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Depois de perder o emprego, a casa e o noivado, homem de 39 anos vai morar em abrigo de Belo Horizonte, conclui o ensino médio pela EJA, passa os dias estudando em biblioteca pública, entra em Engenharia Mecânica na UFMG e ainda é aprovado em concurso público
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 13/08/2026 às 22:39
Atualizado em 13/08/2026 às 22:40
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Entre perdas pessoais, acolhimento público e uma rotina dedicada aos livros, trajetória reúne retomada da educação básica, preparação para processos seletivos e duas conquistas importantes, enquanto biblioteca, universidade e oportunidade profissional passam a ocupar papéis decisivos em um processo de reconstrução por meio dos estudos.
Cassimiro Gonçalves dos Santos Neto viu diferentes partes de sua vida desmoronarem antes de encontrar nos estudos um caminho para reorganizar a rotina e reconstruir perspectivas que haviam sido abaladas pela perda do emprego, da casa e da relação com a noiva.
Aos 39 anos, vivendo em um abrigo público de Belo Horizonte, ele retomou a educação básica pela Educação de Jovens e Adultos, transformou uma biblioteca pública em espaço regular de estudo e conquistou uma vaga em Engenharia Mecânica na Universidade Federal de Minas Gerais.
Além da aprovação universitária, Cassimiro também conseguiu passar em um concurso público do governo de Minas Gerais para trabalhar como camareiro hospitalar, acumulando duas conquistas enquanto ainda dependia do acolhimento público e buscava condições para voltar a se sustentar.
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Abrigo público em Belo Horizonte mudou completamente a rotina
Segundo o jornal Hoje em Dia, Cassimiro era técnico em mecânica e procurou a assistência social da Prefeitura de Belo Horizonte depois de enfrentar uma sequência de problemas pessoais e financeiros que comprometeu sua moradia, sua renda e sua estabilidade cotidiana.
Sem a estrutura que possuía anteriormente, ele passou a viver na unidade de acolhimento Professor Fábio Alves, localizada no bairro Carlos Prates, na região Noroeste da capital mineira, onde encontrou um ponto de apoio enquanto reorganizava diferentes áreas da vida.
Como as regras do acolhimento permitiam que utilizasse o espaço principalmente para dormir, boa parte do restante do dia precisava ser organizada fora da unidade, circunstância que levou Cassimiro a buscar um local estável onde pudesse manter uma rotina produtiva.
Foi nesse contexto que a Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, na Praça da Liberdade, passou a ocupar um papel central, oferecendo um ambiente onde ele conseguia permanecer por horas, ter contato frequente com livros e se dedicar à preparação acadêmica.
EJA abriu caminho para a preparação para o Enem
Antes de disputar uma vaga na universidade, porém, havia uma etapa indispensável a cumprir, porque Cassimiro ainda precisava terminar o ensino médio e obter a formação necessária para avançar em direção ao ensino superior e participar dos processos seletivos seguintes.
Por meio da Educação de Jovens e Adultos, modalidade voltada a quem não concluiu a educação básica na idade convencional, ele retomou os estudos e encontrou entre professores incentivo para ampliar seus objetivos para além da obtenção do diploma escolar.
Com a continuidade da formação, a preparação passou a incluir também o Exame Nacional do Ensino Médio, cujo resultado permitiria tentar uma vaga em universidade pública e seguir uma área ligada à experiência profissional que ele já acumulava como técnico em mecânica.
Biblioteca pública virou espaço regular de estudos
Sem uma residência própria onde pudesse manter livros, computador e materiais organizados, Cassimiro utilizava a estrutura pública disponível em Belo Horizonte, enquanto o tempo livre era direcionado ao estudo necessário para enfrentar a seleção universitária e manter uma rotina de preparação.
O esforço resultou na aprovação em Engenharia Mecânica da UFMG pelo sistema de cotas, permitindo que ele ingressasse em uma das principais universidades públicas de Minas Gerais e avançasse para uma formação superior diretamente relacionada à área em que já possuía experiência.
Dentro do abrigo, a notícia da aprovação também ganhou repercussão, porque a unidade onde Cassimiro vivia acolhia outras 36 pessoas naquele período, e a conquista passou a ser compartilhada entre moradores que acompanhavam sua rotina de estudos e reconstrução pessoal.
A coordenadora Raquel Jannuzzi relatou ao Hoje em Dia que uma atividade realizada entre os acolhidos estimulou cada participante a reconhecer avanços pessoais, como a obtenção da carteira de habilitação ou a conquista de um emprego, em meio às dificuldades enfrentadas.
Aprovação em concurso público abriu outra possibilidade
Embora a vaga na UFMG representasse uma mudança importante, Cassimiro ainda precisava encontrar recursos para permanecer estudando durante a graduação, já que o curso exigiria vários anos de dedicação e sua estabilidade financeira continuava em processo de reconstrução.
Nesse mesmo período surgiu outra conquista relevante, quando ele participou de um concurso público promovido pelo governo de Minas Gerais e conseguiu aprovação para uma vaga de camareiro hospitalar, abrindo uma possibilidade de renda enquanto se preparava para iniciar a universidade.
Quando sua história foi publicada pelo Hoje em Dia, Cassimiro aguardava a convocação para assumir o posto e enxergava no trabalho uma forma de custear despesas práticas associadas à graduação, conciliando a necessidade de renda com a continuidade dos estudos.
Da retomada do ensino médio à Engenharia Mecânica na UFMG
A entrada na UFMG, por sua vez, foi precedida por uma sequência de etapas que começou na assistência social, avançou pela retomada do ensino médio via EJA e ganhou força com a rotina de preparação mantida dentro da biblioteca pública.
Depois vieram a preparação para o Enem, a classificação em Engenharia Mecânica e a aprovação no concurso público, criando duas oportunidades paralelas em um momento no qual Cassimiro buscava recuperar condições básicas de estabilidade pessoal, acadêmica e profissional.
A escolha do curso também mantinha ligação direta com sua trajetória anterior, pois Cassimiro já possuía formação como técnico em mecânica, fazendo da graduação em Engenharia Mecânica uma continuidade acadêmica de conhecimentos relacionados à área em que havia trabalhado.
Estrutura pública sustentou a rotina de preparação
Enquanto a biblioteca substituía a estrutura tradicional de uma casa com espaço reservado para livros e materiais, o abrigo garantia o local para dormir, permitindo que Cassimiro organizasse sua rotina entre acolhimento, estudo e busca por novas oportunidades profissionais.
Ao receber a aprovação universitária, suas preocupações passaram a incluir as condições necessárias para permanecer no curso, e trabalho, telefone e computador estavam entre as necessidades práticas mencionadas por ele enquanto aguardava uma oportunidade para conciliar renda e graduação.
A trajetória documentada reúne perda de emprego e moradia, acolhimento público, retorno ao ensino médio, estudos em biblioteca, participação no Enem, aprovação em Engenharia Mecânica na UFMG e aprovação em concurso do governo mineiro, sem interromper a busca por estabilidade.
Que papel uma biblioteca pública pode assumir na vida de alguém quando estudar deixa de depender de uma casa estruturada e passa a funcionar como parte concreta da reconstrução acadêmica, profissional e pessoal de quem precisa recomeçar?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

