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Arqueólogos finalmente explicam por que cavaleiros sem rosto aparecem minúsculos em túmulos decorados do Japão, enquanto cavalos ganham detalhes impressionantes e revelam um antigo ritual coletivo para conduzir os mortos em Kyushu
Escrito por Viviane Alves
Publicado em 23/07/2026 às 00:45
Curiosidades
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Estudo publicado na revista Antiquity indica que as figuras humanas genéricas representavam vários mortos e ajudavam a simbolizar a passagem entre dois mundos.
Túmulos decorados construídos em Kyushu entre os séculos VI e VII não foram preparados para receber apenas uma pessoa, conforme aponta um novo estudo arqueológico.
As câmaras funerárias provavelmente abrigaram diferentes indivíduos ao longo do tempo, o que explicaria a presença de figuras humanas simples, pequenas e sem qualquer identidade aparente.
Claudia Zancan, pesquisadora especializada no tema, sustenta que essa falta de detalhes não ocorreu por acaso. As representações teriam sido feitas de maneira genérica para incluir todos os mortos sepultados no mesmo local.
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O estudo foi publicado em 2026 na revista científica Antiquity, vinculada à Universidade de Cambridge. A pesquisa analisou imagens preservadas no interior dessas antigas estruturas funerárias japonesas.
Túmulos podiam ser reabertos para novos sepultamentos
As construções pertencem ao final do período Kofun, fase marcada por importantes mudanças nos costumes funerários das elites japonesas.
Os enterros completamente selados começaram a perder espaço naquele período. Câmaras horizontais de pedra passaram a ser utilizadas e podiam ser abertas novamente.
Novos corpos poderiam ser colocados na mesma tumba após o primeiro sepultamento. Essa reutilização reforça a interpretação de que as pinturas não representavam uma pessoa específica.
Zancan descreve essas estruturas como verdadeiras câmaras escuras. Os espaços internos não foram projetados para visitas frequentes, enquanto as imagens permaneciam escondidas da maioria das pessoas.
Figuras humanas de Kyushu não possuíam identidade
Os túmulos decorados de Kyushu apresentam semelhanças com estruturas funerárias encontradas na Península Coreana. A maneira de retratar os seres humanos, contudo, apresenta diferenças marcantes.
As imagens coreanas costumavam mostrar pessoas maiores do que os objetos ao redor. As representações japonesas, por sua vez, colocavam os humanos em dimensões menores.
Rostos, características individuais e identificação de sexo não aparecem nessas figuras. Os corpos foram desenhados de maneira extremamente simples, semelhante a pequenos bonecos de palito.
A ausência de identidade teria permitido que cada desenho representasse qualquer pessoa sepultada na câmara. As imagens funcionariam, portanto, como símbolos coletivos.
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Viviane Alves
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Cavalos detalhados contrastam com cavaleiros minúsculos
O túmulo de Ōzuka chamou especialmente a atenção da pesquisadora. Cinco cavalos e seis cavaleiros aparecem representados perto da entrada funerária.
Os animais possuem arreios ornamentados e características cuidadosamente produzidas. Até mesmo o sexo de alguns cavalos pode ser reconhecido nas pinturas.
Os cavaleiros, entretanto, aparecem sem rosto e com corpos muito simples. Uma das figuras humanas mede aproximadamente quatro vezes menos do que o cavalo montado.
A diferença inicialmente poderia ser entendida como falta de habilidade artística. A precisão observada nos animais, contudo, mostra que os criadores sabiam produzir representações detalhadas.
A simplicidade dos humanos teria sido uma escolha cultural intencional, e não uma limitação técnica dos artistas responsáveis pelas pinturas.
Pinturas foram divididas em três grupos
Claudia Zancan separou as representações humanas em três conjuntos principais. Cada grupo aparece em uma área diferente das construções funerárias.
- Guardas armados surgem nas entradas dos túmulos escavados na rocha.
- Esses personagens possuem rostos e demonstram agressividade diante de quem se aproxima.
- Pessoas sem rosto aparecem no limite entre o mundo dos vivos e dos mortos.
- Figuras ainda mais simples ocupam as partes profundas das câmaras funerárias.
O terceiro grupo despertou maior interesse durante a pesquisa. Esses personagens anônimos parecem seguir um trajeto simbólico pelo interior da tumba.
As pinturas poderiam funcionar como uma espécie de guia para as almas, indicando o caminho durante a passagem para o mundo dos mortos.
Imagens coletivas explicam ausência de rostos
A interpretação apresentada pela pesquisadora altera a maneira de compreender esses túmulos. As figuras sem identidade não teriam sido criadas para retratar indivíduos específicos.
Os desenhos representariam todos os ocupantes das câmaras funerárias. Cada personagem poderia simbolizar pessoas sepultadas em momentos diferentes.
A reutilização dos túmulos tornava essa escolha ainda mais necessária. Uma imagem excessivamente individualizada não representaria adequadamente os novos mortos colocados posteriormente no local.
As pinturas também teriam cumprido uma função espiritual. Os personagens mostrariam uma jornada coletiva, atravessando gradualmente o limite entre a vida e a morte.
Pesquisa enfrenta uma corrida contra o tempo
A preservação dessas imagens preocupa os especialistas. Algumas pinturas apresentam risco real de deterioração e podem desaparecer completamente.
Zancan afirma que não consegue dedicar o tempo desejado a cada obra. A quantidade de túmulos e a ameaça de perda tornam o processo de documentação cada vez mais urgente.
O registro detalhado das paredes pode preservar informações que ainda permanecem visíveis. A pesquisa também ajuda a compreender os costumes funerários das antigas comunidades japonesas.
Os humanos minúsculos e sem rosto deixaram de ser vistos apenas como desenhos rudimentares. A nova análise revela uma linguagem cultural planejada para representar várias pessoas.
Os túmulos decorados de Kyushu mostram, dessa maneira, que até figuras aparentemente simples podem esconder uma complexa visão sobre morte, memória e passagem espiritual.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Viviane Alves.

