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Uma entre nove irmãos e moradora da zona rural de Goiás, adolescente trabalha como empregada doméstica em duas cidades para custear os estudos, constrói 30 anos de carreira como advogada trabalhista e chega ao cargo de ministra do Tribunal Superior do Trabalho
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 11/08/2026 às 22:22
Atualizado em 11/08/2026 às 22:52
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Trajetória marcada por origem rural, dificuldades de acesso à educação, trabalho doméstico na adolescência e três décadas de advocacia mostra como diferentes etapas da vida profissional de Delaíde Alves Miranda Arantes antecederam sua chegada ao Tribunal Superior do Trabalho, órgão de cúpula da Justiça trabalhista brasileira.
Antes de ocupar uma cadeira no Tribunal Superior do Trabalho, Delaíde Alves Miranda Arantes construiu uma trajetória profissional iniciada longe dos tribunais e dos grandes centros urbanos, marcada pela vida na zona rural de Goiás, pelo trabalho doméstico e pela continuidade dos estudos.
Criada em uma família de nove irmãos, ela trabalhou como empregada doméstica em Pontalina e, mais tarde, em Goiânia, usando a renda obtida nesses empregos para custear a própria formação e seguir estudando apesar das dificuldades enfrentadas naquele período.
Depois de aproximadamente 30 anos de atuação como advogada trabalhista, Delaíde chegou ao cargo de ministra do órgão de cúpula da Justiça do Trabalho, encerrando uma sequência profissional que começou muito antes de sua entrada na área jurídica.
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A própria magistrada relatou essa trajetória em entrevista publicada pelo Tribunal Superior do Trabalho, principal fonte desta reportagem, na qual descreveu a mudança da zona rural para a cidade, o esforço para permanecer estudando e a longa experiência profissional acumulada antes da Corte.
Infância na zona rural de Goiás e acesso à educação
Ainda na adolescência, o acesso à educação já ocupava lugar central na vida da família, pois Delaíde contou ao TST que tinha entre 13 e 14 anos quando seu pai cogitava manter os filhos na zona rural, sem levá-los para estudar na cidade.
Naquele momento, a família numerosa, formada por nove irmãos, enfrentava uma realidade em que a permanência no campo parecia provável, até que uma iniciativa estadual voltada aos jovens rurais passou a apresentar novas possibilidades de formação e continuidade dos estudos.
Chamado de 4E, o programa promovia atividades multidisciplinares e reunia palestras sobre direitos, alimentação e outros temas, enquanto os extensionistas envolvidos também incentivavam o pai de Delaíde a permitir que os filhos prosseguissem os estudos fora da zona rural.
A participação da adolescente ganhou outra dimensão quando surgiu, aos 14 anos, a possibilidade de viajar ao Rio de Janeiro para um congresso, experiência que inicialmente enfrentou resistência do pai e só ocorreu após a intervenção do prefeito da cidade.
Até então, Delaíde afirmou que nem sequer conhecia Goiânia, capital de seu próprio estado, o que ajuda a dimensionar a distância entre sua rotina no meio rural e os novos espaços educacionais que passou a conhecer naquele período.
Realizado no Colégio Batista da Tijuca, o encontro reuniu representantes de 14 países e 21 estados brasileiros, e Delaíde, ainda adolescente e vinda da zona rural, participou das atividades e chegou a discursar diante dos demais participantes.
Entre os temas defendidos por ela estava justamente a ampliação do acesso ao ensino superior para pessoas que viviam no meio rural, questão diretamente relacionada à realidade que conhecia e às dificuldades enfrentadas por jovens que desejavam continuar estudando.
Depois daquele período de participação no programa e de contato com novas possibilidades educacionais, o pai decidiu deixar a zona rural e mudar-se com os filhos para Pontalina, medida que permitiu à família ampliar o acesso à escola na cidade.
Trabalho como empregada doméstica ajudou a custear os estudos
A mudança, no entanto, não resolveu os custos ligados aos estudos, e Delaíde passou a trabalhar como empregada doméstica em uma cidade pequena, onde as oportunidades de emprego eram limitadas e a continuidade da formação dependia também da renda obtida.
Segundo o relato concedido ao Tribunal Superior do Trabalho, ela exerceu a atividade em duas ocasiões distintas, primeiro em Pontalina e, posteriormente, em Goiânia, mantendo em ambos os períodos o mesmo objetivo de conseguir recursos para custear os estudos.
Esse trabalho dentro de casas de família passou a fazer parte da trajetória que antecedeu sua entrada no Direito, área em que Delaíde continuaria avançando depois de manter os estudos e conquistar espaço profissional na advocacia trabalhista.
Ao longo da carreira, foram aproximadamente 30 anos de atuação como advogada na área trabalhista, segundo o TST, período em que acumulou experiência profissional e também participou de entidades e movimentos ligados ao campo jurídico e às questões sociais.
Três décadas de experiência na advocacia trabalhista
Quando falou sobre a chegada ao tribunal, Delaíde destacou que não levava apenas a experiência adquirida na advocacia, mas também as vivências acumuladas desde a juventude, entre elas a infância no campo, o trabalho doméstico e as dificuldades para estudar.
Na entrevista institucional, essas diferentes etapas aparecem relacionadas à perspectiva profissional que ela levaria para a magistratura, ao lado das três décadas dedicadas à advocacia trabalhista e do contato prolongado com temas sociais vinculados ao trabalho e à educação.
Além da atuação profissional, Delaíde também ocupou espaços de representação feminina e, na época da entrevista publicada pelo TST, exercia a vice-presidência da Associação Brasileira das Mulheres da Carreira Jurídica e integrava o Conselho Estadual da Mulher, em Goiânia.
Essas participações se somavam à experiência acumulada na advocacia e aos movimentos sociais mencionados pelo próprio tribunal ao apresentar sua trajetória, ampliando o conjunto de atividades que antecederam a passagem da advocacia para a magistratura superior.
Chegada ao Tribunal Superior do Trabalho
Ao chegar ao Tribunal Superior do Trabalho, Delaíde passou a integrar o órgão de cúpula da Justiça do Trabalho, responsável por uniformizar a interpretação da legislação trabalhista dentro desse ramo do Judiciário brasileiro em todo o território nacional.
A mudança de função representou a passagem de uma carreira construída durante décadas na advocacia para o exercício da magistratura em um tribunal superior, depois de uma trajetória iniciada em condições muito diferentes daquelas encontradas no ambiente institucional da Corte.
Os próprios elementos registrados pelo TST evidenciam esse contraste: uma adolescente de uma família com nove irmãos, criada na zona rural e diante de dificuldades para continuar estudando, trabalhou como doméstica em duas cidades antes de ingressar na área jurídica.
Décadas mais tarde, a experiência adquirida na advocacia trabalhista antecedeu sua chegada à mais alta instância da Justiça do Trabalho, estabelecendo uma ligação direta entre os obstáculos enfrentados na juventude e a trajetória profissional desenvolvida ao longo dos anos.
Também se destaca a relação entre o primeiro trabalho exercido por Delaíde e a área em que consolidaria sua carreira, pois a adolescente que trabalhou como doméstica para pagar os estudos tornou-se advogada especializada justamente nas relações de trabalho.
Após cerca de três décadas de atuação profissional, ela passou a integrar o Tribunal Superior do Trabalho, levando para a nova função, segundo seu próprio relato, experiências ligadas ao campo, à advocacia, ao trabalho doméstico e à vida no meio rural.
Dessa maneira, a trajetória registrada pelo TST percorre desde as dificuldades de acesso à escola durante a adolescência até a participação em uma das principais instituições do Judiciário brasileiro, mantendo a educação e o trabalho como elementos recorrentes de sua formação.
Se uma adolescente que precisou trabalhar como empregada doméstica em duas cidades para continuar estudando conseguiu construir três décadas de carreira jurídica e chegar a um tribunal superior, quantas outras trajetórias semelhantes podem permanecer pouco conhecidas no Brasil?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

