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Cientistas encontram no sangue de cascavel proteínas que neutralizam veneno e criam combinação 10 vezes mais potente que antiveneno atual em testes de laboratório
Escrito por Roberta Souza
Publicado em 10/09/2026 às 13:37
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Pesquisadores da University of Maryland combinaram proteínas que as cascavéis desenvolveram naturalmente para resistir ao próprio veneno. A mistura neutralizou completamente efeitos letais em testes experimentais e atuou contra venenos de diferentes víboras, abrindo caminho para uma nova geração de antivenenos produzidos em laboratório.
Uma possível resposta para melhorar o tratamento de picadas de cobra estava escondida justamente no sangue das próprias serpentes. Pesquisadores liderados pela University of Maryland, nos Estados Unidos, descobriram que combinações específicas de proteínas presentes no sangue da cascavel-diamante-ocidental conseguem bloquear toxinas de diferentes víboras e, em testes laboratoriais, atingiram potência aproximadamente 10 vezes superior à de um antiveneno comercial usado como comparação.
O trabalho, liderado pelo biólogo Sean B. Carroll, apareceu na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). A pesquisa explora uma pergunta aparentemente simples: se as cascavéis convivem com venenos extremamente perigosos, como conseguem se proteger de uma intoxicação acidental provocada pelas próprias toxinas?
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A resposta envolve proteínas chamadas FETUA. Em vez de produzir o antiveneno da maneira convencional, usando anticorpos obtidos após imunizar animais de grande porte, os pesquisadores tentaram aproveitar mecanismos de defesa que milhões de anos de evolução já criaram dentro das serpentes.
Cascavéis desenvolveram proteção contra o próprio veneno
A investigação começou antes do estudo atual.
Em 2022, o laboratório de Carroll identificou uma proteína chamada FETUA-3. Os pesquisadores descobriram que ela conseguia bloquear a atividade de várias metaloproteinases presentes no veneno da cascavel-diamante-ocidental e também interagia com toxinas encontradas em outras espécies de cascavel.
Isso ajudou a explicar uma observação conhecida havia décadas: víboras apresentam resistência ao próprio veneno.
Entretanto, encontrar uma proteína protetora não resolveu imediatamente o problema.
A equipe passou a investigar diferentes proteínas FETUA para descobrir o que cada uma conseguia neutralizar. Uma poderia reduzir determinado efeito provocado pelo veneno, enquanto outra interferia na atividade de determinadas enzimas.
Sozinhas, porém, nenhuma das proteínas testadas conseguiu impedir completamente a morte causada pelo veneno.
Foi quando os pesquisadores mudaram a estratégia.
Cientistas combinaram as proteínas e resultado mudou drasticamente
Em vez de procurar uma única molécula capaz de resolver tudo, a equipe passou a combinar diferentes proteínas.
A estratégia faz sentido porque o veneno de uma serpente não é uma substância simples. Uma única espécie pode produzir veneno com cerca de 100 proteínas tóxicas pertencentes a diferentes famílias, enquanto a composição muda entre espécies.
Portanto, bloquear uma única toxina pode não ser suficiente.
Quando os pesquisadores otimizaram as combinações de proteínas FETUA, observaram um resultado muito mais forte: as misturas conseguiram neutralizar completamente a ação letal do veneno de cascavel nos experimentos e também forneceram proteção ampla contra venenos de diferentes espécies de víboras.
A tentativa de criar tratamentos capazes de neutralizar diferentes toxinas não começou agora. Em 2025, o CPG mostrou como um “superantídoto” criado com anticorpos de um homem picado cerca de 200 vezes protegeu animais contra venenos de cobras como naja e mamba-negra. Naquele estudo, pesquisadores combinaram anticorpos humanos com uma molécula experimental, mostrando outra estratégia para tentar ampliar a cobertura dos antivenenos.
Algumas dessas serpentes estão separadas por milhões de anos de evolução.
Ainda assim, os mecanismos de defesa continuaram funcionando.
Mistura foi cerca de 10 vezes mais potente que antiveneno comercial
O número que mais chama atenção surgiu quando os cientistas compararam a abordagem experimental com um tratamento existente.
Nos ensaios laboratoriais descritos pelos pesquisadores, as combinações otimizadas foram aproximadamente 10 vezes mais potentes que um antiveneno comercial contra cascavéis derivado de ovelhas usado como referência.
Isso não significa que alguém picado por uma cobra já possa receber o novo produto.
O trabalho ainda representa uma etapa experimental. Os cientistas demonstraram o potencial das proteínas contra determinados componentes do veneno, mas precisam avançar muito antes de transformar essa descoberta em um tratamento aprovado para pessoas.
Mesmo assim, o resultado fornece um caminho diferente para desenvolver antivenenos.
Em vez de depender exclusivamente de anticorpos produzidos por animais imunizados, pesquisadores poderiam fabricar proteínas recombinantes em laboratório, inspiradas nas defesas naturais das próprias serpentes.
Antivenenos atuais ainda dependem de animais
Os soros existentes salvam vidas, mas seu processo de produção possui limitações.
Tradicionalmente, fabricantes administram doses controladas de veneno em animais de grande porte, como cavalos ou ovelhas. O sistema imunológico produz anticorpos e, posteriormente, componentes desses anticorpos são extraídos e processados para criar o antiveneno.
O problema é que a produção pode ser cara, apresentar variações e não oferecer a mesma eficácia contra todas as combinações de toxinas. Além disso, tratamentos derivados de proteínas animais podem desencadear reações imunológicas importantes em alguns pacientes.
A busca por novas tecnologias para medicamentos também aparece com frequência no CPG. O portal já mostrou, por exemplo, como cientistas desenvolveram novas abordagens para produzir medicamentos e insumos estratégicos reduzindo dependências de processos tradicionais.
Picadas de cobra ainda matam dezenas de milhares por ano
A importância potencial da descoberta fica mais evidente quando observamos o tamanho do problema.
A University of Maryland, citando estimativas da Organização Mundial da Saúde, informa que picadas de serpentes venenosas provocam aproximadamente 80 mil a 140 mil mortes por ano. Além disso, centenas de milhares de sobreviventes ficam com incapacidades permanentes.
Muitas vítimas vivem em regiões rurais, justamente onde o acesso rápido a tratamentos adequados pode ser limitado.
Por isso, pesquisadores procuram não apenas antivenenos mais eficazes, mas também produtos que possam ser fabricados em maior escala e a custos menores.
É nesse ponto que as proteínas encontradas nas cascavéis podem ganhar importância.
Evolução preservou partes desses mecanismos por 50 milhões de anos
Outro resultado chamou a atenção da equipe.
Partes dos inibidores estudados permaneceram altamente conservadas ao longo de aproximadamente 50 milhões de anos de evolução das serpentes, segundo Carroll. Para o pesquisador, isso indica que proteger-se contra o próprio veneno representa uma pressão evolutiva importante para esses animais.
Ainda existem perguntas sem resposta.
Os pesquisadores não sabem exatamente com que frequência uma serpente acaba exposta ao próprio veneno. Isso poderia acontecer durante uma mordida, pela boca, ao consumir uma presa previamente envenenada ou até em episódios de canibalismo.
Independentemente do mecanismo, a evolução manteve sistemas capazes de bloquear parte dessas toxinas.
Agora, cientistas tentam transformar essa proteção natural em tecnologia médica.
Pesquisa ainda resolveu apenas parte do quebra-cabeça
Existe uma limitação importante.
O estudo atual concentrou-se principalmente nas metaloproteinases, uma das grandes famílias de toxinas presentes em venenos de víboras.
Portanto, as proteínas estudadas não representam automaticamente uma solução universal contra qualquer cobra venenosa.
A equipe agora aplica a mesma estratégia a outras famílias de toxinas.
Segundo Carroll, os pesquisadores estão se aproximando de possíveis soluções para três grandes famílias de toxinas presentes em víboras. Caso consigam reunir inibidores capazes de agir simultaneamente sobre diferentes componentes, poderão construir formulações com proteção muito mais ampla.
Esse é justamente um dos maiores desafios dos antivenenos: uma solução extremamente eficiente contra determinada espécie pode funcionar de maneira diferente contra outra.
Primeiros produtos podem aparecer na medicina veterinária
Mesmo que a estratégia continue avançando, os primeiros pacientes talvez não sejam humanos.
Carroll acredita que as primeiras aplicações comerciais podem surgir na medicina veterinária. Tratamentos humanos poderiam vir posteriormente, depois de etapas adicionais de desenvolvimento, segurança e avaliação clínica.
A ambição de longo prazo é maior.
Os pesquisadores imaginam antivenenos recombinantes capazes de proteger contra uma gama mais ampla de venenos, com produção potencialmente mais padronizada e escalável.
Entretanto, essas vantagens ainda são objetivos futuros, não características comprovadas de um medicamento disponível comercialmente.
A própria cobra pode ter mostrado como fabricar um antiveneno melhor
O aspecto mais curioso da pesquisa está justamente na inversão do problema.
Durante décadas, humanos produziram soros expondo outros animais ao veneno para obter anticorpos.
Agora, os pesquisadores perceberam que as próprias serpentes desenvolveram moléculas especializadas para sobreviver às toxinas que carregam.
A equipe isolou esse mecanismo, estudou proteínas específicas e descobriu que nenhuma funcionava perfeitamente sozinha. Depois, combinou diferentes FETUA e obteve uma proteção muito mais forte.
Nos testes laboratoriais, a formulação otimizada chegou a aproximadamente 10 vezes a potência do antiveneno comercial usado na comparação.
Ainda será necessário descobrir como transformar esse resultado experimental em um medicamento seguro, estável, produzido em escala e eficaz em pessoas.
Porém, se o caminho funcionar, uma das soluções para um problema que mata até 140 mil pessoas por ano pode ter estado durante milhões de anos exatamente onde poucos procurariam: no sangue das próprias cobras venenosas.
E você, imaginava que o sangue de uma cascavel pudesse esconder moléculas capazes de ajudar a criar um antiveneno mais potente que os tratamentos atuais?
Fonte
Science Daily
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

