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Uma manga pode conter urânio? Estudo na Bahia analisa frutas cultivadas em terrenos perto de áreas mineradoras e encontra mineral em baixas concentrações
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 27/10/2026 às 08:43
Atualizado em 27/10/2026 às 08:45
Mineração
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Pesquisa realizada na Bahia identificou urânio natural em mangas cultivadas perto de áreas mineradoras, mas os níveis medidos foram muito baixos. Entenda como o elemento chega às frutas e o que o estudo diz sobre o consumo.
Uma manga colhida no interior da Bahia pode conter vestígios de urânio? Sim. Foi exatamente isso que pesquisadores identificaram ao analisar frutas de uma região conhecida pela presença natural do mineral. A descoberta, porém, vem acompanhada de uma conclusão fundamental para quem leva o alimento à mesa: as concentrações encontradas foram extremamente baixas e não indicaram exposição significativa associada ao consumo das amostras estudadas. Saber que existe urânio na fruta não é a mesma coisa que descobrir que ela oferece perigo.
O trabalho foi desenvolvido pelo Instituto Federal Baiano, no campus Guanambi, e divulgado em 23 de outubro de 2026 pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB). A escolha da manga não foi aleatória: ela é cultivada e consumida na região de Caetité, no sudoeste baiano, onde a Província Uranífera de Lagoa Real guarda ocorrências do elemento em suas rochas e solos. Era uma maneira de responder a uma dúvida cotidiana por meio de medições, e não de suposições.
O laboratório encontrou urânio nas mangas, mas em que quantidade?
O estudante de Química Caio Vitor Santos Batista Lopes, responsável pelo estudo, analisou frutas de locais com diferentes características. Havia mangas de áreas onde o urânio ocorre naturalmente nas rochas, de pontos próximos à unidade de concentração de urânio em Caetité e de áreas de controle afastadas dessas zonas. Essa comparação permite examinar se existem diferenças entre lugares marcados pela geologia local e aqueles situados perto de uma instalação industrial.
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Para procurar o elemento na fruta, a equipe usou uma técnica de laboratório chamada espectrometria de massa com plasma indutivamente acoplado. Ela é capaz de detectar quantidades minúsculas de substâncias, inclusive na escala de partes por bilhão. E é precisamente aí que começa o cuidado que falta em muitas manchetes: um equipamento muito sensível pode registrar um traço quase imperceptível de um elemento, mas detectar não significa demonstrar uma concentração perigosa.
Os valores comunicados ficaram entre 0,0003 e 0,0013 miligrama de urânio por quilograma de manga. A pesquisa também apresentou o intervalo de 0,0088 a 0,0334 becquerel por quilograma. São duas unidades distintas: miligrama expressa a massa do elemento, enquanto becquerel expressa atividade radioativa. Os resultados descrevem quantidades muito pequenas, que só podem ser interpretadas corretamente quando comparadas com referências de exposição.
Imagine dividir um grama em mil partes iguais. Cada uma seria um miligrama. Nas amostras de manga, o que se encontrou foi uma fração ainda muito menor desse miligrama para cada quilo de fruta. A informação é importante não para substituir a avaliação dos pesquisadores por uma conta doméstica, mas para mostrar a escala do que foi medido.
Por que uma fruta pode absorver um elemento associado à mineração?
O urânio faz parte da natureza. Antes mesmo da instalação de qualquer mina, ele já podia estar presente em determinados terrenos por causa da formação geológica das rochas. Em Lagoa Real, a ocorrência do mineral nas formações geológicas é conhecida há décadas. As plantas crescem retirando água e nutrientes do ambiente e podem, dependendo da espécie e das condições locais, incorporar vestígios de outros elementos.
A Organização Mundial da Saúde explica que elementos radioativos de ocorrência natural estão espalhados em baixas concentrações na crosta terrestre e podem passar das rochas e dos solos para a água e os alimentos. Essa informação não significa que toda comida contenha a mesma quantidade de urânio, nem que atividades humanas nunca interfiram na exposição. Significa que encontrar um elemento químico em um alimento não prova, isoladamente, a existência de um vazamento ou de contaminação industrial.
Esse detalhe é essencial em Caetité. A região reúne terrenos ricos em urânio, agricultores e uma instalação ligada ao beneficiamento do mineral. O estudo comparou grupos de locais justamente para investigar essas diferenças. No entanto, o material divulgado não apresenta uma tabela completa de resultados individuais por ponto de coleta. Por isso, não seria correto atribuir os vestígios encontrados nas mangas à operação da mina — e tampouco usar a pesquisa para afirmar que qualquer impacto ambiental na região está descartado.
O que o resultado significa para quem come manga?
A pergunta decisiva não é apenas se o laboratório consegue identificar um elemento, mas quanto dele uma pessoa poderia ingerir e o que essa quantidade representa. No caso das mangas, não existe um limite específico de urânio estabelecido para essa fruta. Os pesquisadores recorreram a referências internacionais de ingestão tolerável e avaliaram a exposição estimada mesmo considerando a maior concentração medida.
A avaliação divulgada apontou que a exposição calculada ficou muito abaixo dos parâmetros de referência utilizados na investigação. Segundo a divulgação do estudo, as mangas analisadas não indicaram exposição significativa associada ao consumo. A conclusão vale para aquelas amostras e para o método de avaliação empregado, sem equivaler a uma afirmação de risco zero para todo alimento, propriedade rural ou período do ano.
O nome do urânio costuma provocar preocupação porque está associado à energia nuclear e à radiação. Mas o risco depende da quantidade ingerida, da frequência e das características da exposição. A OMS observa que a presença de radionuclídeos naturais em alimentos e água não é incomum; a avaliação adequada considera concentração e hábitos de consumo. Uma manchete que mostre apenas a palavra urânio, sem os números e sem o resultado da pesquisa, deixaria o leitor com a impressão oposta à descoberta científica.
O estudo também ajuda a entender a vida perto de áreas mineradoras
Para quem mora em uma região onde mineração e agricultura dividem a paisagem, saber o que existe no solo e nos alimentos é uma preocupação legítima. Análises como essas oferecem informações que podem ser verificadas, comparadas e ampliadas por outros pesquisadores. A resposta depende de saber quanto foi encontrado, onde foi feita a coleta e qual método foi utilizado.
A INB informou que colocou sua estrutura laboratorial e sua experiência de monitoramento à disposição da pesquisa do IF Baiano. A participação da empresa precisa ser conhecida pelo leitor, assim como os limites da investigação. Monitoramentos periódicos e estudos realizados em outros pontos e condições continuam úteis para compreender ambientes onde há ocorrência natural de urânio e atividade industrial.
Também é importante não confundir esta pesquisa agrícola com a análise de qualquer ocorrência operacional em uma unidade de mineração. A divulgação do estudo não atribuiu a presença do elemento nas mangas a um incidente específico; descreveu um trabalho de comparação de áreas e medição de concentrações em frutas.
Então, é preciso ter medo de comer manga da região?
Os dados divulgados não oferecem motivo para transformar as mangas examinadas em símbolo de perigo. O estudo encontrou vestígios naturais de urânio, mas as quantidades foram baixíssimas e a exposição estimada ficou abaixo das referências internacionais consideradas. Isso responde à dúvida central sem exagerar a notícia nem esconder o que o laboratório efetivamente observou.
A lição vai além da fruta: quando uma análise identifica algo que parece assustador em um alimento, o passo seguinte não deve ser o pânico. É preciso entender a quantidade, a origem provável, a forma de exposição e a interpretação científica. É essa diferença entre detectar e avaliar que a investigação de Lagoa Real ajuda a mostrar.
Você sabia que elementos naturais das rochas e dos solos podem ser identificados em alimentos? Compartilhe esta reportagem com quem gostaria de entender por que detecção e risco não são sinônimos.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

