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Filho de mãe analfabeta e criado com pouco dinheiro, brasileiro foi catador de recicláveis, dono de bar, vigilante e sargento do Exército, trabalhou para pagar a faculdade de Direito, estudou em uma mesa improvisada na sala de casa e acabou conquistando a maior nota da OAB em Pernambuco
Escrito por Ana Alice
Publicado em 17/08/2026 às 06:18
Atualizado em 17/08/2026 às 06:19
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Antes da advocacia, Walter Marinho dos Reis passou por diferentes trabalhos, estudou em escola pública e enfrentou dificuldades financeiras até alcançar destaque no Exame da OAB e transformar a formação em Direito em uma nova carreira.
Antes de aparecer de terno com a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil, Walter Marinho dos Reis passou por trabalhos que pareciam apontar para destinos bem diferentes.
Catou materiais recicláveis, foi dono de bar, trabalhou como vigilante e serviu no Exército.
No meio dessa trajetória, encontrou espaço para cursar Direito, mesmo acumulando dívidas para pagar uma faculdade particular.
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O resultado ganhou repercussão em Pernambuco em 11 de julho de 2022, quando Walter, então com 34 anos, foi homenageado por ter obtido a maior nota entre os participantes de Pernambuco no 31º Exame de Ordem, segundo reportagens publicadas na época.
Ele também foi escolhido para falar como orador durante a cerimônia de entrega das credenciais.
A conquista tinha um significado especial dentro de casa.
Walter é filho de Severina de Souza Marinho, mulher que não teve acesso à escola e não aprendeu a ler nem escrever, mas que, segundo o advogado, insistia desde a infância para que os filhos tratassem a educação como uma possibilidade de mudança.
“Meu maior alicerce foi a minha mãe. Analfabeta e nunca foi para a escola, mas sempre me deu apoio”, afirmou Walter ao contar sua história.
Quatro anos depois da repercussão nacional, a advocacia continua fazendo parte de sua vida profissional.
Em março de 2026, o Diário de Pernambuco identificou Walter atuando como advogado e assistente de acusação em um processo acompanhado pelo Ministério Público de Pernambuco, mostrando que a aprovação na OAB não permaneceu apenas como um episódio simbólico de sua trajetória.
Mãe analfabeta colocou os estudos no centro da família
Severina nasceu em Surubim, no Agreste de Pernambuco.
Em 1988, mudou-se para Recife em busca de melhores condições para criar a família.
Ao longo dos anos, sustentou os cinco filhos com trabalhos na roça e como empregada doméstica.
Ela própria não havia frequentado a escola.
Justamente por conhecer as limitações impostas pela falta de alfabetização, repetia aos filhos que estudar poderia abrir caminhos que não estiveram disponíveis para ela.
“Dizia ‘quando chegar em casa, você tem que estudar, porque se você não estudar que nem eu, você não vai ser alguém na vida’. Quem não estuda é uma pessoa ‘cega’”, relatou Severina.
Entre os cinco irmãos, Walter foi o primeiro — e, segundo os relatos publicados em 2022, o único até então — a concluir uma graduação.
O diploma não surgiu de uma rotina dedicada exclusivamente aos estudos.
Antes disso, havia contas, empregos e diferentes tentativas de encontrar estabilidade.
Catador, dono de bar, vigilante e sargento antes do Direito
Ao reconstruir a própria trajetória, Walter enumerou algumas das atividades que exerceu antes da advocacia.
“Já tinha sido catador de recicláveis, dono de bar, vigilante, sargento do Exército. Sempre procurando o melhor para mim e sempre correndo atrás de um objetivo, de algo melhor”, disse.
A passagem pelas Forças Armadas também aparece em registros da Justiça Federal envolvendo Walter e o Exército, anteriores à sua formação como advogado.
Nenhum desses trabalhos, porém, eliminou a intenção de continuar estudando.
Ele havia cursado toda a educação básica em escolas públicas.
Quando decidiu fazer Direito, ingressou em uma instituição particular.
A mensalidade acrescentou outra dificuldade à rotina.
Walter contou que precisou trabalhar para manter o curso e acumulou dívidas durante a graduação, mas continuou até concluir os cinco anos de formação.
Boa parte do estudo acontecia longe de bibliotecas ou escritórios.
Mesa improvisada na sala virou espaço de estudos para a OAB
Durante anos, Walter estudou em uma mesa improvisada em um canto da sala da casa da família.
Era ali que revisava conteúdos enquanto tentava conciliar as exigências da faculdade com a necessidade de trabalhar.
Segundo ele, o incentivo da mãe permanecia como uma referência constante.
“Minha mãe não sabe ler, nem escrever, mas desde que eu era pequeno, ela sempre falou para a gente que a única coisa que iria mudar a nossa vida eram os estudos”, afirmou em entrevista publicada pela Folha de Pernambuco em julho de 2022.
A fala ajuda a explicar uma aparente contradição da história.
A pessoa que Walter aponta como principal responsável por convencê-lo da importância da educação nunca havia sentado em uma sala de aula como estudante.
Ainda assim, Severina acompanhou a formação do filho até o momento em que ele deixou de ser apenas bacharel em Direito e conseguiu cumprir a etapa necessária para ingressar na advocacia.
31º Exame da OAB teve resultado definitivo em 2021
A prova em que Walter se destacou foi o XXXI Exame de Ordem Unificado.
A primeira fase daquele exame ocorreu em fevereiro de 2020, mas o calendário foi afetado pelo período da pandemia.
O resultado definitivo da prova prático-profissional foi publicado pela OAB e pela Fundação Getulio Vargas em 26 de janeiro de 2021.
Os documentos oficiais do exame registram os candidatos aprovados.
Walter Marinho dos Reis aparece entre os aprovados vinculados ao Recife na relação da edição.
A repercussão maior de sua história, contudo, veio posteriormente.
Em 11 de julho de 2022, Walter foi homenageado em Pernambuco pela colocação obtida naquele exame.
Reportagens da Folha de Pernambuco e do g1 o apresentaram como o candidato que alcançou a maior nota da edição na seccional pernambucana.
Não há, nas fontes públicas consultadas, divulgação oficial facilmente acessível da pontuação individual comparada de todos os candidatos pernambucanos.
Por isso, o primeiro lugar é atribuído com base no reconhecimento feito pela OAB-PE e nas reportagens publicadas na ocasião.
Maior nota na OAB levou Walter à posição de orador
O resultado também lhe deu uma posição diferente durante a entrega das credenciais.
Walter foi convidado para atuar como orador da turma.
A cerimônia reuniu novos profissionais da advocacia e transformou em ato público uma história que, durante grande parte do tempo, havia acontecido dentro da pequena casa da família.
Uma das lembranças que mais valorizava naquele momento era a placa relacionada à OAB.
Para Walter, ela representava não apenas a aprovação em uma prova, mas os anos de escola pública, os empregos anteriores e o esforço financeiro necessário para terminar a faculdade.
A inscrição profissional posteriormente aparece em registros públicos como OAB-PE 58.757.
A nova profissão, entretanto, não apagou imediatamente os objetivos seguintes.
Em 2022, Walter dizia que pretendia continuar estudando.
Assista o vídeo
Sonho declarado era chegar à magistratura federal
Depois de ser aprovado, Walter afirmou que pretendia se preparar para concursos públicos.
Naquele momento, apontava como objetivo profissional de longo prazo tornar-se juiz federal.
“Quando a gente está determinado a conseguir algo e tem o apoio da família, tudo flui”, disse.
Até agosto de 2026, não há registro público confiável de que Walter tenha ingressado na magistratura federal.
O que pode ser confirmado é que seguiu atuando como advogado.
Em fevereiro de 2025, documentos do Tribunal de Justiça de Pernambuco já registravam seu nome e sua inscrição profissional em processos judiciais.
Em março de 2026, o Diário de Pernambuco voltou a identificá-lo no exercício da advocacia, desta vez como assistente de acusação em um caso envolvendo a morte de um adolescente na Região Metropolitana do Recife.
A história profissional também ganhou uma direção que não aparecia nos planos divulgados em 2022.
Advocacia foi seguida por uma entrada na política
Em 2024, Walter entrou na disputa eleitoral do Recife.
Com o nome de urna Walter Reis, concorreu ao cargo de vereador pelo Republicanos.
Dados eleitorais reproduzidos por veículos a partir das informações da Justiça Eleitoral mostram que sua candidatura foi deferida.
Ele recebeu 1.077 votos e ficou na suplência, de acordo com levantamento que reúne seu histórico eleitoral.
Dois anos depois, seu nome voltou a aparecer na Justiça Eleitoral.
Em agosto de 2026, Walter Marinho dos Reis figurava entre os postulantes a uma vaga de deputado estadual em Pernambuco pelo MDB, com o número 15310, mantendo “advogado” como ocupação declarada.
Na atualização disponível durante a primeira quinzena de agosto, o pedido ainda aparecia como aguardando julgamento da Justiça Eleitoral.
A candidatura representa um novo capítulo, mas não altera a origem da história que o tornou conhecido.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

