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Com viseiras e detectores nas mãos, 322 mulheres entraram em terrenos bloqueados por explosivos no Sri Lanka, integraram uma equipe de 692 desminadores e conquistaram renda enquanto liberavam áreas para moradia e agricultura
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 04/08/2026 às 17:21
Atualizado em 04/08/2026 às 17:22
Economia
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Após a guerra civil, a desminagem no Sri Lanka reuniu 322 mulheres numa equipe de 692 profissionais, recuperou terrenos bloqueados por explosivos para moradia, agricultura e infraestrutura e abriu renda para trabalhadoras que antes tinham poucas oportunidades no norte do país.
Com viseiras protegendo o rosto e detectores nas mãos, 322 mulheres entraram em terrenos contaminados por explosivos no Sri Lanka. Elas integravam uma equipe de 692 desminadores da HALO Trust, organização envolvida na liberação de áreas bloqueadas desde a guerra civil.
A informação foi publicada por Geneva International Centre for Humanitarian Demining, centro internacional especializado em desminagem humanitária. As mulheres representavam 47% dos profissionais da HALO Trust envolvidos nas operações no país.
Além de permitir o retorno de famílias, a desminagem abriu uma fonte de renda para mulheres que encontravam poucas oportunidades de trabalho. Entre as entrevistadas, mais de um terço não recebia qualquer rendimento antes de entrar nesse setor.
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A guerra terminou em 2009, mas as minas terrestres continuaram bloqueando comunidades
A guerra civil do Sri Lanka durou de 1983 a 2009. O conflito terminou com a vitória do governo sobre os Tigres de Libertação do Tâmil Eelam, mas deixou as regiões norte e leste contaminadas por explosivos.
Mina terrestre não tem relação com mineração. A expressão se refere aos artefatos explosivos deixados no solo durante conflitos, capazes de tornar uma área perigosa mesmo muitos anos depois do fim dos combates.
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A contaminação dificultava o retorno de pessoas que haviam deixado suas casas e impedia o uso seguro dos terrenos. Sem a retirada dos explosivos, famílias não podiam construir moradias, cultivar alimentos ou acessar determinadas áreas de infraestrutura.
No início de 2020, o Sri Lanka ainda possuía terrenos contaminados, principalmente na Província do Norte. Portanto, a desminagem permanecia em andamento mais de dez anos depois do fim da guerra.
Uma equipe da HALO Trust reuniu 322 mulheres e 370 homens
Na época da pesquisa, a HALO Trust mantinha 692 profissionais nas operações de desminagem. A equipe era composta por 322 mulheres e 370 homens, o que colocava a participação feminina próxima da metade do total.
Geneva International Centre for Humanitarian Demining, centro internacional especializado em desminagem humanitária, registrou que mulheres e homens trabalhavam lado a lado, com rendimentos e benefícios semelhantes dentro do setor.
Para muitas participantes, aquele trabalho técnico representou a primeira oportunidade de receber um salário regular. Além da renda, elas adquiriram experiência em atividades como trabalho em equipe, liderança, primeiros socorros e organização do tempo.
As operações eram coordenadas pelo Centro Nacional de Ação contra Minas, responsável por organizar as atividades no terreno. O uso de viseiras, detectores e equipes preparadas reforçava a natureza especializada do trabalho, que não pode ser confundido com uma limpeza comum de solo.
Área contaminada conhecida caiu de 506 para 25,8 quilômetros quadrados
Em 2010, um ano depois do fim da guerra civil, o Sri Lanka possuía 506 quilômetros quadrados de área contaminada conhecida. Em 2018, esse total havia caído para 25,8 quilômetros quadrados.
A liberação de terras permite que um terreno volte a ser usado com segurança. Na prática, isso abriu espaço para a construção de casas, estradas e outras estruturas, além da retomada da agricultura.
Em junho de 2017, Batticaloa se tornou o primeiro distrito afetado a ser declarado seguro contra minas terrestres. A mudança permitiu ampliar o retorno de moradores e a recuperação das atividades econômicas locais.
O avanço não significava que todo o país estivesse livre de explosivos. Ainda existiam áreas contaminadas em 2020, principalmente no norte, onde comunidades continuavam dependendo do trabalho dos desminadores.
Renda média das mulheres cresceu mais de 3,5 vezes
A pesquisa ouviu 226 desminadores, divididos entre 113 mulheres e 113 homens. Antes da contratação, mais de uma em cada três mulheres não recebia renda, enquanto essa situação atingia um em cada 20 homens.
Entre as participantes, o rendimento médio mensal passou de 9.580 para 34.447 rúpias do Sri Lanka. O crescimento representou um aumento superior a 3,5 vezes na renda média feminina.
Metade das mulheres entrevistadas era a única responsável pela renda da residência. Nove em cada dez também recebiam mais do que seus companheiros, o que colocou muitas delas na posição de principal responsável financeira da família.
O aumento de 3,5 vezes representa a média das mulheres entrevistadas. Isso não significa que todas as 322 profissionais da HALO Trust tiveram exatamente o mesmo crescimento financeiro.
Salário permitiu comprar terra, moradia e serviços básicos
Uma em cada cinco mulheres e homens entrevistados conseguiu comprar um terreno após começar a trabalhar na desminagem. Entre as mulheres, metade adquiriu um imóvel e mais da metade dos profissionais instalou eletricidade em casa.
O salário também facilitou a entrada no sistema financeiro. Entre as participantes, 42% passaram a ter conta bancária e a mesma proporção conseguiu acesso a empréstimos.
A alimentação das famílias apresentou mudanças. Ao todo, 89% das mulheres relataram maior acesso a comida após a contratação, enquanto sete em cada dez perceberam aumento no número de anos que seus filhos permaneciam na escola.
A atividade também alterou a forma como essas mulheres enxergavam o próprio papel dentro de casa. A pesquisa registrou mais confiança pessoal entre 95% das entrevistadas e maior independência financeira entre nove em cada dez.
Redução das áreas contaminadas criou um novo desafio profissional
A desminagem recuperava terrenos, mas a redução das áreas contaminadas também diminuía gradualmente a necessidade de equipes. Em junho de 2020, já existia preocupação com o futuro das trabalhadoras após o encerramento das operações.
Muitas viviam em regiões com poucas oportunidades de emprego. Mulheres responsáveis sozinhas pela renda da família poderiam enfrentar dificuldades econômicas quando o trabalho de desminagem terminasse.
A experiência adquirida abriu possibilidades em outras atividades. Entre as mulheres entrevistadas, 95% desenvolveram habilidades de trabalho em equipe, 98% relataram aprendizado em liderança e 90% receberam conhecimentos de primeiros socorros.
O trabalho das desminadoras produziu dois resultados ligados entre si. As comunidades recuperaram terrenos para moradia, agricultura e infraestrutura, enquanto centenas de mulheres conquistaram renda, experiência e maior participação nas decisões financeiras da família.
Quem devolveu terras seguras às comunidades também deveria receber apoio para encontrar uma nova profissão quando a desminagem acabar? Comente e compartilhe.
Fonte
GICHD
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

