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Uma fábrica de Minas Gerais acaba de produzir sua locomotiva número 1.000 e revela como o Brasil passou a fabricar gigantes ferroviários enviados até para a África e a Oceania
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 01/11/2026 às 14:15
Atualizado em 01/11/2026 às 14:16
Indústria
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Fábrica da Wabtec em Contagem (MG) alcançou mil locomotivas produzidas em mais de cinco décadas. Parte das máquinas saiu do Brasil para ferrovias de outros continentes; veja como uma antiga oficina se transformou.
Uma fábrica mineira que começou como centro de reparação de componentes ferroviários acaba de atingir a marca de 1.000 locomotivas fabricadas. O anúncio feito pela Wabtec em 29 de outubro de 2026 coloca a unidade de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, diante de um feito industrial: máquinas montadas ali não circulam apenas por ferrovias brasileiras. A empresa informa que aproximadamente 15% de sua produção acumulada foi exportada para clientes da América do Sul, da África e da Oceania.
O número não surgiu de um salto repentino. A instalação foi aberta em 1972, atravessou um período em que concentrou esforços na manutenção de trens, voltou a construir locomotivas e incorporou métodos de montagem de grandes máquinas em movimento. O resultado é uma história que começa com reparos e chega a equipamentos projetados para transportar minério, grãos e outros volumes pesados em diferentes países.
Mil locomotivas saíram de Contagem, mas a história começou com uma oficina de manutenção
O comunicado de outubro da Wabtec registra a conclusão da milésima unidade no complexo industrial mineiro. A marca é acumulada ao longo da trajetória da fábrica — não equivale a mil locomotivas produzidas em 2026 nem ao total de todas as fábricas que a empresa já teve no Brasil.
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Quando a unidade de Contagem iniciou as atividades, em 1972, o negócio era muito diferente do atual. A operação prestava serviços de reparação e manutenção de componentes e locomotivas. Havia demanda para manter equipamentos rodando, mas o setor ferroviário brasileiro atravessaria períodos de menor encomenda de novas máquinas.
A história industrial publicada pela própria companhia aponta uma fase especialmente difícil entre o fim dos anos 1980 e meados dos anos 2000, quando os investimentos em novos trens perderam intensidade. A sobrevivência da estrutura dependia de atividades de manutenção e de serviços especializados.
A mudança ganhou força em 2005, quando a unidade passou a fabricar pequenas locomotivas para exportação. Em 2008, o programa de nacionalização de equipamentos pesados possibilitou ampliar a produção local, incluindo a família AC44. Assim, uma estrutura voltada a consertos passou a desenvolver e montar sistemas de grande porte.
Por que locomotivas feitas no Brasil foram parar até em ferrovias da África e da Oceania
Segundo a Wabtec, cerca de 15% das locomotivas produzidas em Contagem seguiram para mercados externos, incluindo países da América do Sul, da África e da Oceania. Esse percentual é aproximado e representa entregas acumuladas em diferentes anos; não é uma taxa de exportação específica de 2026.
O que uma ferrovia estrangeira busca numa locomotiva depende de fatores como bitola dos trilhos, peso dos vagões, relevo, disponibilidade de combustível e normas locais. Máquinas de carga pesada precisam transmitir potência de forma contínua, enfrentar longas distâncias e operar com confiabilidade em regiões por vezes isoladas de oficinas.
A companhia afirma ter desenvolvido projetos destinados a requisitos particulares dos clientes, inclusive locomotivas CM20ACi e EVOBBW. Isso ajuda a explicar por que uma fábrica não pode simplesmente produzir um único modelo e enviá-lo para qualquer país: especificações elétricas, mecânicas e operacionais precisam ser ajustadas.
Um exemplo conhecido de expansão comercial é o acordo com a Grupo RAS, do Uruguai, para fornecer locomotivas produzidas no Brasil. Há também clientes ferroviários nacionais que recorrem à Wabtec para renovar frotas utilizadas no transporte de cargas.
Uma linha que se movimenta enquanto o trem é montado mudou a fabricação em 2017
Construir uma locomotiva não é simplesmente juntar chapas de metal. A estrutura precisa receber motores, rodas, conjuntos de tração, sistemas de freio, cabines, computadores e tubulações. O equipamento passa por uma sequência de operações com componentes muito pesados, exigindo pontes rolantes, áreas seguras e equipes especializadas.
A Wabtec relata que, a partir de 2017, implantou uma linha chamada Mix-Moving, na qual modelos diferentes podem ser montados enquanto avançam lentamente pelas estações. Em vez de manter cada locomotiva parada por longos períodos e levar todo o pessoal até ela, a montagem acompanha uma sequência mais previsível de atividades.
Na apresentação histórica da empresa, esse sistema é associado à redução de aproximadamente 20% no prazo de fabricação, à liberação de espaço e à diminuição de estoques. São resultados atribuídos pela companhia à mudança de método da época, não ganhos adicionais comprovados para o ano de 2026.
Ao receber peças mais organizadas e padronizar etapas de montagem, a fábrica consegue lidar com projetos variados. Mas isso também exige capacitação dos trabalhadores, organização de fornecedores e inspeção rigorosa, já que uma falha num componente ferroviário pode afetar equipamentos sujeitos a anos de operação pesada.
Nova linha aumenta capacidade em 28% enquanto centro de engenharia reúne centenas de especialistas
Em 2025, a Wabtec ampliou novamente a capacidade da unidade ao adicionar uma linha de montagem de locomotivas, com avanço anunciado de aproximadamente 28% na capacidade produtiva. A empresa informa que esse movimento ajudou a alcançar naquele ano o melhor ritmo de produção desde 2017.
A expansão incluiu um investimento anunciado de cerca de R$ 20 milhões em operações brasileiras, com destaque para infraestrutura industrial e engenharia em Contagem. Conforme informações oficiais de novembro de 2025, a expectativa era aumentar a flexibilidade para atender contratos nacionais e estrangeiros.
Ao lado do parque fabril funciona o Centro Global de Engenharia da Wabtec, inaugurado no fim de 2025. O anúncio de outubro de 2026 informa aproximadamente 270 engenheiros e especialistas envolvidos em tecnologia ferroviária e sistemas de segurança. A fábrica, por sua vez, emprega cerca de 600 profissionais.
Esses números correspondem a atividades relacionadas, mas distintas: uma equipe produz os equipamentos, enquanto outra participa de projetos, testes e desenvolvimento de tecnologia. Não é correto afirmar que os 270 engenheiros são todos trabalhadores adicionais da linha de montagem, nem somá-los a uma promessa de vagas atualmente abertas.
Locomotivas gigantes já se preparam para usar mais biocombustíveis nas ferrovias brasileiras
A comemoração da milésima unidade ocorreu num período de novos projetos voltados à eficiência energética. Locomotivas da família Evolution podem contar com motores preparados para misturas de combustíveis alternativos e com sistemas eletrônicos destinados a melhorar o uso de energia durante a viagem.
Um programa recente envolve a Vale, que comprou um lote de 50 locomotivas para renovar frotas de ferrovias brasileiras. Segundo reportagens de 29 e 30 de outubro, as primeiras unidades do modelo EVOBBW destinadas à Estrada de Ferro Vitória a Minas foram concluídas em Contagem e passam por ajustes finais antes das entregas previstas.
Os modelos da EFVM foram descritos como compatíveis com misturas de até 25% de biodiesel. Fabricante e operadora também estudam possibilidades de uso de etanol, mas isso ainda faz parte de testes e não permite afirmar que as locomotivas já estejam operando regularmente apenas com esse combustível.
A notícia da locomotiva para a Vale é um projeto distinto do marco de produção acumulada de 1.000 unidades; não foi demonstrado que a locomotiva número mil seja necessariamente uma das máquinas de um lote específico. A conexão entre as histórias está na capacidade atual de produzir equipamentos de nova geração no mesmo centro industrial.
Quem constrói uma locomotiva? A cadeia vai muito além do pátio de uma montadora
Uma locomotiva reúne componentes provenientes de diferentes especialidades: motores, chapas, fundidos, suspensão, sistemas pneumáticos e hidráulicos, eletrônica de potência, cabeamento e softwares de controle. Para manter uma linha de produção no Brasil, a montadora depende também de fabricantes, prestadores de serviços e trabalhadores treinados.
Os cerca de 600 funcionários associados ao complexo fabril de Contagem trabalham em funções industriais diversas, enquanto equipes de engenharia desenvolvem projetos para adaptações e novos modelos. A empresa não divulgou, no anúncio da milésima locomotiva, um quadro com novas contratações imediatas ou remuneração dos profissionais.
A capacidade de produzir equipamentos ferroviários localmente tem relevância econômica. Ela pode encurtar algumas etapas de fornecimento e permitir soluções sob medida para ferrovias brasileiras, embora cada projeto tenha custos, prazos e participação de componentes importados próprios. Por isso, produção no Brasil não significa automaticamente 100% de conteúdo nacional.
A marca de 1.000 locomotivas mostra como uma fábrica sobreviveu a décadas de mudanças industriais
A trajetória de Contagem atravessou ciclos de procura por locomotivas, retrações ferroviárias, atividades de reparação e retomada da montagem pesada. O marco anunciado em 29 de outubro de 2026 encerra uma etapa e abre outra: a empresa pretende usar a capacidade ampliada e o centro de engenharia para atender diferentes ferrovias e mercados.
A existência de clientes na América do Sul, na África e na Oceania demonstra que o complexo deixou de ter atuação exclusivamente local. A dimensão industrial é concreta: mil locomotivas acumuladas em mais de cinco décadas, cerca de 15% exportadas, 600 profissionais na fábrica e um centro de engenharia com aproximadamente 270 especialistas, conforme os dados públicos da empresa.
Para o leitor brasileiro, o ponto mais curioso talvez seja a origem dessa transformação. A instalação que começou consertando componentes conseguiu produzir locomotivas de grande porte e enviá-las para diferentes continentes. Você sabia que o Brasil fabricava locomotivas destinadas também a ferrovias estrangeiras? Conte nos comentários e compartilhe esta história industrial.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

