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Bilhete premiado de R$ 29 milhões desapareceu após falha na impressão em lotérica, ficou guardado no cofre, funcionária pediu demissão no dia seguinte e marido apareceu como vencedor, desencadeando investigação por suposto furto milionário
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 30/07/2026 às 00:19
Curiosidades
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Falha de impressão, bilhete guardado em cofre e pedido de demissão no dia seguinte formam a sequência central de um caso milionário em Sinop, que chegou ao Superior Tribunal de Justiça e colocou em disputa a posse do comprovante e a competência para julgar a acusação.
Uma ex-funcionária de uma casa lotérica de Sinop, em Mato Grosso, e o companheiro respondem a uma ação penal por suposto furto de um bilhete da Mega-Sena avaliado em R$ 29.058.128,28, retirado do cofre após uma falha de impressão.
Tudo começou em agosto de 2023, quando uma cliente registrou uma aposta e recebeu um comprovante defeituoso, situação que levou a atendente a imprimir outro bilhete com a mesma combinação e entregar a nova via normalmente à apostadora.
Sem o estorno do primeiro comprovante antes do sorteio, a aposta permaneceu válida, enquanto o documento com falha foi colocado no cofre da lotérica para aguardar recolhimento posterior, conforme o procedimento descrito nos autos analisados pelo Superior Tribunal de Justiça.
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Dois dias depois, segundo a investigação, uma câmera de segurança registrou a funcionária abrindo o cofre e retirando o bilhete, após a combinação ser contemplada no concurso que teve quatro apostas vencedoras, duas delas emitidas naquele mesmo estabelecimento.
Já no dia seguinte à retirada registrada pelas imagens, a trabalhadora compareceu à lotérica acompanhada do companheiro para pedir demissão, enquanto o homem se apresentou como um dos ganhadores do prêmio principal, despertando a desconfiança dos proprietários.
A sequência levou os responsáveis pelo estabelecimento a revisar as gravações internas e comunicar o episódio às autoridades, procedimento que abriu caminho para a apuração policial sobre o desaparecimento do comprovante guardado no cofre após o atendimento à cliente.
Com base nos elementos reunidos, o Ministério Público denunciou o casal por furto qualificado mediante abuso de confiança e concurso de pessoas, acusação que será examinada no processo e que, até uma decisão definitiva, não representa condenação dos envolvidos.
Bilhete da Mega-Sena ficou sob responsabilidade da lotérica
Embora apresentasse defeito de impressão, o comprovante continuou sob posse e vigilância da empresa porque não havia sido cancelado, circunstância que também fez o valor da aposta ser cobrado da própria lotérica pela Caixa Econômica Federal, segundo as regras mencionadas no processo.
Esse detalhe ganhou importância na discussão sobre qual ramo da Justiça deveria conduzir a ação penal, uma vez que a defesa alegou que o pagamento do prêmio pela Caixa, empresa pública federal, demonstraria interesse direto da União no episódio investigado.
Sob essa interpretação, os advogados sustentaram ainda que o bilhete funcionava como título ao portador e que a retirada teria sido apenas um meio para o posterior recebimento da quantia, motivo pelo qual solicitaram o envio do processo à Justiça Federal.
Ao analisar o pedido, o ministro Ribeiro Dantas, do Superior Tribunal de Justiça, rejeitou a argumentação e manteve o caso na Justiça Estadual, considerando que a vítima direta da suposta retirada seria a lotérica privada responsável pelo documento naquele momento.
Para o relator, o ponto determinante não está apenas em quem pagaria o prêmio, mas em quem mantinha a posse do comprovante quando ele teria sido retirado do cofre, dentro de um estabelecimento privado e sem autorização dos responsáveis.
STJ mantém investigação do bilhete premiado na Justiça Estadual
Na decisão divulgada em 13 de julho de 2026, Ribeiro Dantas afirmou que o crime de furto protege a posse e a propriedade, destacando que o comprovante entrou na esfera patrimonial da lotérica porque o estorno não ocorreu antes do sorteio.
Ainda conforme o entendimento do ministro, a responsabilidade da Caixa pelo pagamento do prêmio não modifica a competência para julgar o caso, pois um eventual saque seria consequência posterior, enquanto a suposta inversão da posse teria acontecido dentro da lotérica.
Como forma de explicar a situação, o STJ comparou o episódio ao furto de um cheque ao portador, hipótese em que a vítima é quem mantinha a posse do documento, e não a instituição financeira responsável por cumprir posteriormente a obrigação de pagamento.
Outro fundamento mencionado foi o entendimento de que o furto se consuma quando ocorre a inversão da posse, ainda que durante pouco tempo e sem domínio tranquilo do bem, princípio conhecido como teoria da amotio e consolidado na Súmula 582 do tribunal.
A partir dessa interpretação, o foco da ação penal permanece na retirada do comprovante e nas circunstâncias em que o bilhete deixou o cofre, sem que a participação da Caixa no pagamento do prêmio transfira automaticamente o processo para a esfera federal.
Disputa civil sobre o prêmio não suspende a ação penal
Além de questionar a competência, a defesa pediu a suspensão do processo criminal até que uma ação civil definisse a validade e a titularidade do bilhete, alegando que eventual reconhecimento do prêmio em favor do casal poderia afastar a acusação de furto.
Ribeiro Dantas, contudo, negou a solicitação por entender que a disputa civil sobre o proprietário definitivo da quantia não altera a análise da conduta descrita na denúncia, já que o comprovante permanecia sob vigilância da lotérica quando teria sido retirado.
Com a manutenção desse entendimento, a ação penal seguirá na Justiça Estadual, onde deverão ser examinadas as imagens de segurança, as provas reunidas durante a investigação, a denúncia apresentada pelo Ministério Público e os argumentos formulados pela defesa dos acusados.
Como o caso tramita sob segredo judicial, o número do processo não foi divulgado, e a apuração continua concentrada na retirada do documento, na responsabilidade da lotérica pelo bilhete não estornado e na identificação de quem exercia sua posse.
Até que haja uma decisão definitiva sobre a acusação e sobre a titularidade do prêmio, permanecerá a questão central do processo: as imagens registradas no estabelecimento e as versões apresentadas pelos envolvidos serão suficientes para esclarecer quem tinha direito ao bilhete milionário?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

