadores de reajustes salariais negociados, e a série já está aberta no sistema de séries temporais da instituição.
O objetivo é medir, com dado oficial e mensal, quanto os salários do setor privado formal sobem nas negociações e se ganham ou perdem da inflação. Para o trabalhador, os reajustes salariais da média servem de régua para o aumento da própria categoria. Para o BC, salário que sobe rápido demais pode empurrar preços e atrasar a queda dos juros.
O que o indicador do Banco Central mede e de onde vêm os dados?
A base não é o Caged nem a PNAD. O indicador usa as convenções coletivas registradas no Sistema Mediador, do Ministério do Trabalho e Emprego. São os acordos fechados entre o sindicato de uma categoria e o sindicato patronal. Os acordos coletivos firmados com uma única empresa ficam de fora.
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O método está no boxe “Estimativa dos reajustes salariais a partir das convenções coletivas de trabalho”, do Relatório de Política Monetária de setembro, e na Nota Técnica 60 do BC. Entram cerca de 75% das convenções coletivas. Saem as que trazem reajuste parcelado, só piso, abono, gratificação, multa ou adicional, porque nelas não dá para isolar um percentual único.
Para separar aumento de reposição, o BC compara cada reajuste com o INPC. É o índice do IBGE para as famílias de renda mais baixa e o mais citado nas convenções coletivas. Uma convenção conta como “acima da inflação” quando supera o INPC em mais de 0,1 ponto percentual.
A série começa em janeiro de 2012 e sai até o dia 15 de cada mês, com o dado do mês anterior. O BC já fazia essa conta em estudos desde 2011, mas só para São Paulo e Rio de Janeiro. A cobertura nacional e a divulgação mensal são a novidade.
Quanto subiram os salários e quanto foi o ganho real
O critério de vigência olha o mês em que o novo salário começa a valer. Por ele, as convenções coletivas com data-base em agosto tiveram reajuste médio de 5,27%. O INPC dos 12 meses até julho, a referência dessas negociações, ficou em 4,10%.
Na prática, 83 de cada 100 convenções coletivas de agosto deram ganho real e só duas em cada 100 ficaram abaixo da inflação. O resto apenas repôs o INPC.
A conta do ganho real, passo a passo
A forma rápida é subtrair: 5,27% menos 4,10% dá 1,17 ponto percentual acima da inflação. A conta exata, que o BC usa, divide um índice pelo outro, porque a inflação corrói o salário já reajustado.
Fica assim: 1,0527 dividido por 1,0410 dá 1,0112. Tirando o 1, sobra um ganho real de 1,12%, exatamente o número publicado pelo Banco Central.
Os R$ 35,10 sobre R$ 3.123,00 são os mesmos 1,12% de ganho real. Quem ganha R$ 3.000 e teve o reajuste médio passou a comprar um pouco mais do que comprava um ano antes.
E se a comparação for com o IPCA, a inflação oficial?
O IPCA, índice usado na meta de inflação, acumulou 4,44% nos 12 meses até julho, segundo o IBGE. Ele ficou acima do INPC porque pesa mais itens do orçamento das famílias de renda mais alta.
Contra o IPCA, a subtração dá 0,83 ponto percentual (5,27 menos 4,44). Na conta exata, 1,0527 dividido por 1,0444 dá ganho real de 0,79%, menor, mas ainda positivo.
Quais setores tiveram os maiores reajustes salariais
O critério de registro olha a data em que a convenção entrou no Mediador. Por ele, agosto teve 481 convenções coletivas e reajuste médio de 5,06%. Esse critério não é revisado depois, o que o torna mais estável para comparar mês a mês.
O boxe do BC aponta que, desde 2023, a agropecuária lidera os reajustes salariais entre os setores. A diferença entre o primeiro e o último colocado em agosto foi de 0,26 ponto percentual.
O ganho real de agora é alto para o histórico?
Fazendo a média dos valores mensais da série de ganho real (conta própria sobre a série 30067), 2026 está em 1,18% até agosto. É o nível mais alto desde 2014, quando a média do ano foi de 1,50%.
O contraste com a pandemia é grande. Em 2021, a média ficou negativa em 1,01%, e em abril daquele ano só 2,63% das convenções coletivas superaram o INPC.
O próprio boxe explica o padrão: ganhos reais maiores aparecem nos períodos de desemprego baixo, como 2012 a 2014 e depois de 2023. O IBGE informou que o desemprego ficou em 5,3% no trimestre até agosto, o menor para esse período desde 2012.
Por que o Banco Central acompanha salário para decidir a Selic
Salário é custo para a empresa e renda para quem compra. Quando sobe muito acima da produtividade, pode virar preço mais alto, sobretudo nos serviços, e a inflação demora mais a cair.
O boxe do BC registra que os reajustes nominais seguem muito colados ao INPC passado, “o que pode contribuir para a persistência da inflação”. A inflação de ontem vira o reajuste de hoje e ajuda a sustentar a de amanhã.
“Os resultados mostram que a inflação passada continua sendo uma referência importante nas negociações”, afirmou Ricardo Sabbadini, chefe do Departamento Econômico do Banco Central, na nota de divulgação. Segundo ele, os dados também ajudam a ver como o mercado de trabalho influencia a dinâmica salarial.
Na reunião de setembro, o Copom cortou a Selic de 14% para 13,75% ao ano, a quinta redução seguida. A ata diz que os rendimentos médios desaceleraram. Mas eles “ainda crescem em termos reais a uma taxa superior à da produtividade do trabalho”, e que o comitê segue “acompanhando detidamente o mercado de trabalho”.
O que o indicador não mostra
O número não é a renda total do trabalhador. Ele não capta promoção, troca de emprego nem a entrada de gente nova com salário diferente, como faz a PNAD. Também deixa de fora o salário de contratação, que aparece no Caged.
O BC também avisa que os meses mais recentes são preliminares. Nos testes da Nota Técnica 60, a revisão dos reajustes salariais médios no primeiro mês foi de até 0,59 ponto percentual para baixo. Depois de três meses, ela encolhe para menos de 0,2.
O seu reajuste deste ano ficou acima ou abaixo dos 5,27% da média das convenções coletivas? Conte nos comentários qual é a sua categoria e quanto foi o aumento.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

