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O mar pode ficar 2,2°C mais quente e fazer a comida praticamente desaparecer em Galápagos, enquanto cientistas temem queda de pelo menos 20% dos vertebrados e tentam salvar até as últimas três florestas de uma espécie única
Escrito por Roberta Souza
Publicado em 10/09/2026 às 18:42
Atualizado em 10/09/2026 às 18:43
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El Niño previsto acima do normal pode retirar plâncton, algas e pequenos peixes da base da cadeia alimentar, levando pinguins, aves e leões-marinhos a abandonar a reprodução e procurar comida. Ao mesmo tempo, chuvas intensas podem favorecer plantas invasoras e ameaçar florestas que só existem no arquipélago
Uma mudança aparentemente pequena na temperatura do oceano pode desencadear uma sequência brutal nas Ilhas Galápagos. A água esquenta, plâncton e algas praticamente desaparecem, pequenos peixes diminuem, animais maiores ficam sem alimento, colônias interrompem a reprodução e indivíduos começam a se dispersar até morrer de fome. É esse cenário que está preocupando cientistas diante da previsão de um El Niño mais forte que o normal. Segundo reportagem publicada pela Associated Press, a projeção mais recente da NOAA indica que a temperatura do mar no Pacífico equatorial pode chegar a aproximadamente 2,2°C acima da média, patamar associado a impactos significativos.
E a preocupação não envolve apenas uma espécie famosa. Pinguins-de-Galápagos, atobás-de-pés-azuis, petréis, cormorões-não-voadores, albatrozes e até leões-marinhos aparecem entre os animais considerados vulneráveis. Gustavo Jiménez, cientista da Fundação Charles Darwin, afirmou à AP que, caso o fenômeno alcance a magnitude esperada, a população de vertebrados do arquipélago pode cair pelo menos 20% neste ano.
O problema também avança sobre a terra. Cientistas temem que as três últimas florestas remanescentes de Scalesia possam desaparecer, enquanto chuvas intensas favorecem invasoras de reprodução rápida, como amoras, capazes de ocupar o espaço de plantas endêmicas. Por isso, equipes já planejam remover invasoras, coletar sementes e criar viveiros para tentar conservar espécies ameaçadas.
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Quando o oceano esquenta, o primeiro desaparecimento acontece quase sem ninguém perceber, mas depois toda a cadeia alimentar começa a sentir
Galápagos está localizada aproximadamente 1.000 quilômetros da costa do Equador, no Pacífico, e reúne mais de 230 ilhas, embora apenas quatro sejam habitadas.
Sua localização torna o arquipélago especialmente exposto às mudanças provocadas pelo El Niño.
O fenômeno ocorre periodicamente e envolve o aquecimento das águas do Pacífico equatorial, além de alterações importantes nas chuvas.
Porém, desta vez, a projeção chama atenção pela intensidade.
De acordo com a NOAA, citada pela AP, a temperatura da água pode ficar aproximadamente 2,2°C acima da média. A reportagem explica que, quando essa anomalia chega a 2°C, o fenômeno já entra na classificação de “muito forte”.
À primeira vista, dois graus podem parecer pouco.
No oceano, entretanto, essa diferença consegue alterar profundamente a disponibilidade de nutrientes.
E é aí que começa o efeito dominó.
Washington Tapia, diretor da organização Biodiversa Ecuador, explicou que, conforme a temperatura aumenta, plâncton, algas e espécies menores de peixes que alimentam animais marinhos maiores praticamente desaparecem.
Ou seja, a ameaça não começa necessariamente com a morte de um grande animal.
Ela começa com organismos minúsculos deixando de estar disponíveis.
Depois, o impacto sobe pela cadeia alimentar.
Sem comida suficiente, colônias inteiras podem parar de se reproduzir e animais deixam seus territórios numa busca que pode terminar em fome
Quando a base da cadeia alimentar diminui, os animais precisam reagir.
Alguns reduzem a reprodução.
Outros abandonam áreas onde normalmente permaneceriam.
E muitos passam a gastar energia procurando alimento cada vez mais distante.
Segundo Gustavo Jiménez, da Fundação Charles Darwin, quando falta comida, as colônias podem interromper a reprodução e se dispersar em busca de alimento, com indivíduos morrendo de fome durante esse processo.
É justamente esse mecanismo que sustenta uma das previsões mais preocupantes da reportagem.
Se o El Niño atingir Galápagos com a intensidade esperada, a população de vertebrados do arquipélago poderá diminuir pelo menos 20% neste ano, segundo Jiménez.
Isso não significa que 20% de todas as espécies desaparecerão definitivamente.
Também não significa que exatamente um em cada cinco animais morrerá.
A projeção apresentada pelo cientista refere-se à possível redução da população de vertebrados diante das condições esperadas para o fenômeno.
Ainda assim, a dimensão é enorme para um arquipélago cuja biodiversidade depende justamente de populações altamente especializadas.
A natureza já mostrou diversas vezes como mudanças ambientais aparentemente localizadas conseguem desencadear efeitos muito maiores. Até animais conhecidos por enorme resistência podem depender de condições ambientais extremamente específicas, como ocorre em diferentes estratégias de sobrevivência que permitem que algumas espécies mantenham o corpo funcionando de maneiras surpreendentes.
Os pequenos pinguins de Galápagos já passaram por algo parecido e o que aconteceu em 1998 explica por que os cientistas estão tão preocupados agora
Existe um animal acompanhado particularmente de perto.
O pinguim-de-Galápagos funciona quase como um indicador biológico dos impactos do El Niño sobre o arquipélago.
E existe um precedente preocupante.
Depois do poderoso El Niño de 1998, restaram apenas 400 dos aproximadamente 1.300 pinguins-de-Galápagos existentes anteriormente, segundo dados da Fundação Charles Darwin citados pela AP.
Isso representa uma redução extraordinária.
E ajuda a explicar por que pesquisadores acompanham tão atentamente o que acontece agora.
Os pinguins dependem da disponibilidade de alimento no mar.
Quando o aquecimento modifica a produtividade oceânica e reduz as presas, esses animais precisam percorrer distâncias maiores ou simplesmente deixam de encontrar comida suficiente.
Além disso, a reprodução pode ser interrompida.
Assim, um fenômeno climático temporário consegue produzir consequências populacionais que continuam sendo sentidas muito depois de a temperatura da água voltar ao normal.
Não são apenas os pinguins, porque aves que não voam, leões-marinhos, corais e até a pesca de atum podem sentir a mesma mudança
A lista apresentada pelos cientistas é extensa.
Entre as espécies particularmente ameaçadas aparecem pinguins-de-Galápagos, atobás-de-pés-azuis, petréis, cormorões-não-voadores, albatrozes e leões-marinhos.
Além disso, colônias de corais podem ser seriamente afetadas.
Até a pesca de atum pode sofrer consequências.
Isso acontece porque todos esses organismos, direta ou indiretamente, estão conectados ao funcionamento do oceano.
Quando a produtividade marinha muda, não existe uma única espécie isolada recebendo o impacto.
O sistema inteiro precisa responder.
É justamente essa interdependência que torna ecossistemas insulares tão fascinantes e, simultaneamente, tão vulneráveis.
Galápagos possui uma concentração extraordinária de espécies encontradas em nenhum outro lugar do planeta.
Portanto, perder uma população local pode significar algo muito diferente de perder animais de uma espécie amplamente distribuída por vários continentes.
Em alguns casos, não existe outra população distante capaz de substituir aquela que desapareceu.
Enquanto o oceano ameaça deixar animais sem comida, a chuva pode transformar as ilhas em terreno perfeito para invasoras crescerem mais rápido que plantas únicas no planeta
Existe uma aparente contradição no El Niño.
No oceano, o problema está associado ao aquecimento e à redução de alimento disponível para diferentes animais.
Em terra, entretanto, chuvas intensas criam outra ameaça.
Plantas invasoras podem aproveitar as novas condições e crescer rapidamente sobre espécies nativas.
Heinke Jager, cientista da Fundação Charles Darwin, alertou que, se o El Niño atingir a força esperada, as três últimas florestas remanescentes de Scalesia podem correr risco de desaparecer.
Os cactos Opuntia, encontrados ao longo da costa, também estão ameaçados.
Essas plantas não são apenas elementos da paisagem.
Elas sustentam ecossistemas que incluem insetos, aves e outras plantas menores.
Consequentemente, seu desaparecimento poderia provocar novas alterações em cadeia.
A ameaça ocorre porque espécies invasoras, entre elas amoras, possuem ciclos reprodutivos mais rápidos e podem aproveitar a chuva para ocupar o território das plantas nativas.
Em outras palavras, o mesmo El Niño consegue atacar Galápagos por dois caminhos diferentes.
Muda o oceano por baixo e transforma a competição vegetal por cima.
Cientistas já estão recolhendo sementes porque esperar para descobrir o tamanho do estrago depois pode ser tarde demais
Diante da previsão, pesquisadores e autoridades não estão esperando o fenômeno terminar para reagir.
Foi organizado um plano que inclui erradicação de plantas invasoras, coleta de sementes e criação de viveiros destinados à conservação das espécies ameaçadas.
Participam da iniciativa o governo equatoriano, fundações e organizações não governamentais que trabalham no arquipélago.
A coleta de sementes funciona como uma espécie de segurança biológica.
Se uma população vegetal sofrer perdas severas, preservar material genético pode ajudar posteriormente em trabalhos de restauração.
Já a remoção das invasoras tenta impedir que espécies oportunistas ocupem rapidamente os espaços disponíveis depois das chuvas.
É uma corrida que acontece antes mesmo de se conhecer o tamanho final do impacto.
Esse tipo de intervenção mostra como conservação moderna não significa simplesmente cercar uma área e esperar que a natureza resolva tudo sozinha.
Em ecossistemas já pressionados por espécies introduzidas e alterações ambientais, muitas vezes pesquisadores precisam agir diretamente.
É uma lógica parecida com outras situações em que animais e ecossistemas acabam dependendo de intervenção humana depois que seu equilíbrio original é rompido.
Galápagos ajudou Darwin a pensar sobre evolução e agora o mesmo laboratório natural pode mostrar quão rápido um ecossistema muda quando o clima sai do padrão
A importância de Galápagos ultrapassa sua biodiversidade atual.
As ilhas foram declaradas Patrimônio Natural da Humanidade em 1978, e suas espécies únicas tiveram papel histórico nas observações que ajudaram Charles Darwin a desenvolver sua teoria da evolução.
Por isso, o arquipélago frequentemente é descrito como um grande laboratório natural.
Espécies que chegaram às ilhas ficaram isoladas.
Ao longo do tempo, populações desenvolveram características próprias.
Esse isolamento ajudou a produzir animais e plantas encontrados exclusivamente ali.
Porém, a mesma característica que torna Galápagos excepcional também cria vulnerabilidade.
Uma espécie restrita a poucas ilhas possui menos alternativas quando seu habitat sofre uma mudança severa.
E se essa espécie depende de um alimento que desaparece temporariamente por causa do aquecimento da água, a situação pode piorar rapidamente.
A Austrália oferece outro exemplo interessante de como isolamento e condições ambientais particulares produzem animais incomuns. Há espécies tão peculiares que até um peixe pequeno com aparência assustadora consegue esconder uma história evolutiva completamente diferente do que sua aparência sugere.
Em Galápagos, entretanto, o desafio atual não é descobrir apenas como os animais evoluíram.
É descobrir quanto dessa biodiversidade conseguirá resistir ao próximo grande choque climático.
Uma diferença de 2,2°C pode começar no termômetro do oceano e terminar com pinguins sem comida, florestas tomadas por invasoras e populações inteiras tentando sobreviver
Essa é talvez a dimensão mais impressionante da história.
A previsão começa com um número aparentemente pequeno.
2,2°C acima da temperatura normal do mar.
Depois, a sequência cresce.
Plâncton diminui.
Algas desaparecem.
Pequenos peixes ficam escassos.
Animais maiores encontram menos comida.
Colônias interrompem a reprodução.
Indivíduos começam a procurar alimento em outras regiões.
Alguns morrem.
Enquanto isso, em terra, chuvas intensas favorecem invasoras.
E plantas endêmicas passam a competir por espaço em condições completamente diferentes.
No cenário apresentado pelos cientistas à Associated Press, a população de vertebrados pode diminuir pelo menos 20% se o fenômeno ocorrer com a magnitude esperada.
Ao mesmo tempo, as três últimas florestas de Scalesia estão entre os ambientes que preocupam pesquisadores.
Por isso, cientistas já recolhem sementes e organizam viveiros antes de saber exatamente qual será o resultado.
Galápagos passou milhões de anos produzindo algumas das formas de vida mais incomuns do planeta.
Agora, um fenômeno climático periódico pode colocar parte desse patrimônio diante de um teste particularmente severo.
E você, o que mais impressiona nessa história — uma diferença de apenas alguns graus conseguir desorganizar toda uma cadeia alimentar ou cientistas já precisarem guardar sementes para tentar proteger plantas que podem desaparecer das ilhas?
Fonte
Associated Press
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

