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Restauradores seguem o som de pombos durante obra na Catedral de Valência, na Espanha, introduzem uma câmera por um buraco e encontram dez anjos músicos do século XV acima de uma falsa cúpula barroca, com fundo azul estrelado e ouro preservados por mais de 330 anos a apenas 80 centímetros do teto visível
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 30/07/2026 às 17:31
Curiosidades
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Som de pombos, uma abertura estreita e uma câmera colocada às cegas conduziram restauradores a uma descoberta inesperada acima do teto barroco da Catedral de Valência, onde detalhes artísticos preservados durante séculos mudaram a compreensão sobre uma das áreas mais importantes do edifício.
O som de pombos vindo de uma abertura no teto conduziu restauradores a uma das descobertas artísticas mais surpreendentes da Catedral de Valência, na Espanha, ao revelar que havia pinturas renascentistas escondidas acima da estrutura barroca visível aos visitantes.
Ao introduzir uma câmera digital pelo buraco e fotografar um espaço que não conseguia enxergar diretamente, o responsável pela equipe registrou imagens de anjos renascentistas que permaneceram ocultos havia mais de três séculos, separados do teto aparente por uma distância mínima.
Nas primeiras fotografias, surgiram partes de quatro figuras aladas diante de um fundo azul estrelado, cercadas por detalhes dourados ainda visíveis, enquanto a continuidade dos trabalhos confirmou que o conjunto reunia dez grandes anjos músicos pintados no século XV.
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No ponto mais profundo, apenas 80 centímetros separavam a decoração renascentista da cúpula barroca observada por quem entrava no templo, o que explica por que visitantes, religiosos e especialistas passaram gerações sob as obras sem perceber o espaço preservado acima.
Som de pombos levou restauradores ao espaço oculto
Enquanto restauravam a cúpula barroca, os profissionais retiravam uma camada de tinta cinza e tentavam afastar aves que entravam por uma abertura, até que o ruído dos pombos chamou atenção para a cavidade estreita existente entre as duas estruturas.
Segundo o The Guardian, documentos históricos já mencionavam pinturas renascentistas naquela área da capela, mas a equipe ainda não possuía acesso visual direto ao interior, razão pela qual a pequena abertura se tornou essencial para a investigação inicial do espaço oculto.
Sem conseguir controlar com precisão o enquadramento, o chefe da equipe, Javier Catalá, colocou uma câmera digital através do buraco e realizou as imagens às cegas, obtendo registros parciais que mostravam figuras aladas, cores intensas e superfícies surpreendentemente preservadas.
Anjos músicos ocupavam uma abóbada de oito metros
Com mais de oito metros de diâmetro, a abóbada pintada havia sido executada pelos artistas italianos Francesco Pagano e Paolo de San Leocadio, responsáveis por levar à capela principal modelos artísticos que se difundiam na Itália durante o Renascimento.
Levados a Valência por Rodrigo de Borja, então cardeal e futuro papa Alexandre VI, os dois pintores receberam a tarefa de renovar a decoração da capela principal, substituindo obras anteriores destruídas por um incêndio ocorrido durante uma cerimônia religiosa.
Preservado no arquivo da catedral, o contrato assinado em 1472 previa anjos em cada segmento da abóbada gótica, acompanhados por folhas, frutos, pigmentos azuis, cores refinadas e aplicações de ouro, elementos que tornariam o conjunto especialmente sofisticado.
Na origem da encomenda estava um incêndio iniciado depois que um artefato usado para representar a descida do Espírito Santo atingiu tecidos instalados perto do altar, destruindo pinturas anteriores e abrindo espaço para o projeto conduzido por Rodrigo de Borja.
Artistas italianos levaram o Renascimento a Valência
Natural de Nápoles, Pagano trabalhou ao lado de San Leocadio, vindo da Lombardia, e ambos introduziram em Valência técnicas, formas e referências ainda pouco conhecidas naquele território, contribuindo para um dos primeiros grandes conjuntos renascentistas da Península Ibérica.
Representados com instrumentos musicais, vestimentas elaboradas e asas destacadas por cores e folhas de ouro, os anjos apareciam diante de um fundo azul pontilhado por estrelas, enquanto elementos vegetais e ornamentos preenchiam a estrutura ao redor da composição.
Embora as primeiras imagens revelassem apenas trechos do conjunto, a abertura posterior do espaço permitiu observar a dimensão completa da pintura e compreender como as figuras haviam sido concebidas para envolver visualmente o altar dentro da arquitetura gótica original.
Cúpula barroca escondeu as pinturas por séculos
Visível por cerca de dois séculos, a obra desapareceu do campo de visão quando uma transformação arquitetônica alterou a capela principal, após o arcebispo Luis Alonso de los Cameros decidir renovar o ambiente e destacar o altar de prata instalado no local.
Responsável pela intervenção, o arquiteto Juan Pérez Castiel optou por erguer uma nova cúpula abaixo da antiga abóbada, em vez de destruir a pintura, cobrindo os anjos e os demais elementos renascentistas com uma estrutura barroca concluída em 1682.
Entre os dois tetos, formou-se uma câmara fechada que retirou as pinturas da vista, mas também reduziu a exposição à circulação de pessoas, à iluminação e a mudanças decorativas, ajudando a preservar o azul, as estrelas e partes do acabamento dourado.
Quando a câmera entrou nesse espaço mais de 330 anos depois, as imagens ainda mostravam cores intensas, figuras reconhecíveis e detalhes dourados, oferecendo aos restauradores a primeira visão concreta de um conjunto cuja existência era conhecida apenas por registros históricos.
Documentos antigos indicavam a existência dos afrescos
Iniciado sob responsabilidade da fundação La Luz de las Imágenes, o trabalho de restauração da abside não buscava exclusivamente pinturas ocultas, mas os documentos conservados pela catedral indicavam que uma composição renascentista havia ocupado aquela área antes da reforma barroca.
Por uma abertura da estrutura, a primeira visualização de um dos dez anjos ocorreu em 22 de junho de 2004, levando os responsáveis pelo patrimônio a estudar como recuperar as pinturas sem eliminar de forma inadequada a intervenção barroca existente abaixo.
Para revelar o conjunto, especialistas analisaram as duas camadas arquitetônicas e desmontaram de maneira controlada elementos da cúpula construída por Pérez Castiel, permitindo limpar as superfícies, estabilizar os pigmentos e recuperar os anjos músicos na capela principal.
Restauração recuperou rostos, instrumentos e detalhes dourados
À medida que a restauração avançou, instrumentos, expressões faciais, tecidos, asas e ornamentos dourados voltaram a ser observados em conjunto, restabelecendo a relação visual entre as figuras renascentistas e a arquitetura gótica para a qual haviam sido originalmente concebidas.
Marcada por diferentes períodos históricos, a Catedral de Valência foi construída em estilo gótico no local anteriormente ocupado por uma mesquita e recebeu, ao longo dos séculos, transformações renascentistas, barrocas e neoclássicas que se sobrepuseram dentro do mesmo edifício.
Durante mais de três séculos, a cúpula barroca funcionou ao mesmo tempo como cobertura e barreira visual, até que o movimento das aves, uma abertura no teto e uma câmera posicionada sem enquadramento definido permitiram que dez figuras do século XV reaparecessem.
Quantas pinturas históricas ainda podem permanecer preservadas em espaços estreitos, acima de tetos e atrás de reformas realizadas em igrejas, palácios e outros edifícios antigos que continuam sendo usados e visitados diariamente em diferentes partes do mundo?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

