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Depois de 25 anos bombeando petróleo na Bacia de Campos, a plataforma P-32 foi cortada no maçarico bloco por bloco dentro do maior dique seco da América Latina, e suas mais de 40 mil toneladas viraram aço de novo no forno da Gerdau em Charqueadas
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 25/07/2026 às 22:57
Atualizado em 25/07/2026 às 23:04
Petróleo e Gás
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Depois de dois anos e meio de corte no dique seco de Rio Grande, a plataforma P-32 deixou de existir como estrutura e virou matéria-prima. Mais de 90% das 44 mil toneladas da unidade viram sucata metálica e seguem de caminhão para a usina da Gerdau em Charqueadas, no Rio Grande do Sul.
O Estaleiro Rio Grande, da Ecovix, concluiu no início de junho de 2026 a desmontagem da plataforma P-32 dentro do maior dique seco da América Latina. A retirada do último bloco encerrou a etapa central do primeiro desmantelamento verde do Brasil, um trabalho que mobilizou centenas de trabalhadores e uma unidade marítima de mais de 44 mil toneladas, conforme comunicado da Ecovix divulgado em 3 de junho de 2026 e publicado pelo Jornal do Comércio.
O caminho até aqui começou em julho de 2023, quando a Gerdau arrematou a unidade em leilão da Petrobras por R$ 3,2 milhões, valor informado na época pelo diretor-presidente da Ecovix, Robson Passos, ao mesmo jornal. A siderúrgica contratou a Ecovix para o desmonte, e o metal recuperado agora volta ao forno em forma de aço. Antes disso, a embarcação ficou ancorada no Campo de Marlim, na Bacia de Campos, desde 1997, e só foi desancorada em 23 de novembro de 2023.
O último bloco deixou o dique e fechou uma etapa inédita no país
A cena que marcou o fim do processo foi discreta para o tamanho da operação: um bloco de aço saindo do dique seco. Com ele, encerrou-se a desmontagem de uma estrutura que ocupou boa parte do maior dique seco da América Latina por cerca de dois anos e meio, segundo a Ecovix. Foi a primeira vez que uma plataforma inteira da Petrobras foi desmontada em solo brasileiro dentro do novo modelo de destinação sustentável da estatal.
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Robson Passos, hoje CEO da Ecovix, resumiu o trabalho em duas palavras ao comentar o encerramento: “Foi uma operação gigantesca”. Ele destacou que todo o serviço foi planejado e executado com mão de obra própria do estaleiro, e apontou o marco como demonstração da capacidade da engenharia nacional em projetos de indústria pesada.
O que diferencia esse desmonte de uma sucata comum é o controle. O plano de reciclagem da plataforma P-32 foi elaborado pela dupla Gerdau e Ecovix e aprovado pela Petrobras, cobrindo desde o recebimento da unidade até a destinação final de cada resíduo, com acompanhamento da estatal em segurança, meio ambiente, saúde ocupacional e responsabilidade social ao longo de todo o processo.
Do petroleiro Cairu ao apelido de cisne da Bacia de Campos
Nem sempre aquele casco foi uma plataforma. A estrutura nasceu como o petroleiro Cairu e depois foi convertida em unidade de produção, armazenamento e transferência de petróleo, o formato conhecido no setor como FPSO. Em 1997, já no Campo de Marlim, tornou-se pioneira em águas profundas ao tratar e exportar óleo por offloading de forma integrada, informação registrada pela Petrobras.
Os números da vida útil explicam por que a despedida mobilizou tanta gente. A unidade processou mais de 130 milhões de barris de óleo equivalente vindos das plataformas P-18, P-19, P-20 e P-27. Em 2013, chegou a tratar, estocar e exportar cerca de 70% do óleo de Marlim e 20% do óleo de Albacora, de acordo com o balanço divulgado pela estatal. A plataforma P-32 não era apenas mais um casco no mar: era o gargalo por onde passava boa parte da produção da região.
No evento de despedida da unidade, o oficial superior de máquinas Manoel Dutra Vidal, que integrou a tripulação por anos, contou que a plataforma chegou à Bacia ainda inacabada e teve a obra concluída na própria locação. Por causa disso, ganhou o apelido de patinho feio antes de virar, nas palavras dele, o cisne da Bacia. Foi também a primeira a exportar petróleo e a alcançar autossuficiência em água potável, chegando a enviar água destilada para outros FPSOs de Marlim.
Como 44 mil toneladas de aço viram matéria-prima dentro de um dique seco
O desmonte seguiu a lógica inversa da construção naval. Em vez de montar blocos até formar o casco, o estaleiro cortou a estrutura em blocos e foi retirando peça por peça do dique. Os blocos remanescentes continuam sendo fatiados para caber em caminhões, com destino à unidade da Gerdau em Charqueadas, onde a sucata entra na produção de aço.
O aproveitamento é o número que sustenta o rótulo de reciclagem verde. Mais de 90% da estrutura da plataforma P-32 deve ser reaproveitada em forma de sucata metálica, e os materiais não metálicos foram encaminhados para descarte seguro, segundo o balanço divulgado pela Ecovix. Nas estimativas iniciais, divulgadas em 2023, a expectativa girava entre 80% e 90% de reaproveitamento, com discurso de reciclagem praticamente total da unidade.
Para a compradora, o cálculo é industrial antes de ser simbólico. A Gerdau se apresenta como a maior recicladora de sucata metálica da América Latina, transformando mais de 11 milhões de toneladas de material em aço por ano, com cerca de 71% de sua produção vinda de reciclagem. Cada tonelada retirada de uma plataforma velha é uma tonelada que não precisa começar do minério. O diretor de matérias-primas da companhia, Marco Camin, associa a iniciativa à produção de aço com baixa emissão de carbono e ao volume de material retirado dos mares brasileiros.
O leilão de R$ 3,2 milhões e a manobra que parou o canal do porto
O leilão foi encerrado em 7 de julho de 2023, com edital direcionado exclusivamente ao mercado nacional, conforme nota da Petrobras à época. A proposta vencedora reuniu Gerdau e Ecovix, e o preço de arremate, R$ 3,2 milhões, foi revelado pelo próprio Robson Passos. Para efeito de comparação, é menos do que muita gente imagina ao ouvir falar em uma estrutura de 44 mil toneladas de aço.
Tirar a plataforma P-32 do mar deu mais trabalho do que comprá-la. A desancoragem no Campo de Marlim aconteceu em 23 de novembro de 2023, a navegação rumo ao Rio Grande do Sul começou dois dias depois, e a chegada ao Estaleiro Rio Grande ocorreu em 14 de dezembro daquele ano. Foram mais de dois meses de preparação e mais de 50 profissionais envolvidos só na manobra final de entrada.
A operação uniu Portos RS, Marinha do Brasil, Praticagem da Barra e equipes em solo, com pessoal a bordo da embarcação e nos rebocadores. O acesso ao canal do Porto de Rio Grande chegou a ser interrompido por algumas horas. Na avaliação do gerente de planejamento e desenvolvimento da Portos RS, Fernando Estima, tratou-se de um dos movimentos mais complexos já realizados na região.
Um cronograma de 12 meses que virou dois anos e meio de dique
Quando a unidade entrou no dique, em dezembro de 2023, o prazo anunciado por Gerdau e Ecovix era de 12 meses de desmontagem. A conclusão veio em junho de 2026, cerca de dois anos e meio depois da chegada. O comunicado que anunciou o fim dos trabalhos não trata do descompasso entre o prazo previsto e o executado, e nenhuma das empresas detalhou publicamente as razões da extensão.
O tamanho do canteiro ajuda a entender a complexidade. Quando o leilão foi vencido, a expectativa era de 250 vagas de emprego geradas em Rio Grande. Na chegada da unidade, o número divulgado passou de 200 postos, com possibilidade de ampliação. No encerramento, o comunicado fala em centenas de trabalhadores que atuaram na plataforma P-32 ao longo do período.
Existe ainda um detalhe pouco lembrado: o trabalho não é apenas cortar aço. Uma unidade que passou décadas produzindo petróleo carrega resíduos, isolantes, equipamentos elétricos, tanques e materiais que precisam de tratamento específico antes de qualquer corte. É esse conjunto de etapas, e não só o volume de metal, que define o ritmo de um desmantelamento auditado.
A cozinha doada e os coletes que foram parar na enchente de 2024
O balanço final trouxe um capítulo que costuma ficar fora das notas técnicas. Uma cozinha completa retirada da plataforma foi doada a uma escola de Rio Grande que atende crianças em situação de vulnerabilidade. Os colchões usados pelos profissionais que trabalharam na unidade foram destinados a uma entidade de apoio a mulheres no município.
Outros itens tiveram uso mais imediato. Coletes salva-vidas que estavam a bordo da plataforma P-32 foram distribuídos durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Equipamento que passou anos parado em um paiol offshore acabou em mãos de gente ilhada dentro do próprio estado que abrigava o estaleiro.
Esse tipo de destinação faz parte do desenho do modelo. A proposta do desmantelamento verde não se limita ao metal que interessa à siderúrgica: cobre também o que sobra, dos móveis aos resíduos perigosos, com registro e rastreio de cada saída.
A P-33 chega em julho e a fila tem mais de 20 plataformas
Com o dique liberado, a Ecovix já espera a próxima cliente. A P-33 estava no Porto do Açu, no Rio de Janeiro, e tem chegada prevista para julho de 2026 em Rio Grande. A unidade também foi arrematada pela Gerdau, também vem do Campo de Marlim e tem porte semelhante, com aproximadamente 337 metros de comprimento, 54,5 metros de largura e cerca de 45 mil toneladas.
A fila não para nas duas. O projeto de Revitalização de Marlim e Voador prevê a substituição de nove unidades antigas, entre elas P-18, P-19, P-20, P-26, P-32, P-33, P-35, P-37 e P-47, por dois FPSOs novos, o Anna Nery e o Anita Garibaldi, com capacidade conjunta de até 150 mil barris por dia. Segundo o gerente geral da unidade de exploração e produção da Bacia de Campos, Alex Murteira Célem, a troca reduz em mais de 50% as emissões de gases de efeito estufa.
Por trás disso corre um plano bem maior. A Petrobras prevê investimento de US$ 22 bilhões até 2028 no Plano de Renovação da Bacia de Campos, com mais de 200 novos poços interligados e quatro FPSOs adicionais, enquanto o plano estratégico da estatal aponta mais de 20 unidades a serem descomissionadas. O que aconteceu com a plataforma P-32 deixou de ser exceção e virou modelo para o restante da frota aposentada.
Um ciclo que fecha em forma de vergalhão
Uma estrutura que passou décadas no mar tratando e exportando petróleo terminou cortada em blocos, carregada em caminhões e derretida a mais de mil quilômetros de onde ficava ancorada. O aço que sustentou a produção de Marlim volta ao mercado como produto novo, e o dique que abrigou a plataforma P-32 já está sendo preparado para receber a unidade seguinte.
E você, o que acha desse desfecho? Transformar plataforma velha em aço dentro do próprio país é o melhor destino possível para essas estruturas ou o setor deveria discutir alternativas antes de mandar tudo para o forno? Um prazo que saiu de 12 meses e chegou a dois anos e meio mostra aprendizado ou falta de preparo da indústria nacional? Comente sua opinião, principalmente se você trabalha ou já trabalhou em estaleiro, no porto ou em plataforma.
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: petróleo
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

