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Esta cidade canadense de 500 moradores está em cima de uma jazida de ouro, e a mineradora diz que, se a mina a céu aberto sair, vai precisar comprar as cerca de 250 casas e tirar todo mundo de lá
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 06/11/2026 às 15:04
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Em janeiro, mãe e filha pagaram C$ 50 mil por casa e terreno ali; em setembro, o chefe da Cadillac Mines falou a investidores nas 250 casas e em mudar a cidade inteira, e a decisão só deve ficar mais clara em meados de 2027
Virginiatown, no nordeste de Ontário, tem cerca de 500 moradores e ouro debaixo das casas. Para abrir ali uma mina a céu aberto, a Cadillac Mines diz que ofereceria comprar cerca de 250 casas, relatou a CBC em 6 de novembro.
A empresa é dona da antiga mina local. A cava estudada ocuparia a maior parte da cidade.
A frase que revoltou o lugar foi dita a investidores, não aos moradores. “São cerca de 250 casas, 500 pessoas”, afirmou Rick Howes, CEO da Cadillac Mines, em 29 de setembro. Foi assim que a população soube do plano da mina de ouro, contou a CBC.
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Ele seguiu no mesmo tom. Disse que a cidade está ladeira abaixo desde o fechamento da mina, em 1996, e que restam poucos serviços. “Não há muita oposição enquanto conversamos com a comunidade sobre mudar a cidade”, completou, em fala reproduzida pela emissora canadense.
Em 28 de outubro, cerca de metade dos moradores foi à reunião. “Estão tentando nos expulsar das nossas casas”, disse Jennifer Tweedy, recém-chegada à cidade, na mesma reportagem.
Leon Leblanc, presidente e diretor de operações da empresa, foi lá pedir desculpas pelas falas do CEO: “Foram, eu acho, de mau gosto, e nos arrependemos”, disse à CBC.
O pedido não encolheu o plano. Se a mina de ouro andar, afirmou ele, será preciso comprar todas as casas e reassentar todo mundo, informou a CBC.
Quanto pagou quem comprou casa em Virginiatown meses antes do anúncio?
Caitlin McAllister e a mãe, Pat Stephens, chegaram em janeiro, vindas de Grey County, no sudoeste de Ontário. Venderam a casa antiga e compraram outra, com o terreno vizinho, por C$ 50 mil.
A diferença de preço entre os dois imóveis ajudaria a pagar os estudos de McAllister, que quer ser veterinária. “Foi um dos lugares mais baratos da província que olhamos para morar”, contou ela à CBC.
Depois vieram mais C$ 20 mil em reformas. Agora, Stephens quer garantia de sair com o que tem hoje, um imóvel sem hipoteca. Mais tarde, citou C$ 300 mil como valor razoável se tiver de ir para um lugar com moradia mais cara.
A tabela converte esses valores pela Ptax de venda do dólar canadense, do Banco Central, de 5 de novembro: R$ 3,9032 (conta nossa).
O valor citado por ela equivale a 4,3 vezes o que a família gastou (conta nossa). É o que a moradora considera justo, não uma oferta da empresa.
Steve Mallack, outro morador, diz que o mercado da cidade travou. Pelos dois anos que, nas contas dele, a empresa levará para decidir, não conseguirá vender. “A Cadillac Mines se tornou a única compradora possível de qualquer casa em Virginiatown”, afirmou à CBC.
Quanto ouro a Cadillac Mines diz haver embaixo de Virginiatown?
A antiga Kerr-Addison operou do fim dos anos 1930 até 1996. A empresa, que comprou o local em 2015, a apresenta como a 5ª maior mina individual de ouro da história do Canadá.
Pelo mesmo site, Kerr-Addison e Chesterville somaram mais de 11 milhões de onças entre 1938 e 1996. Dá cerca de 342 toneladas de ouro (conta nossa).
Quase tudo saiu de galerias subterrâneas. A ideia agora é uma mina a céu aberto, cavada de cima para baixo, e é aí que as 250 casas entram no caminho.
O relatório técnico publicado pela empresa, com data efetiva de fevereiro de 2026, calcula para o trecho a céu aberto 3,03 milhões de onças em recursos indicados. São perto de 94 toneladas (conta nossa).
Essas onças estão espalhadas em 74,3 milhões de toneladas de rocha, com 1,27 grama de ouro por tonelada. Com tão pouco metal em cada tonelada, a conta depende de mexer em muita pedra (leitura nossa).
Recurso não é reserva: o número mede o que pode ter viabilidade de extração, sem significar que a mina de ouro vá existir.
A mina de ouro vai mesmo sair ou tudo pode ficar no papel?
A mina pode nunca sair. Em 22 de outubro, a Radio-Canada informou que nenhum projeto oficial tinha sido apresentado, e eleitos locais diziam não haver pedido formal.
Uma carta pública assinada por Leblanc diz que a Cadillac Mines ainda avalia diferentes cenários. A resposta mais firme ficou para meados de 2027, segundo ele.
Para as 250 casas, Howes descreveu um caminho em duas etapas: primeiro, aquisições voluntárias; depois, a relocação, em um período de quatro a cinco anos, informou a CBC em 16 de outubro.
As metas falam em obra em 2030 e produção em 2033, sujeitas a estudos, licenças e financiamento. O Township of McGarry, município que inclui Virginiatown, contratou advogados.
A cidade também não fala com uma voz só. A emissora pública descreve três grupos: pragmáticos, céticos e irredutíveis. Há quem queira sair, e rumores de reabertura da mina circulam ali há décadas.
O que aconteceu em Malartic, a cidade do Quebec onde a mina de ouro mudou mais de 200 casas?
A comparação mais próxima fica na província vizinha. Em 2008, a Osisko Mining pagou para mover fisicamente mais de 200 casas e comércios em Malartic, abrindo espaço para uma mina de ouro a céu aberto, lembrou a CBC.
Ken Massé não quis vender. Depois de anos de disputa, um tribunal provincial decidiu a favor da empresa em 2010, e o imóvel acabou desapropriado. E se alguém em Virginiatown disser não?
Shane Rayman, advogado de Toronto especializado em desapropriação, disse à CBC que é raro o governo fazer isso em favor de uma empresa. Ele lembra um caso de 2005, quando o condado de Oxford desapropriou terras para a fábrica da Toyota em Woodstock.
Brent Doberstein, professor da Universidade de Waterloo que estuda deslocamento de populações, defende que a mineradora seja transparente, na mesma reportagem. Para ele, a conta não pode olhar só o valor do imóvel: o morador deve sair com qualidade de vida equivalente.
As próximas conversas têm data. De 10 de novembro a 15 de dezembro, a Cadillac Mines mantém um plantão de relações comunitárias, e cada uma das 250 casas segue com o mesmo problema: um dono que não sabe se fica.
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Virginiatown
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

