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Mercado náutico brasileiro cresce 14,4% em 3 anos, consumidores avançam para barcos maiores e estaleiros mudam projetos enquanto iates de até 30 metros ganham espaço
Escrito por Carla Teles
Publicado em 04/10/2026 às 22:39
Atualizado em 04/10/2026 às 22:40
Indústria Naval
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Mercado náutico cresce no Brasil, consumidores migram para barcos maiores e estaleiros redesenham projetos enquanto iates de até 30 metros ganham espaço no país hoje.
O mercado náutico brasileiro passa por uma mudança que vai além do aumento no número de embarcações. Entre 2020 e 2023, os registros válidos de barcos de esporte e recreio passaram de aproximadamente 560 mil para mais de 641 mil, crescimento de 14,4%, enquanto fabricantes observam clientes migrando para embarcações maiores, mais equipadas e com áreas sociais ampliadas.
As informações foram publicadas pela Forbes Brasil em 1º de outubro de 2026, após o São Paulo Boat Show. A edição reforçou uma tendência identificada pelos estaleiros: modelos menores perderam parte do ritmo, enquanto barcos maiores mantêm procura e levam fabricantes a redesenhar interiores, conveses e espaços de convivência para acompanhar o modo como o brasileiro utiliza a embarcação.
Mercado náutico cresce 14,4% em três anos
Os dados da Marinha mostram a dimensão da expansão. O Brasil tinha aproximadamente 560 mil embarcações de esporte e recreio com registros válidos em 2020 e ultrapassou 641 mil em 2023. O avanço de 14,4% em apenas três anos amplia a base de consumidores e ajuda a sustentar uma cadeia que inclui estaleiros, fornecedores, motores e serviços.
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Mas o crescimento do mercado náutico não acontece de maneira uniforme em todas as categorias. Márcio Schaefer, CEO da Schaefer Yachts, indicou à Forbes que os barcos de maior porte permanecem fortes, enquanto embarcações menores perderam algum ritmo. Na fabricante, 86 unidades foram entregues no ano passado e pouco mais de 70 são previstas para 2026, porém com barcos maiores e de maior valor.
São Paulo Boat Show expõe mudança no tamanho dos barcos
A transformação apareceu diretamente no São Paulo Boat Show de 2026. O evento reuniu mais de 160 embarcações e mais de 30 lançamentos no São Paulo Expo. Antes da abertura, mais de 40 modelos estavam concentrados entre 30 e 40 pés, faixa que correspondia a aproximadamente 30% das unidades contabilizadas.
Entre os destaques estavam embarcações de dimensões bem superiores. A Intermarine 25M chega a 25,15 metros e oferece um flybridge de 50 m², jacuzzi, bar panorâmico e capacidade para até 26 pessoas. A Schaefer 660 mede 20,08 metros, enquanto modelos como NX62, Ventura V550 Crossover e Solara 500 Fly também reforçaram a presença dos barcos maiores.
O tamanho, porém, deixou de ser o único parâmetro de evolução. Os fabricantes estão convertendo áreas antes destinadas basicamente à circulação em ambientes para refeições, permanência e convivência, fazendo com que o aumento do casco seja acompanhado por uma mudança na arquitetura interna.
Estaleiros adaptam projetos ao jeito brasileiro de navegar
O comportamento do consumidor brasileiro também começou a interferir diretamente no desenho das embarcações. Segundo a Forbes, fabricantes perceberam que o cliente nacional tende a usar o barco como espaço social, reunindo familiares e amigos e circulando frequentemente entre ambientes internos, convés e água.
Um exemplo aparece na Azimut Fly 58, produzida em Itajaí, em Santa Catarina. O barco de 17,8 metros recebeu uma solução desenvolvida para o público brasileiro: a cozinha foi integrada à praça de popa, unindo preparação de alimentos, convivência e lazer em um mesmo ambiente.
A Schaefer também leva essa leitura para projetos maiores. Um barco de 26 metros da fabricante já tinha três unidades comercializadas, duas destinadas ao Brasil e uma aos Estados Unidos. Os primeiros testes estavam previstos para janeiro, com lançamento na água esperado para abril de 2027.
Para os estaleiros, vender mais metros de casco já não é suficiente: a disposição dos ambientes precisa acompanhar a maneira como o proprietário pretende passar o dia a bordo.
Mais espaço também chega às embarcações menores
A valorização das áreas de convivência não ficou limitada aos grandes iates. A Fibrafort apresentou a Focker 288 GTS Explorer, de 8,62 metros, projetada para receber até 13 passageiros.
A embarcação inclui sofá em formato de C na proa, plataforma traseira de 1,50 metro, sofá em L no cockpit, bancos rebatíveis, camarim com banheiro e espaços adicionais para armazenamento. A proposta segue uma tendência de aproveitar maior parcela do barco para permanência durante o dia.
A resposta comercial ocorreu durante o próprio salão. Com preço inicial de R$ 810 mil, cinco unidades foram negociadas no evento, movimentando mais de R$ 4 milhões somente com esse lançamento.
O resultado mostra que a transformação do mercado náutico não depende exclusivamente de megaiates. O conceito de mais áreas abertas, conforto e convivência também está sendo aplicado em embarcações de dimensões menores.
Iate de quase 30 metros muda até logística do Boat Show
O aumento das dimensões chegou a criar um problema prático para os eventos náuticos. O Grande 30 Metri, da Azimut, não foi levado fisicamente ao São Paulo Boat Show porque ainda estava em construção em Santa Catarina.
Em vez do barco completo, a fabricante transportou para São Paulo uma reprodução em tamanho real de seu flybridge. O mockup tinha seis metros de altura, pesava 7,5 toneladas e reproduzia os 105 m² do convés superior do megaiate de quase 30 metros.
O modelo será fabricado em Itajaí, na única fábrica própria da Azimut fora da Itália. A unidade faz parte de um ciclo de R$ 120 milhões em investimentos até 2028, segundo a Forbes.
A situação simboliza a mudança de escala enfrentada pelos estaleiros: algumas embarcações já são grandes demais para serem transportadas facilmente até salões fechados, obrigando as marcas a encontrar novas maneiras de apresentá-las aos clientes.
Brasil produz cerca de 5 mil barcos de lazer por ano
A ampliação do mercado náutico também repercute sobre fornecedores e empregos. O Brasil fabrica aproximadamente 5 mil barcos de lazer por ano e a cadeia reúne cerca de 150 mil postos de trabalho diretos e indiretos.
No primeiro semestre de 2026, as importações relacionadas à construção de embarcações de esporte e recreio chegaram a US$ 75,6 milhões, ante US$ 61,5 milhões no mesmo período anterior, aumento de 23%. Motores, sistemas elétricos, radares, estabilizadores, resinas e móveis estão entre os componentes envolvidos nessa cadeia.
Quanto maiores e mais sofisticados ficam os barcos, maior tende a ser a quantidade de sistemas e equipamentos envolvidos na fabricação. A mudança de preferência do consumidor, portanto, afeta não apenas os estaleiros, mas uma rede mais ampla de fornecedores.
Barco deixa de ser apenas meio de navegação
A mudança mais importante talvez esteja naquilo que passou a definir um lançamento. Potência e comprimento continuam relevantes, mas agora dividem atenção com tamanho do flybridge, abertura das laterais, integração da cozinha e capacidade de reunir pessoas em diferentes áreas.
O próprio Boat Show acompanha essa evolução. Em 2025, o evento teve 120 marcas, 170 embarcações, 40 mil visitantes e 750 barcos negociados, volume 7,14% superior ao da edição anterior. Segundo o fundador do Grupo Náutica, Ernani Paciornik, o salão representa aproximadamente 80% do movimento do setor no país.
O consumidor que entra no mercado por um barco menor está avançando de categoria e levando os estaleiros a repensar produtos inteiros. Mais espaço, equipamentos e ambientes de convivência passaram a pesar ao lado do tamanho e da potência.
Com crescimento de 14,4% nos registros em três anos, produção anual próxima de 5 mil barcos de lazer e iates chegando à faixa de 30 metros, o mercado náutico brasileiro entra em uma fase na qual crescer significa também mudar o desenho das embarcações.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

