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Há 69 anos, 26 colônias de abelhas africanas escaparam de experimento em SP, cruzaram com espécies europeias e seus descendentes avançaram pelas Américas até os EUA
Escrito por Viviane Alves
Publicado em 05/10/2026 às 21:19
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Experimento iniciado para melhorar a apicultura brasileira perdeu o controle em Rio Claro e desencadeou uma expansão que atravessou o continente durante décadas.
Em 1957, uma área experimental em Rio Claro, no interior de São Paulo, tornou-se o ponto de partida de uma transformação na apicultura das Américas. Enxames de 26 colônias de abelhas africanas deixaram o apiário depois que telas instaladas para impedir a saída das rainhas foram retiradas sem o conhecimento dos responsáveis.
O episódio ganhou proporções muito maiores porque essas abelhas encontraram populações europeias de Apis mellifera já estabelecidas no Brasil. Os cruzamentos naturais deram origem às chamadas abelhas africanizadas, que encontraram condições favoráveis no clima tropical e começaram a ocupar novos territórios.
Nas décadas seguintes, seus descendentes avançaram pela América do Sul, atravessaram a América Central e alcançaram os Estados Unidos. Uma história que começou com um experimento científico no interior paulista havia adquirido dimensão continental.
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Warwick Kerr foi à África em 1956 em busca de abelhas capazes de produzir melhor nas condições tropicais brasileiras
A origem do experimento estava em um problema enfrentado pela apicultura brasileira na década de 1950. As abelhas europeias existentes no país nem sempre apresentavam o desempenho esperado diante das condições encontradas em regiões tropicais.
Foi nesse cenário que o geneticista brasileiro Warwick Estevam Kerr começou a procurar uma alternativa. Entre agosto e dezembro de 1956, ele percorreu regiões africanas em busca de abelhas com características consideradas interessantes para o Brasil.
O objetivo era estudar linhagens mais adaptadas ao calor e com potencial para aumentar a produção de mel. Dezenas de rainhas sobreviveram ao transporte e à adaptação e seguiram para os experimentos realizados no interior paulista.
Ali, pesquisadores pretendiam promover cruzamentos controlados, selecionar características consideradas vantajosas e acompanhar o comportamento das novas populações. O projeto dependia, porém, de manter a reprodução sob controle.
Telas instaladas nas colmeias deveriam impedir justamente a fuga que aconteceu em 1957
As colmeias utilizadas no experimento possuíam telas excluidoras instaladas nas entradas. A estrutura funcionava como uma barreira seletiva: as operárias conseguiam passar, enquanto as rainhas, maiores, permaneciam dentro das caixas.
Dessa maneira, os pesquisadores podiam controlar melhor a reprodução e impedir que as rainhas abandonassem o apiário. Em 1957, no entanto, essas telas foram retiradas sem o conhecimento dos responsáveis pelo experimento.
Quando a situação foi percebida, enxames de 26 colônias já haviam deixado o local e se estabelecido no ambiente. Décadas depois, o próprio Warwick Kerr resumiria o episódio dizendo que 26 rainhas haviam escapado por erros de manejo.
A partir daquele momento, aquilo que deveria permanecer restrito ao apiário passou a acontecer livremente no ambiente.
Abelhas africanas encontraram linhagens europeias e deram origem às populações africanizadas
As abelhas que escaparam não encontraram um território sem outras populações da espécie. Abelhas Apis mellifera de origem europeia estavam estabelecidas no Brasil havia décadas e passaram a cruzar naturalmente com descendentes das linhagens africanas.
Entre 1957 e 1964, segundo relato de Kerr, ocorreram cruzamentos com abelhas de origem alemã, italiana e portuguesa. Desse processo de hibridização surgiram as populações que ficariam conhecidas como abelhas africanizadas.
Essas abelhas reuniam forte contribuição genética da Apis mellifera scutellata, de origem africana, com características das linhagens europeias anteriormente introduzidas no país. O ambiente tropical também favoreceu sua sobrevivência, reprodução e dispersão.
A capacidade de adaptação, portanto, ajudou essas populações a ocupar rapidamente novos territórios e preparou o caminho para uma expansão muito além das fronteiras brasileiras.
Expansão começou no Brasil, atravessou as Américas e alcançou o Texas em 1990
As populações africanizadas começaram a avançar por diferentes regiões brasileiras e, posteriormente, chegaram a outros países da América do Sul. A expansão continuou em direção à América Central e, depois, à América do Norte.
Em poucas décadas, descendentes daquele processo iniciado no Brasil estavam estabelecidos do centro da Argentina ao sul dos Estados Unidos. Em algumas regiões, o deslocamento alcançou centenas de quilômetros por ano.
Em 1990, mais de três décadas depois da fuga ocorrida em Rio Claro, as abelhas africanizadas chegaram ao Texas. Posteriormente, também foram registradas no Arizona, Novo México, Califórnia e Nevada.
A velocidade dessa expansão estava relacionada à adaptação ambiental, à capacidade reprodutiva e ao comportamento de dispersão. O avanço perdeu força somente quando as populações alcançaram regiões com condições climáticas menos favoráveis.
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Viviane Alves
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Comportamento mais defensivo ajudou a criar a fama das chamadas “abelhas assassinas”
A expansão continental trouxe outra característica para o centro das atenções. As abelhas africanizadas apresentam comportamento defensivo mais intenso do que muitas linhagens europeias, podendo reagir rapidamente quando uma colônia percebe uma ameaça.
Essa característica contribuiu para popularizar a expressão “abelhas assassinas”, especialmente na imprensa e na cultura popular. O apelido ganhou ainda mais força quando a expansão começou a se aproximar dos Estados Unidos.
A realidade, contudo, é diferente da imagem sugerida pelo termo. As africanizadas não perseguem seres humanos deliberadamente. A diferença está principalmente na reação defensiva da colônia, que pode mobilizar um número maior de indivíduos diante de uma perturbação.
Essa característica representou um desafio principalmente durante os primeiros anos de expansão. Para os apicultores brasileiros, significou também a necessidade de mudar práticas que haviam sido desenvolvidas para populações europeias.
Apicultores mudaram técnicas de manejo e africanizadas ganharam espaço na produção brasileira
A localização dos apiários, os equipamentos de proteção e diferentes etapas do manejo precisaram ser adaptados. Warwick Kerr relatou que muitos apiários ficavam próximos a galinheiros, pocilgas e cocheiras, situação que aumentava os riscos diante da maior defensividade das novas populações.
Pesquisadores e produtores passaram, então, a desenvolver outras maneiras de trabalhar com os enxames. Com o passar das décadas, técnicas específicas de manejo foram aperfeiçoadas e as africanizadas se incorporaram à realidade da apicultura brasileira.
A história dessas abelhas, porém, não ficou limitada à defensividade. Adaptação ao clima tropical, capacidade de buscar alimento e produtividade também se mostraram características importantes para a atividade apícola.
Com técnicas adequadas de manejo, as populações africanizadas passaram a ocupar papel central na apicultura do país. Assim, um experimento iniciado para buscar abelhas mais adaptadas ao Brasil terminou provocando uma transformação que ultrapassou o apiário de Rio Claro e atravessou as Américas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Viviane Alves.

