8 min de leitura
Corrida pela energia renovável encontra um obstáculo inesperado: geração cresce mais rápido que a demanda em determinados momentos, pressionando investimentos e exigindo novas estratégias para equilibrar oferta, consumo e infraestrutura no setor elétrico brasileiro
Escrito por Hilton Libório
Publicado em 11/09/2026 às 21:33
Atualizado em 11/09/2026 às 21:50
Energia Renovável
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Brasil enfrenta excesso de energia renovável em horários de baixa demanda. Mercado elétrico busca novas estratégias para acelerar a transição energética com eficiência.
De acordo com matéria publicada pela CNN Brasil em 08 de setembro de 2026, o setor elétrico brasileiro vive uma mudança importante de cenário. Depois de anos de forte expansão da geração solar e eólica, o país começa a lidar com momentos em que a oferta disponível cresce mais rapidamente que o consumo.
O problema aparece principalmente durante o dia. Em determinadas horas, existe tanta geração renovável disponível que parte das usinas precisa reduzir sua produção. Esse fenômeno, conhecido como curtailment, já influencia decisões de investimento, financiamento e planejamento da infraestrutura elétrica.
A discussão reúne órgãos como a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), além de empresas, bancos, investidores e representantes dos consumidores. A avaliação comum é que novos projetos precisam ser analisados com mais cautela.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Recomendado para você
Biocombustíveis Renováveis
Depois de cair 17,3% até junho, biodiesel vira para cima, sobe 9,5% e chega a R$ 5.362 por m³ enquanto B15 já ocupa 15% do diesel brasileiro
Preço médio avançou mais 0,9% na 35ª semana de 2026 e chegou a R$ 5.362,81 por m³; depois de despencar no primeiro semestre, mercado acumula recuperação de 9,5% desde junho
O…
Paulo Nogueira
0
O crescimento da energia renovável muda as prioridades
A expansão da energia renovável foi fundamental para transformar a matriz elétrica brasileira. Solar e eólica ganharam espaço, atraíram bilhões em investimentos e ajudaram a diversificar a oferta nacional.
O cenário atual, porém, apresenta uma questão diferente. A capacidade instalada continua crescendo, enquanto o consumo não acompanha necessariamente esse avanço na mesma velocidade e nos mesmos horários.
O resultado é um excesso de energia concentrado em determinados períodos. Não significa que o Brasil tenha eletricidade sobrando durante todo o dia. Em outros momentos, a situação pode ser completamente diferente.
Assista o vídeo
Quando produzir mais deixa de ser suficiente
O ONS acompanha as restrições de geração e aponta que o problema ganhou dimensão relevante no Nordeste, região que concentra grande quantidade de empreendimentos eólicos e solares.
Em projeções para 2026 a 2029, o órgão estima que os cortes possam superar 40 GW a 50 GW em cenários críticos entre 9h e 16h, principalmente em fins de semana e feriados. Esse cenário ajuda a explicar por que simplesmente construir mais usinas pode não representar a solução mais eficiente.
Demanda de energia passa a pesar nas decisões
A demanda de energia tornou-se um dos principais fatores para avaliar novos empreendimentos. Não basta saber quanto uma usina consegue produzir. É necessário entender quando essa eletricidade será consumida e se haverá condições para transportá-la.
Alexandre Zucarato, diretor de planejamento do ONS, defendeu justamente uma mudança nessa lógica. Na avaliação do executivo, adicionar nova geração durante períodos de grande oferta pode apenas substituir uma produção que já existe.
O próprio ONS simulou os efeitos da entrada de aproximadamente 4 GW de novas cargas. O resultado mostrou uma redução de 693 MW médios no curtailment total, mas o impacto ainda seria limitado diante do volume de restrições projetado. Isso demonstra a importância de aproximar geração e consumo.
Algumas alternativas ganham força:
- instalação de grandes consumidores próximos aos centros de geração;
- estímulo ao consumo em horários de maior disponibilidade;
- expansão do armazenamento de eletricidade;
- melhoria do planejamento das redes de transmissão.
Mercado elétrico começa a recalcular os riscos com energia renovável
A mudança também chegou ao mercado elétrico. Quando uma usina deixa de produzir tudo o que poderia, sua receita pode ficar abaixo do previsto. Isso afeta contratos, valuation dos ativos e capacidade de pagamento das dívidas.
Segundo avaliações apresentadas por agentes do setor, já existem empreendimentos enfrentando dificuldades financeiras relacionadas aos cortes de geração. Em alguns casos, aparecem problemas com covenants, cláusulas previstas em contratos de financiamento.
Também há situações de standstill, quando determinadas obrigações financeiras são temporariamente suspensas enquanto credores e empresas negociam uma solução. O problema, portanto, deixou de ser exclusivamente operacional. Ele passou a atingir diretamente a estrutura financeira dos projetos.
Bancos mudam o foco dos investimentos
A mudança de percepção também aparece no financiamento. Segundo informações divulgadas pela MegaWhat, o Banco do Nordeste (BNB) passou a priorizar investimentos em transmissão, armazenamento e instalação de grandes cargas na região, em vez de concentrar recursos exclusivamente em novas usinas.
A alteração é relevante porque mostra uma possível mudança de ciclo. O capital começa a procurar soluções que permitam aproveitar melhor a eletricidade já produzida, em vez de simplesmente aumentar a capacidade instalada. No mercado elétrico, esse movimento pode elevar a seletividade dos financiadores e exigir estudos mais detalhados antes da aprovação de novos projetos.
Excesso de energia renovável pressiona investimentos
O presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Venilton Tadini, também chamou atenção para a mudança. A avaliação da entidade é que o setor passou de uma situação de falta de investimentos para um momento em que parte do capital pode estar sendo direcionada para segmentos que já apresentam excesso de oferta.
O excesso de energia ajuda a explicar essa preocupação. Quando muitos projetos competem para entregar eletricidade em uma mesma região e horário, a rentabilidade dos novos empreendimentos pode ser pressionada. Esse efeito também começa a aparecer na cadeia de equipamentos.
Dados da consultoria Greener indicam que as importações de módulos solares caíram 48% no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025. Entre os equipamentos destinados a grandes usinas, a retração chegou a 82%. Esses números indicam uma desaceleração importante no segmento.
Projetos solares e eólicos passam por revisão
A Aneel também tem recebido pedidos de revogação de outorgas de empreendimentos solares e eólicos. Empresas como Enel, Engie, EDF e Rio Energy aparecem entre aquelas que solicitaram a revisão ou desistência de projetos.
O movimento não significa o fim da expansão renovável no Brasil. Ele mostra, principalmente, que investidores estão reavaliando projetos diante de novas condições econômicas e operacionais.
O diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, há mais de dois anos alerta para as distorções provocadas por subsídios. Na avaliação apresentada pelo dirigente, incentivos podem levar investidores a responder mais aos benefícios regulatórios do que aos sinais naturais de oferta e demanda. Essa discussão ganhou relevância porque alguns incentivos foram preservados mesmo diante do crescimento acelerado da geração.
Transição energética precisa de mais flexibilidade
A transição energética brasileira entra, portanto, em uma fase diferente. O desafio já não é apenas substituir fontes mais poluentes por fontes renováveis. É fazer com que a nova geração seja integrada de maneira eficiente ao sistema.
A Lei nº 15.269/2025 trouxe novas regras para o setor e incluiu diretrizes relacionadas ao armazenamento de energia. A tecnologia pode ajudar a deslocar parte da eletricidade produzida em horários de excesso para períodos de maior necessidade. O armazenamento não é a única alternativa. A resposta também passa por redes mais eficientes e consumidores capazes de adaptar seus horários de consumo.
O papel estratégico do armazenamento
Baterias de grande porte podem absorver eletricidade quando a produção solar é elevada e devolvê-la posteriormente. Essa possibilidade reduz a necessidade de desperdiçar parte da geração disponível.
O armazenamento também pode melhorar a utilização da infraestrutura existente. Em vez de construir novas linhas ou usinas para atender picos específicos, o sistema pode usar recursos capazes de deslocar energia ao longo do dia. Nesse contexto, o excesso de energia deixa de ser apenas um problema e passa a representar uma oportunidade de modernização.
Um novo desenho para o setor elétrico
A solução exige coordenação entre governo, reguladores, geradores, consumidores e instituições financeiras. A expansão precisa considerar não apenas o potencial de geração, mas também a localização dos projetos, a capacidade das redes e o perfil horário do consumo.
Para a Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE), representada por Luiz Eduardo Barata, o planejamento deveria estar mais conectado ao consumo existente. A preocupação central é evitar que investimentos adicionais em transmissão sejam feitos para transportar uma energia que não consiga ser absorvida.
Nesse cenário, a demanda de energia precisa ocupar posição central nas decisões de longo prazo. Projetos industriais, data centers, produção de hidrogênio de baixo carbono e outras cargas eletrointensivas podem contribuir para absorver parte da geração, desde que apresentem viabilidade econômica e infraestrutura adequada.
O que muda para os próximos investimentos
A energia renovável continuará sendo indispensável para a estratégia brasileira de descarbonização. O que muda é o critério para escolher onde, quando e quanto investir.
O investidor terá de observar fatores como:
- risco de curtailment;
- capacidade de conexão e transmissão;
- perfil horário da geração;
- previsibilidade das receitas;
- possibilidade de combinar geração com armazenamento.
A lógica tende a ser menos baseada em volume e mais concentrada no valor sistêmico da eletricidade.
Uma nova etapa da transição energética
A transição energética não perdeu força. Ela ficou mais complexa. O Brasil já demonstrou capacidade de ampliar rapidamente fontes renováveis, mas agora precisa garantir que essa expansão gere valor para o sistema e para os consumidores.
O mercado elétrico terá de incorporar com mais precisão os riscos associados aos cortes de geração. Bancos deverão avaliar projetos com critérios mais rigorosos, enquanto reguladores precisarão aperfeiçoar os sinais econômicos. O excesso de energia em determinados horários é um alerta sobre essa necessidade de adaptação.
O equilíbrio entre geração de energia renovável e consumo
A demanda de energia será decisiva para definir o próximo ciclo de investimentos. Quanto maior a capacidade de deslocar o consumo, armazenar eletricidade e aproveitar a infraestrutura existente, menor tende a ser o desperdício de geração.
A energia renovável continuará crescendo, mas sua expansão precisará estar acompanhada de flexibilidade. O desafio não é produzir o máximo possível. É produzir no momento certo e garantir que essa eletricidade tenha utilidade econômica.
O Brasil entra, assim, em uma fase mais madura do planejamento elétrico. A próxima etapa dependerá menos da corrida por novos megawatts e mais da capacidade de integrar geração, rede, armazenamento e consumo.
Essa mudança pode representar uma oportunidade para tornar o sistema mais eficiente, reduzir investimentos mal direcionados e fortalecer uma transição energética capaz de combinar competitividade, segurança e sustentabilidade.
Tags
Energia Renovável
Fonte
CNN Brasil
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Hilton Libório.

