8 min de leitura
Cientistas deixam alternativa ao cimento feita com simulante de solo lunar durante seis meses do lado de fora da Estação Espacial Internacional, exposta ao vácuo, à radiação e a oscilações de temperatura, e algumas amostras retornam com resistência medida até 35% maior que controles mantidos na Terra, reforçando planos de construir bases na Lua
Escrito por Carla Teles
Publicado em 23/07/2026 às 12:15
Ciência e Tecnologia
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
O cimento lunar produzido com simulantes de regolito passou seis meses no exterior da Estação Espacial Internacional, onde enfrentou vácuo, radiação e variações de temperatura; depois do retorno, amostras não mostraram degradação e uma composição registrou resistência à compressão 35% superior à de controles mantidos na Terra durante a missão.
O cimento lunar desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Delaware permaneceu durante seis meses no lado externo da Estação Espacial Internacional. Produzidas com simulantes comerciais de solo lunar e marciano, as amostras foram submetidas às condições da órbita baixa da Terra antes de serem comparadas com materiais equivalentes mantidos em laboratórios terrestres.
Os resultados foram publicados na edição de 15 de maio de 2026 da revista científica Advances in Space Research e detalhados pela Universidade de Delaware em 9 de julho de 2026. O estudo, realizado na missão MISSE-20 da NASA, avaliou estrutura interna, composição química e resistência mecânica dos geopolímeros após o retorno à Terra.
Material não é cimento lunar retirado da Lua
Apesar do nome usado para facilitar a compreensão, o material não foi produzido com regolito verdadeiro trazido da superfície lunar. Os pesquisadores empregaram simulantes fabricados para reproduzir características químicas e minerais de diferentes tipos de solo extraterrestre.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Esses materiais foram combinados com uma solução alcalina para formar geopolímeros. O objetivo é desenvolver uma alternativa ao cimento convencional que possa, no futuro, ser fabricada diretamente na Lua com recursos disponíveis no local.
Geopolímero transforma material rico em silicato
Geopolímeros são ligantes obtidos pela reação entre materiais ricos em aluminossilicatos e soluções alcalinas. O processo conecta as partículas em uma estrutura sólida sem exigir a fabricação tradicional do cimento Portland.
Norman Wagner, professor de Engenharia Química da Universidade de Delaware, descreveu o regolito como um material semelhante à argila e rico em silicatos. Sua abundância na Terra, na Lua e em Marte torna essa matéria-prima relevante para pesquisas sobre construção fora do planeta.
Quatro composições seguiram para o espaço
A equipe produziu quatro tipos de amostras. Duas foram feitas com simulantes de regolito lunar chamados Lunar Highlands Simulant 1, ou LHS-1, e Black Point 1, identificado pela sigla BP-1.
Outra composição utilizou o simulante marciano MGS-1C, enquanto o quarto grupo foi produzido com metacaulim de alta pureza. Essa comparação permitiu verificar se matérias-primas diferentes reagiriam da mesma forma ao ambiente espacial.
Placas ficaram presas ao exterior da estação
As amostras foram fabricadas em formato de placas finas e instaladas no exterior da Estação Espacial Internacional. Elas participaram da missão MISSE-20, programa usado para avaliar materiais e componentes diretamente no ambiente orbital.
A instalação ocorreu na posição voltada para o zênite da estação, exposta ao espaço. Depois de aproximadamente meio ano, as placas retornaram à Terra para exames mecânicos, químicos e de imagem.
Órbita submeteu material a ambiente hostil
Durante a missão, o cimento lunar experimental enfrentou pressões próximas ao vácuo, radiação e repetidas oscilações de temperatura. O estudo registrou valores absolutos entre −11,75 °C e 35 °C.
A temperatura também variava cerca de 15 °C a cada órbita da estação ao redor da Terra. Essas condições não reproduzem integralmente a superfície lunar, mas oferecem uma etapa intermediária mais realista do que testes exclusivamente realizados em laboratório.
Amostras com simulantes não se deterioraram
Os geopolímeros produzidos com os simulantes lunares LHS-1 e BP-1 e com o simulante marciano MGS-1C não apresentaram sinais de degradação provocada pelos seis meses em órbita baixa.
As análises indicaram manutenção da estrutura química e da resistência mecânica. O resultado apoia a continuidade dos estudos, embora ainda não demonstre que o material poderá ser produzido e curado de forma confiável diretamente na Lua.
Uma composição atingiu 60,3 MPa
A amostra feita com LHS-1 e enviada ao espaço apresentou resistência à compressão de 60,3 megapascais. O grupo de controle mantido na Terra registrou 44,7 megapascais.
A diferença corresponde a aproximadamente 35%. Isso significa que a amostra retornou com resistência medida maior, mas não permite concluir que o ambiente espacial tenha fortalecido diretamente o material.
Aumento foi relacionado a teste anterior ao voo
Na análise detalhada, os pesquisadores atribuíram a mudança estatisticamente significativa nas amostras LHS-1 ao procedimento térmico realizado antes do lançamento, conhecido como teste de bakeout.
Esse tratamento é usado para reduzir materiais voláteis antes que uma amostra seja enviada ao espaço. Portanto, a resistência 35% maior não deve ser apresentada como prova de que o vácuo ou a radiação aumentaram a resistência do cimento lunar.
Metacaulim apresentou rachaduras e escurecimento
As amostras produzidas com metacaulim de alta pureza tiveram comportamento diferente. Os pesquisadores observaram escurecimento e fissuras no material após o conjunto de procedimentos.
A investigação relacionou o escurecimento ao ataque de óxidos e as rachaduras aos tratamentos de vácuo aplicados antes do voo. Os danos não foram atribuídos diretamente aos seis meses de exposição no exterior da Estação Espacial Internacional.
Construção lunar precisa usar recursos locais
Transportar da Terra todo o cimento, a água e os agregados necessários para uma base lunar exigiria grande capacidade de carga. Cada lançamento acrescentaria custos e limitações logísticas às missões.
Por isso, programas de exploração espacial estudam a utilização de recursos no próprio local, conceito conhecido como ISRU. O regolito poderia fornecer parte da matéria-prima necessária para estruturas, reduzindo o volume transportado do planeta.
Água poderá ser recuperada após a cura
No cimento Portland, parte da água participa das reações de hidratação e permanece incorporada aos produtos formados. Isso cria uma dificuldade adicional em ambientes onde a água é limitada.
Nos geopolímeros estudados, a água não é integrada da mesma forma à estrutura mineral-polimérica final. Os pesquisadores consideram que parte dela poderá ser recuperada depois da cura, embora essa possibilidade ainda precise ser desenvolvida para condições lunares.
Bases exigirão mais do que paredes
Uma futura presença humana permanente na Lua poderá exigir plataformas de pouso, barreiras contra radiação, estradas, áreas de circulação e estruturas para equipamentos e habitats.
Plataformas resistentes seriam particularmente importantes para limitar a dispersão de poeira provocada pelos motores de espaçonaves. O cimento lunar aparece como candidato para algumas dessas aplicações, mas cada estrutura exigirá propriedades e métodos de execução específicos.
Produção no vácuo continua sendo desafio
As amostras enviadas à estação foram produzidas e inicialmente curadas antes da exposição orbital. O experimento avaliou principalmente a durabilidade do material já formado, não toda a fabricação em ambiente lunar.
Estudos anteriores indicam que o vácuo pode dificultar o desenvolvimento da resistência durante a cura. O próximo desafio é descobrir como misturar, moldar e endurecer geopolímeros sob condições semelhantes às encontradas na superfície da Lua.
Temperaturas lunares são ainda mais extremas
As oscilações enfrentadas na órbita baixa da Terra ficaram entre −11,75 °C e 35 °C. Na região do polo sul lunar, algumas áreas podem alcançar temperaturas muito inferiores.
O próprio estudo cita faixas entre aproximadamente −223 °C e −71 °C em determinados ambientes do polo sul. Isso significa que sobreviver ao exterior da estação não garante automaticamente desempenho semelhante em todos os locais da Lua.
Inteligência artificial poderá selecionar receitas
Em uma pesquisa separada publicada em 2026 na revista Acta Astronautica, a equipe utilizou aprendizado de máquina para prever a resistência de geopolímeros conforme as características do simulante e do processamento.
O modelo reuniu novos experimentos e dados de 30 estudos anteriores. A ferramenta poderá ajudar a selecionar composições promissoras sem exigir que cada combinação seja fabricada e testada individualmente.
Mistura pode manter flexibilidade antes de endurecer
Outro trabalho do laboratório analisou o comportamento do material durante mistura, bombeamento e moldagem. Os pesquisadores identificaram um ponto crítico em que a pasta trabalhável começa a formar uma estrutura sólida.
Os testes indicaram que movimentar ou cisalhar o material antes desse ponto não alterou o tempo de endurecimento nem a resistência final. Essa flexibilidade pode ser importante para equipamentos que precisem transportar e moldar o cimento lunar em obras automatizadas.
Aplicações terrestres também são consideradas
O interesse pelos geopolímeros não se limita à exploração espacial. A produção pode exigir menos energia do que alternativas baseadas na fusão ou no processamento em temperaturas muito elevadas.
Segundo a Universidade de Delaware, as mesmas características investigadas para a construção lunar poderão contribuir para materiais terrestres com menor impacto. Essa aplicação, porém, dependerá da composição, da disponibilidade das matérias-primas e da comparação completa com soluções já utilizadas.
Teste reforça pesquisa, mas não encerra validação
Os resultados demonstraram que três composições feitas com simulantes de regolito mantiveram resistência e estabilidade após seis meses no espaço. O estudo representa a primeira exposição desse tipo de ligante no exterior da Estação Espacial Internacional para avaliação de degradação.
Ainda serão necessários testes diretamente na superfície lunar, processos de cura em vácuo, equipamentos de fabricação e avaliações de longa duração. O cimento lunar mostrou durabilidade em uma etapa importante, mas ainda não está pronto para construir uma base habitada.
Material abre debate sobre construção fora da Terra
A possibilidade de transformar regolito em estruturas resistentes reduziria a dependência de materiais enviados da Terra e poderia alterar o planejamento de futuras missões humanas. O desafio agora é converter resultados de laboratório e de órbita em processos confiáveis de construção local.
Na sua opinião, futuras bases na Lua deveriam usar principalmente materiais produzidos com o solo lunar ou estruturas transportadas prontas da Terra? Compartilhe nos comentários qual solução parece mais segura e viável para estabelecer infraestrutura permanente fora do planeta.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

