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Terras raras e gálio aparecem em análises no interior de Minas: amostra de solo revelam minerais críticos essenciais para fabricação de ímãs usados em motores elétricos e outras tecnologias
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 27/10/2026 às 09:31
Atualizado em 27/10/2026 às 09:35
Mineração
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Uma amostra de solo no Vale do Jequitinhonha apresentou 1,54% de óxidos de terras raras, enquanto uma rocha de outra área revelou gálio. Entenda por que os achados chamam atenção e o que falta comprovar antes de falar em mina.
Uma amostra de solo retirada de uma encosta em Minas Gerais trouxe um resultado que chamou atenção: uma das amostras apresentou 1,54% de óxidos de terras raras, materiais associados à fabricação de ímãs usados em motores elétricos e outras tecnologias. A quilômetros dali, uma amostra de rocha também revelou gálio, elemento importante para componentes eletrônicos. A novidade não é a abertura de uma mina, mas a descoberta de sinais que podem indicar onde vale a pena investigar o subsolo com mais cuidado.
Os resultados foram divulgados em 23 de outubro de 2026 pela canadense Spark Energy Minerals, responsável pelo projeto Arapaima, no Vale do Jequitinhonha. A empresa examinou amostras de solo, rocha e sedimentos de cursos d’água em diferentes áreas. Boa Vista concentrou o destaque pelas terras raras; Encachoeirado apareceu como um novo alvo de pesquisa pelo conjunto de indícios de gálio e outros elementos. Os dois números mais chamativos vieram de amostras diferentes, em locais diferentes.
Uma pequena amostra de terra mostrou o resultado que chamou atenção
Em Boa Vista, a equipe coletou solos em encostas e acessos onde parte das camadas de cobertura já foi removida pela erosão ou por cortes de estrada. Uma amostra de material formado pelo desgaste do granito, identificada pelos geólogos como ARA-SL-219, apresentou 15.434 partes por milhão de óxidos de terras raras. Traduzido para uma medida mais familiar, isso representa os 1,54% divulgados pela mineradora.
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Esse número é o resultado daquela porção específica de solo. Não significa que 1,54% de toda a área explorada seja formado por terras raras, nem que esse percentual possa ser recuperado industrialmente. Outra amostra de solo, retirada do mesmo alvo, registrou 3.047 partes por milhão. Os resultados mostram diferenças importantes entre pontos de coleta, uma das razões para ser necessário continuar a investigação.
O levantamento incluiu 81 amostras de solo de Boa Vista. Destas, 40 ultrapassaram 500 partes por milhão de óxidos de terras raras, um limite usado pela própria companhia para organizar seus resultados de pesquisa. É um conjunto de dados mais amplo do que um achado isolado, mas ainda não responde à pergunta que define o futuro de qualquer projeto mineral: qual é a extensão real do material, quanto existe dele e se sua retirada seria tecnicamente e economicamente viável?
Uma estrada e o desgaste das rochas ajudaram a revelar o que estava escondido
O detalhe mais curioso pode estar na própria paisagem. Os geólogos observaram que a camada superficial enriquecida em gálio aparece sobre outra zona, com terras raras, nos pontos já perfurados de Boa Vista. Nas cinco sondagens anunciadas anteriormente, essa segunda zona começou entre 20 e 32 metros de profundidade. Nas encostas e nos cortes de estrada, porém, a cobertura superior pode ter sido retirada ao longo do tempo, deixando materiais de interesse mais perto da superfície.
É como observar as camadas de um terreno depois de um barranco ser aberto: o que antes estava escondido passa a aparecer, mas isso não significa que a mesma composição se repita por quilômetros. A empresa interpreta os resultados de solo como pistas de que a faixa encontrada pelas sondagens também alcança a superfície em partes do relevo.
Essa interpretação ainda precisa ser testada. Em Cruzeta, outro alvo do projeto, análises anteriores de uma rocha exposta em corte de estrada haviam registrado pelo menos 2% de óxidos de terras raras em uma amostra pontual. Os novos dados de Boa Vista ajudam a comparar os dois lugares, separados por aproximadamente sete a oito quilômetros, e a decidir onde abrir os próximos furos de pesquisa.
O gálio apareceu em outro lugar, misturado aos sinais de uma rocha
O segundo achado que despertou curiosidade vem de Encachoeirado, um alvo ainda sem sondagens. Ali, a equipe recolheu materiais de cursos d’água, solos e fragmentos de rocha para descobrir quais áreas merecem uma investigação mais profunda. Entre 29 amostras de uma série de fragmentos, uma rocha com minerais como biotita apresentou 137,1 gramas por tonelada de óxido de gálio, além de concentrações mensuráveis de terras raras e indícios de lítio e nióbio.
Esse resultado não deve ser somado ao percentual de terras raras encontrado em Boa Vista, pois são amostras diferentes e unidades diferentes. Também não significa que exista uma reserva de gálio de 137,1 gramas por tonelada pronta para exploração. Segundo a interpretação apresentada pela própria Spark, o gálio daquela rocha parece estar associado a minerais de mica, uma característica geológica distinta daquela observada em camadas de solo de outros alvos.
Os sedimentos coletados nos cursos d’água acrescentaram sinais, mas também dúvidas. Seis entre 65 amostras de sedimentos ultrapassaram 500 partes por milhão de óxidos de terras raras. A água pode carregar partículas de outros pontos do terreno, de modo que encontrar um valor elevado num leito não revela automaticamente onde está sua origem. Será necessário seguir os cursos d’água, coletar mais amostras e examinar as formações rochosas.
Por que tanta gente está de olho nesses minerais em Minas Gerais?
Por trás de nomes pouco familiares ao leitor está uma disputa industrial bastante concreta. Terras raras são um conjunto de 17 elementos utilizados em diferentes tecnologias. Alguns, como neodímio e praseodímio, participam da fabricação de ímãs de alto desempenho empregados em motores elétricos, equipamentos industriais e turbinas eólicas. Outros têm aplicações em eletrônicos, iluminação e sistemas especializados.
O gálio pertence a outra categoria: não é uma terra rara. Seu interesse está, entre outras aplicações, em materiais usados na indústria de semicondutores e em componentes eletrônicos. A Agência Internacional de Energia aponta que esses minerais ganharam importância porque suas cadeias de fornecimento e processamento estão concentradas em poucos países. O desafio para o Brasil não é apenas encontrar material no solo, mas aprender a separá-lo, purificá-lo e transformá-lo em produtos de maior valor.
O projeto Arapaima ocupa aproximadamente 91,9 mil hectares distribuídos por municípios da região mineira conhecida como Vale do Lítio. Esse número representa a área do empreendimento de pesquisa, não o tamanho de uma jazida confirmada. Boa Vista, Cruzeta e Encachoeirado são pontos investigados dentro desse território, com níveis diferentes de conhecimento geológico.
O que falta para essas pistas virarem uma mina de verdade?
A resposta envolve muito mais do que uma análise de laboratório. Os resultados até agora vieram de amostras recolhidas em locais escolhidos para a investigação, de sedimentos e de algumas sondagens anteriores em Boa Vista. Para avançar, será necessário verificar se os valores se repetem, se o material forma uma zona contínua, qual é sua espessura e quanto seria possível recuperar depois do processamento.
A Spark informou que pretende fazer novas coletas de solo em intervalos menores, ampliar as sondagens em Boa Vista e abrir trincheiras e canais de amostragem em Encachoeirado. O plano depende de financiamento, condições de campo, permissões e autorizações. Encachoeirado, apesar do resultado da rocha, ainda não havia sido perfurado na data do comunicado.
Há uma limitação decisiva: a empresa informou que não apresentou estimativa de recurso mineral ou reserva para o projeto e que os resultados divulgados não demonstram recuperação metalúrgica dos elementos. Em linguagem simples, ainda não se sabe quanto desse material poderia virar produto comercial depois da extração e do processamento. Não há base para anunciar riqueza bilionária, uma mina em funcionamento ou prazo para começar a produzir.
O próximo passo pode dizer mais do que o número impressionante da primeira amostra
O achado mais relevante de outubro talvez não seja apenas o 1,54% escrito no resultado de laboratório. É a possibilidade de os geólogos terem identificado onde uma faixa de terras raras fica exposta na superfície, o que permite planejar novas perfurações de maneira mais direcionada. Já Encachoeirado abre outra pergunta: o gálio encontrado naquela rocha se repete por uma área maior ou foi apenas uma ocorrência localizada?
O Vale do Jequitinhonha é o lugar de uma investigação ainda em construção, não de uma nova mina anunciada. Se as próximas etapas confirmarem continuidade, volume e possibilidade de aproveitamento, o projeto poderá avançar. Se não confirmarem, o resultado continuará sendo uma informação geológica útil, mas sem o peso econômico sugerido por manchetes exageradas.
Você já sabia que a busca pelos materiais de motores elétricos e componentes eletrônicos pode começar com uma simples amostra de terra? Compartilhe esta reportagem e acompanhe os próximos resultados de pesquisa no interior de Minas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

