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Empresas portuguesas reclamam que ninguém quer trabalhar, enquanto brasileiros com formação e experiência são ignorados nos processos seletivos
Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 24/08/2026 às 07:36
Atualizado em 24/08/2026 às 07:37
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Enquanto empresas portuguesas relatam falta de mão de obra qualificada, brasileiros com ensino superior e experiência enfrentam entraves para validar diplomas, conseguir entrevistas e trabalhar em suas áreas de formação
Mesmo diante da escassez de profissionais em setores como turismo, hotelaria, restauração e saúde, imigrantes brasileiros enfrentam dificuldades para validar diplomas, conseguir entrevistas e trabalhar nas áreas em que construíram suas carreiras.
Portugal enfrenta uma contradição no mercado de trabalho: enquanto empresas relatam dificuldades para contratar profissionais qualificados, brasileiros com formação acadêmica, experiência e disponibilidade permanecem desempregados ou ocupam funções abaixo de suas qualificações.
A situação foi abordada em uma reportagem publicada pelo Público em 3 de agosto de 2026. António Marto, fundador da Bolsa de Empregabilidade, resumiu o problema ao afirmar que as empresas dizem não encontrar candidatos qualificados, mas a organização encontra profissionais “com formação, experiência e vontade de trabalhar”.
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A declaração parte da experiência de uma entidade especializada em aproximar trabalhadores e empregadores. O cenário, entretanto, também aparece em pesquisas sobre imigração, reconhecimento de diplomas e aproveitamento profissional em Portugal.
Empresas procuram trabalhadores, mas candidatos não chegam às vagas
A Bolsa de Empregabilidade surgiu em 2016, depois que a Associação Fórum Turismo identificou um desencontro entre empresas que precisavam contratar e candidatos interessados em trabalhar no setor.
Desde então, a organização passou a realizar feiras de emprego em diferentes regiões portuguesas, além de manter uma plataforma digital e promover ações de recrutamento. Segundo a entidade, aproximadamente 35 mil candidatos e 898 empresas já participaram de suas feiras.
O foco principal está no turismo e na hospitalidade, setores importantes para a economia portuguesa e que apresentam necessidade recorrente de mão de obra. As oportunidades abrangem áreas como hotelaria, restauração, cozinha, gestão, recursos humanos, animação turística e operações de viagem.
Em março de 2025, António Marto afirmou ao Jornal de Negócios que ainda existia uma carência estimada de 40 mil profissionais no turismo, consequência também da saída de trabalhadores durante a pandemia.
Naquele período, uma feira da Bolsa de Empregabilidade em Lisboa reuniu mais de 100 entidades, entre empresas, associações e instituições de ensino. Cerca de 3.500 candidatos compareceram em busca de estágio ou contratação.
Os números ajudam a mostrar o desencontro: de um lado, empresas afirmam que não conseguem preencher posições; do outro, milhares de pessoas procuram oportunidades. Isso não significa que qualquer candidato esteja automaticamente preparado para qualquer vaga, mas indica que a dificuldade não pode ser explicada apenas pela ausência de trabalhadores.
Brasileiros qualificados trabalham fora da profissão
O problema vai além do turismo. Uma reportagem do DN Brasil, publicada em julho de 2025, apresentou casos de brasileiras com formação em enfermagem, tecnologia, gestão, recursos humanos e docência que enfrentaram dificuldades para retomar suas carreiras em Portugal.
Os relatos envolvem demora, custos para reconhecimento acadêmico, exigência de complementação dos estudos e falta de retorno em processos seletivos. Algumas profissionais acabaram trabalhando em restaurantes ou outras atividades para conseguir permanecer no país.
A matéria citou o levantamento “Mapeamento da Diáspora Científica Brasileira em Portugal”, realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com apoio da Embaixada do Brasil em Lisboa.
De acordo com os resultados divulgados, 42% dos brasileiros classificados como profissionais com formação superior avançada estavam trabalhando fora de suas áreas. Mais de 56% dos participantes não haviam conseguido revalidar o diploma em Portugal.
O reconhecimento acadêmico possui especial importância nas profissões regulamentadas. Nessas áreas, ter concluído um curso e acumulado experiência no Brasil não garante autorização imediata para exercer a mesma atividade em território português.
Há ainda profissionais de áreas não regulamentadas que relatam barreiras relacionadas à origem da formação, idade, ausência de contatos locais e desvalorização da experiência adquirida fora da Europa.
OCDE aponta forte sobrequalificação entre imigrantes
Os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico mostram que essa dificuldade não se limita aos brasileiros.
Na União Europeia, aproximadamente 41% dos cidadãos de países de fora do bloco com ensino superior trabalhavam em ocupações abaixo de sua qualificação. Entre os cidadãos nacionais, a proporção era de aproximadamente 21%.
Portugal aparece entre os países com uma das maiores diferenças. Conforme a OCDE e a Comissão Europeia, estrangeiros extracomunitários com formação superior têm probabilidade de sobrequalificação aproximadamente quatro vezes maior que a dos portugueses.
Outro relatório da OCDE sobre o mercado de trabalho português reconhece que a validação das qualificações profissionais continua sendo um obstáculo, especialmente nas profissões regulamentadas.
A organização observa que atrasos administrativos relacionados a vistos, autorizações e reconhecimento acadêmico podem postergar a entrada dos imigrantes no mercado e reduzir a eficiência do sistema migratório.
O quadro, portanto, não demonstra inexistência de profissionais disponíveis. Ele revela dificuldades para conectar currículos às vagas, reconhecer qualificações estrangeiras e permitir que trabalhadores experientes ocupem funções compatíveis com sua trajetória.
Enquanto empregadores procuram pessoas qualificadas, parte dos brasileiros que já vive em Portugal continua tentando transformar formação e experiência em uma oportunidade efetiva de trabalho.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Fabio Lucas Carvalho.

