5 min de leitura
Merendeira indígena que concluiu o ensino médio aos 29 anos usou o próprio salário para pagar Pedagogia, formou-se e virou professora da mesma escola da comunidade Tapeba onde preparava a comida dos alunos, no Ceará
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 03/08/2026 às 21:06
Curiosidades
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Trajetória construída entre a cozinha escolar e a sala de aula mostra como estudo, trabalho e vínculo comunitário transformaram uma merendeira indígena em professora da própria escola, mantendo o conhecimento no território Tapeba e aproximando crianças da educação formal sem afastá-las de sua identidade cultural.
Ivanilda Pereira da Silva passou da cozinha para a sala de aula dentro da própria Escola Indígena da Ponte, situada na comunidade Tapeba de Caucaia, no Ceará, após transformar o salário de merendeira no principal recurso para financiar sua formação em Pedagogia.
Depois de concluir o ensino médio aos 29 anos, ela começou a trabalhar na preparação da alimentação escolar e, ao terminar a graduação, assumiu uma turma da educação infantil na mesma instituição onde já mantinha vínculo com estudantes, famílias e funcionários.
Segundo o Diário do Nordeste, a trajetória integra um movimento de indígenas cearenses que chegaram ao ensino superior e devolveram o conhecimento adquirido às comunidades de origem, fortalecendo escolas ligadas à preservação cultural e à formação de novas gerações.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Sem deixar o ambiente em que trabalhava, Ivanilda avançou por etapas que se conectaram no mesmo espaço: primeiro a merenda, depois a universidade e, por fim, a docência voltada às crianças da própria comunidade indígena.
Escola Indígena da Ponte preserva a cultura Tapeba
Na Comunidade da Ponte, em Caucaia, a escola combina conteúdos do ensino convencional com conhecimentos relacionados às tradições do povo Tapeba, permitindo que a aprendizagem formal caminhe ao lado da história, dos costumes e das referências culturais dos estudantes.
Música associada à pajé da comunidade, instrumentos, artesanato e contato com a natureza fazem parte do cotidiano descrito na instituição, onde crianças e adolescentes também aprendem sobre a memória coletiva e os modos de vida preservados pelo povo Tapeba.
Ao retornar à mesma escola como professora, Ivanilda passou a ocupar uma função para a qual a própria comunidade reivindicava maior presença de profissionais indígenas, capazes de ensinar o currículo sem separar a educação formal da identidade local.
Em vez de romper com o território para exercer a nova profissão, ela aplicou a formação superior no lugar onde já conhecia alunos, famílias e trabalhadores, mantendo dentro da comunidade o conhecimento adquirido durante o curso de Pedagogia.
Salário de merendeira financiou a graduação em Pedagogia
Aos 29 anos, depois de concluir uma etapa escolar que havia ficado pendente até a vida adulta, Ivanilda ingressou na Escola Indígena da Ponte como merendeira e passou a usar o salário para custear as mensalidades da graduação.
Enquanto preparava a alimentação dos estudantes, ela estudava para alcançar a habilitação exigida para a docência, reunindo duas atividades ligadas à educação em espaços diferentes, mas conectadas pelo objetivo de permanecer profissionalmente vinculada à escola.
Concluída a graduação, a antiga merendeira assumiu a educação infantil, etapa em que as crianças desenvolvem linguagem, convivência, expressão e reconhecimento do ambiente, dentro de uma proposta escolar que também incorpora referências culturais do povo Tapeba.
Essa passagem para a sala de aula ocorreu sem interromper o vínculo construído ao longo dos anos, pois a instituição que forneceu o emprego usado para financiar os estudos tornou-se o local onde a nova formação começou a ser aplicada.
Professores indígenas ampliam referências para os estudantes
Para a professora, encontrar profissionais indígenas com formação acadêmica dentro da própria comunidade ajuda as crianças a reconhecerem a faculdade como uma possibilidade concreta e mostra que o conhecimento obtido fora pode retornar ao território de origem.
Antes da existência de uma escola ligada à comunidade, estudantes Tapeba enfrentavam discriminação em instituições convencionais por causa da aparência, das roupas ou da maneira como chegavam às aulas, conforme o relato apresentado por Ivanilda.
Ligada diretamente ao território indígena, a unidade ofereceu um espaço no qual as condições de vida das famílias não fossem transformadas em motivo de constrangimento, ao mesmo tempo que incorporava práticas e conhecimentos relacionados à identidade dos estudantes.
Mantida pelo Governo do Ceará, a Escola Indígena da Ponte atende crianças e adolescentes da comunidade e organiza uma rotina na qual conteúdos regulares dividem espaço com música, artesanato, natureza e tradições transmitidas entre gerações Tapeba.
Formação superior fortaleceu a educação na comunidade
O avanço de Ivanilda até a Pedagogia ampliou a presença de profissionais indígenas nesse cotidiano escolar, levando para a educação infantil uma trabalhadora que já conhecia profundamente a instituição, as famílias atendidas e as necessidades da comunidade.
Dentro da própria família, a experiência com o ensino superior também alcançou Ceciliana Pereira da Silva, irmã de Ivanilda, que ingressou em Pedagogia e atuou na mesma escola depois de uma trajetória marcada pelo trabalho e pela retomada dos estudos.
Antes da faculdade, Ceciliana havia trabalhado com serviços gerais na unidade e relatou que decidiu buscar formação superior depois de ser humilhada por uma pessoa que desvalorizou o trabalho realizado por ela naquele ambiente escolar.
Já na graduação, Ceciliana passou a defender a presença de mais professores formados dentro das próprias comunidades indígenas, reforçando uma proposta em que o diploma não representa afastamento, mas retorno profissional ao território e atendimento direto às novas gerações.
Da cozinha escolar para a educação infantil
Ao seguir caminho semelhante, Ivanilda iniciou sua participação profissional preparando a merenda dos alunos e, após concluir a formação, encontrou na mesma escola a oportunidade de ensinar crianças sem precisar abandonar a comunidade para exercer a profissão escolhida.
No mesmo endereço, ela trabalhou na cozinha, obteve a renda usada para pagar a faculdade e passou a exercer a docência, transformando a relação com a escola sem depender de transferência para outra cidade ou de mudança para outra rede.
Pela educação, uma função essencial de apoio escolar deu lugar ao trabalho pedagógico, e a mulher que antes preparava refeições tornou-se uma das professoras indígenas responsáveis por apresentar às crianças a possibilidade de estudar, graduar-se e aplicar o conhecimento no próprio território.
Quantas outras trabalhadoras que conhecem profundamente o cotidiano de uma escola poderiam transformar a própria trajetória caso encontrassem condições para concluir os estudos, ingressar no ensino superior e exercer uma nova profissão dentro da comunidade onde já atuam?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

