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Indígena de 29 anos que caminhava 8 km para estudar, vendia banana, farinha e peixe para comprar material e passou anos estudando sem cursinho conquista o 1º lugar em Medicina
Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 13/08/2026 às 11:45
Atualizado em 13/08/2026 às 11:46
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Janilson Silva dos Anjos, do povo Sateré-Mawé, saiu de uma comunidade no interior do Amazonas, estudou durante anos em meio a dificuldades financeiras e conquistou uma das duas vagas indígenas para Medicina em Altamira.
A distância entre a comunidade onde cresceu e uma faculdade de Medicina parecia enorme para Janilson Silva dos Anjos. Aos 29 anos, o indígena Sateré-Mawé conseguiu transformar anos de dificuldades em uma conquista concreta: ficou em 1º lugar no Processo Seletivo Especial 2025 da Universidade Federal do Pará (UFPA) para candidatos indígenas no curso de Medicina, em Altamira.
O resultado oficial da Universidade Federal do Pará registra Janilson com 9,25 pontos e a primeira colocação. O curso oferecia duas vagas para candidatos indígenas, ambas preenchidas.
Antes de chegar à universidade, porém, sua rotina era bem diferente. Janilson cresceu na comunidade Aninga, em Boa Vista do Ramos, no interior do Amazonas, em uma família ligada à agricultura familiar e à pesca.
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Caminhava cerca de 8 km para conseguir estudar
As dificuldades não terminavam no caminho. Houve períodos em que faltavam até materiais escolares, como cadernos, lápis e canetas. Professores ajudaram com doações para que ele pudesse continuar estudando.
A renda familiar vinha principalmente da agricultura e da pesca. Janilson ajudava os pais a vender banana, farinha e peixe, atividades que também contribuíam para as despesas da família e para a compra de materiais escolares.
Mais tarde, quando a família se mudou para a sede de Boa Vista do Ramos, ele passou a buscar caminhos para chegar ao ensino superior. Sem condições financeiras para pagar um cursinho preparatório e sem internet em casa naquele período, estudava sozinho e recorria a materiais recebidos por doação.
Tentativas, trabalho e anos de preparação para Medicina
O caminho entre o ensino médio e a universidade não foi imediato. Em entrevista ao BNC Amazonas, Janilson contou que terminou o ensino médio aos 18 anos, tentou vestibulares e não conseguiu aprovação nas primeiras vezes.
Em 2021, mudou-se para São Paulo. Lá, segundo seu relato, trabalhava como garçom durante a noite e estudava pela manhã para o vestibular.
A permanência longe de casa acabou sendo interrompida quando soube que a mãe estava doente. Janilson retornou ao Amazonas, mas continuou estudando e decidiu tentar novamente uma vaga em Medicina.
O desejo de seguir a profissão também foi influenciado pelas perdas dentro da própria família. Ao BNC, ele afirmou que a morte de um tio por câncer e, posteriormente, de sua irmã durante a pandemia de Covid-19 reforçou a decisão de tentar se tornar médico.
Resultado colocou Janilson no topo da seleção indígena
A aprovação ocorreu por meio do Processo Seletivo Especial 2025 para indígenas e quilombolas da UFPA. No resultado retificado para candidatos indígenas, Janilson aparece com inscrição 673765, nota final 9,25 e 1ª colocação em Medicina, em Altamira.
A conquista abriu uma nova etapa de dificuldades. Conforme relatou ao BNC, ele guardava dinheiro para viajar até a universidade, mas um irmão sofreu um acidente e parte dos recursos precisou ser direcionada para levá-lo a Manaus.
Amigos divulgaram sua situação nas redes sociais, e uma campanha de arrecadação ajudou a viabilizar a mudança para Altamira e o início da graduação.
Hoje, Janilson cursa Medicina na UFPA e relata que ainda enfrenta despesas com materiais e manutenção, mesmo estudando em uma universidade pública.
O objetivo declarado por ele vai além da formação acadêmica. Janilson afirma que, depois de se tornar médico, pretende voltar para cuidar de seu povo e buscar especialização em saúde da família e da comunidade, com atenção também a crianças, idosos e populações vulneráveis.
A trajetória que começou com quilômetros percorridos até a escola e anos tentando chegar à universidade agora continua dentro de uma sala de Medicina, em Altamira.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Fabio Lucas Carvalho.

