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Peixes viram ouro no Brasil e passam a servir como sentinelas da poluição: estudo da UFPR encontra lesões, danos no fígado e alterações genéticas mesmo com metais abaixo dos limites em 3 rios do Paraná
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 22/09/2026 às 17:24
Atualizado em 22/09/2026 às 17:25
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Biomonitoramento com cascudos mostrou que a avaliação da qualidade da água pode revelar efeitos acumulados nos organismos que não aparecem apenas nas medições de contaminantes, ampliando o diagnóstico ambiental dos rios São Camilo, Santa Fé e Pioneiro, no Oeste paranaense.
A saúde de peixes cascudos está sendo usada como registro biológico das condições dos rios São Camilo, Santa Fé e Pioneiro, no Oeste do Paraná. A pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) identificou lesões em órgãos e alterações genéticas mesmo quando os metais avaliados nos sedimentos estavam abaixo dos limites regulatórios considerados no estudo.
O trabalho integra a tese de doutorado de Fernando Garrido de Oliveira, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental (PPGETA), no Setor Palotina, sob orientação da professora Lilian Dena dos Santos. A metodologia combinou análises da água e dos sedimentos com biomonitoramento de cascudos.
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O que os peixes registraram nos três rios
A escolha do peixe permitiu observar efeitos que uma coleta química isolada pode não registrar. “O cascudo foi importante porque ele funciona como um integrador da exposição ambiental. Uma análise química da água mede a concentração de determinados contaminantes naquele momento, mas o peixe incorpora a exposição ao longo do tempo e responde à combinação de contaminantes e outros estressores presentes no ambiente”, explicou Lilian.
O artigo derivado da pesquisa, publicado na Environmental Research, reforça a proposta de combinar parâmetros físico-químicos com respostas biológicas. O ponto central é que a concentração de metais, sozinha, não descreveu todos os efeitos encontrados nos animais.
Mesmo com os metais avaliados abaixo dos limites regulatórios, os peixes apresentaram alterações bioquímicas, neurotóxicas, genotóxicas e histológicas. “No nosso estudo, isso ficou evidente porque, mesmo com os metais analisados nos sedimentos abaixo dos limites regulatórios, encontramos alterações bioquímicas, neurotóxicas, genotóxicas e histológicas nos peixes”, afirmou a professora.
Nas brânquias, diretamente expostas à água, os exames identificaram hiperplasia, fusão de lamelas, aneurismas, hemorragias e alterações do epitélio respiratório. Essas lesões atingem estruturas envolvidas na respiração e mostram que as respostas observadas não ficaram restritas a marcadores bioquímicos.
O fígado também apresentou danos. Por ser um órgão ligado ao metabolismo e à detoxificação, suas alterações ajudam a indicar como os animais respondem à exposição prolongada a substâncias e a outras pressões presentes no ambiente.
Por que o biomonitoramento amplia o diagnóstico
A diferença entre as duas abordagens explica o uso dos peixes como sentinelas. A análise química registra a presença e a concentração de contaminantes no momento da coleta; o biomonitoramento acrescenta a resposta do organismo ao conjunto de condições enfrentadas ao longo do tempo.
Isso não significa atribuir todas as lesões a um único metal ou contaminante. O estudo reúne diferentes indicadores para avaliar a pressão ambiental de forma integrada, combinando características da água e dos sedimentos com respostas bioquímicas, genéticas e estruturais observadas nos animais.
A metodologia pode ser adaptada a outras bacias hidrográficas. Conforme a região e o objetivo do monitoramento, outro animal pode substituir o cascudo como bioindicador, e os parâmetros de qualidade da água também podem ser ajustados às características do ambiente analisado.
A pesquisa relaciona a degradação observada ao aumento de nutrientes, à turbidez, ao acúmulo de sedimentos e à presença de metais, em meio a pressões como agricultura intensiva e urbanização. Entre os fatores apontados estão uso de fertilizantes e agrotóxicos e lançamento inadequado de esgoto sem tratamento.
Essas condições também importam porque os mananciais da região estão relacionados ao abastecimento de água, à irrigação e à piscicultura. A deterioração da qualidade hídrica pode afetar a biodiversidade e o equilíbrio do ecossistema, além de ampliar possibilidades de exposição a contaminantes por diferentes vias.
“Os dados demonstram sinais mensuráveis de pressão ambiental que, se mantidos ao longo do tempo, podem comprometer a integridade ecológica dos rios e aumentar a possibilidade de exposição humana a contaminantes por diferentes vias”, afirmou Lilian, ao defender monitoramento contínuo e manejo preventivo.
O trabalho recebeu fomento da Fundação Araucária e bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para o desenvolvimento da metodologia.
Conservação do solo integra resposta no Paraná
No Paraná, as ações de proteção hídrica no meio rural incluem o Programa Estadual de Segurança Hídrica na Agricultura, estruturado a partir de legislação aprovada em 2024. A iniciativa reúne medidas de manejo e conservação do solo, destinação adequada de dejetos animais, proteção de Áreas de Preservação Permanente, irrigação eficiente e saneamento rural.
A execução envolve órgãos estaduais ligados à agricultura e prevê apoio financeiro aos produtores para adoção dessas práticas. O planejamento informado pelo Estado começa pela região do Arenito e prevê expansão posterior para bacias de abastecimento público em parceria com a Sanepar.
Em agosto deste ano, o Banco Mundial anunciou apoio ao Projeto de Segurança Hídrica do Paraná, com empréstimo de US$ 186 milhões. O projeto prevê ações de segurança hídrica, saneamento e resiliência da agricultura, além de assistência técnica e apoio à adoção de práticas de conservação do solo e da água.
Entre as metas informadas pelo Banco Mundial estão práticas sustentáveis de manejo do solo em mais de 130 mil hectares, recuperação de 10.690 hectares de Áreas de Preservação Permanente e apoio a cerca de 9.200 agricultores. A frente agrícola inclui planos para propriedades e subvenções destinadas a agricultores familiares.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

