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Casal de agricultores no Havaí decidiu cultivar açaí nos Estados Unidos, plantou as primeiras sementes em 2008, enfrentou oito anos de espera até a colheita e desenvolveu um processo artesanal para transformar a fruta amazônica em bowls vendidos dentro da própria fazenda
Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 29/07/2026 às 20:18
Atualizado em 29/07/2026 às 20:19
Agronegócio
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Kahuku Farms iniciou o cultivo em 2008, colheu os primeiros frutos em 2016 e desenvolveu um método próprio de processamento, mas sua produção permanece pequena diante dos 1,9 milhão de toneladas brasileiras.
Uma fazenda familiar localizada no Havaí conseguiu cultivar açaí nos Estados Unidos após oito anos de espera e sucessivas adaptações. A produção é processada na própria propriedade e utilizada principalmente em bowls servidos no café rural mantido no local.
A experiência acontece na Kahuku Farms, na região de Kahuku, no litoral norte da ilha de Oahu. A propriedade começou a plantar a palmeira amazônica em 2008, quando Kylie Matsuda-Lum e seu marido, Judah Lum, decidiram testar a adaptação da espécie às condições havaianas.
Os primeiros frutos apareceram somente em 2016. Além da longa espera, o casal precisou desenvolver uma forma de retirar a pequena quantidade de polpa presente ao redor da grande semente do açaí, etapa necessária para transformar a colheita em um produto que pudesse ser consumido.
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O caso demonstra que a palmeira consegue produzir fora da Amazônia quando encontra condições tropicais favoráveis. Entretanto, a iniciativa havaiana permanece em escala local e não se aproxima do volume alcançado pelo Brasil, que continua sendo o maior produtor mundial da fruta.
Primeiras sementes foram plantadas em 2008
A Kahuku Farms informa que suas primeiras sementes de açaí foram plantadas em 2008. Foram necessários oito anos até que as palmeiras produzissem a primeira colheita, registrada em 2016.
Segundo a fazenda, ela estava entre as primeiras propriedades dos Estados Unidos a conseguir cultivar e processar a fruta. Essa condição, porém, é apresentada pela própria empresa e não equivale a um reconhecimento oficial de pioneirismo nacional.
O cultivo foi conduzido por Kylie Matsuda-Lum e Judah Lum, integrantes da quarta geração de uma família ligada à agricultura havaiana. Sem produtores locais experientes em quem pudessem se basear, eles passaram por um processo de tentativa e adaptação até encontrar uma maneira de aproveitar os frutos.
O desafio não terminava na colheita. A maior parte do açaí é formada por uma semente dura, cercada por uma camada relativamente fina de polpa e casca. A fazenda precisou criar um processo artesanal, realizado em pequenos lotes, para separar o material aproveitável sem triturar as sementes.
A colheita também exige cuidados. As palmeiras são altas e os cachos precisam ser retirados antes de os frutos seguirem para lavagem e processamento. Na propriedade havaiana, equipamentos agrícolas são empregados para alcançar as partes mais elevadas das plantas.
Primeiro bowl produzido com açaí havaiano surgiu em 2017
Depois da primeira colheita, a fazenda passou alguns meses ajustando o processamento e testando diferentes combinações de ingredientes. O resultado foi apresentado ao público no café da propriedade em 2017.
Uma reportagem da Honolulu Magazine registrou que o primeiro bowl feito com açaí cultivado no Havaí foi lançado naquele ano. A publicação tratou o produto como provavelmente o primeiro do tipo preparado com frutos produzidos no próprio arquipélago.
A reação inicial dos agricultores ao sabor da fruta também revelou uma diferença importante entre o açaí natural e o produto normalmente encontrado em lojas.
Segundo o relato de Kylie, os primeiros frutos tinham sabor terroso e relativamente neutro, distante da doçura associada a muitas receitas comercializadas.
Isso ocorre porque o sabor final de um bowl não depende somente do açaí. Frutas, xaropes, leite vegetal e outras coberturas podem modificar significativamente o produto servido ao consumidor.
Na receita desenvolvida pela fazenda, o açaí é combinado com ingredientes como banana, frutas vermelhas, leite de amêndoas, agave, granola e produtos cultivados ou preparados localmente. O objetivo foi transformar a pequena colheita em uma experiência ligada ao turismo rural e à alimentação produzida na propriedade.
Colheita é congelada para ampliar o período de oferta
A produção havaiana não deve ser interpretada como uma colheita contínua durante todos os meses. A fazenda produz quantidade suficiente em determinados períodos para congelar parte do material e utilizá-lo posteriormente.
Em 2017, o primeiro lote acabou antes da safra seguinte. Com o amadurecimento de outras palmeiras, a propriedade conseguiu aumentar o estoque e prolongar a oferta do bowl, embora o produto continue sujeito à disponibilidade da colheita.
Portanto, servir o açaí durante diferentes períodos do ano não significa necessariamente que as plantas estejam produzindo continuamente. A conservação da polpa congelada permite que os frutos colhidos em uma safra sejam aproveitados posteriormente.
O processamento rápido é particularmente importante para o açaí. Na Kahuku Farms, os frutos são lavados e preparados logo depois da retirada dos cachos, evitando a longa viagem enfrentada pelo produto importado da Amazônia.
A fazenda destaca justamente a produção, o processamento e o consumo dentro da mesma propriedade como diferenciais do produto havaiano. Não foram divulgados dados sobre toneladas anuais, área específica ocupada pelos açaizeiros ou venda da colheita para outros estados norte-americanos.
Produção permanece concentrada na própria fazenda
O modelo adotado no Havaí é diferente da grande cadeia instalada no Brasil. A colheita é transformada principalmente em bowls e outros produtos servidos no café da propriedade, que também funciona como atração turística e espaço de educação agrícola.
Isso impede que o caso seja tratado como o início de uma produção norte-americana em larga escala. A experiência comprova a possibilidade de cultivo em uma região tropical dos Estados Unidos, mas não estabelece uma nova cadeia capaz de competir em volume com a produção amazônica.
Também não existem informações públicas que demonstrem uma expansão expressiva dos açaizais da Kahuku Farms. A própria empresa descreve seu método como artesanal e baseado em pequenos lotes.
A ausência de números consolidados significa que não é possível calcular a produtividade por hectare ou comparar diretamente o rendimento das palmeiras havaianas com os açaizais brasileiros.
Brasil produziu aproximadamente 1,9 milhão de toneladas
Enquanto a experiência norte-americana permanece localizada, a produção brasileira alcançou aproximadamente 1,9 milhão de toneladas em 2024. O Pará respondeu sozinho por cerca de 1,7 milhão de toneladas, equivalentes a 89,5% do total nacional.
Os números fazem parte de uma nota técnica da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas, a Fapespa, elaborada com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Segundo o documento, 15 estados brasileiros registraram produção de açaí em 2024. Depois do Pará, o Amazonas respondeu por 7,2% do total, enquanto os demais estados dividiram uma participação significativamente menor.
O levantamento também mostra a crescente importância do açaí cultivado. Em 2024, essa modalidade representou 87,6% da produção brasileira, enquanto o restante teve origem extrativa.
Esses dados colocam a experiência havaiana em perspectiva. Embora a fazenda tenha conseguido adaptar, colher e processar uma fruta tradicionalmente amazônica, sua atividade permanece vinculada ao consumo local.
O cultivo iniciado em 2008 representa uma experiência agrícola incomum e duradoura nos Estados Unidos. Ainda assim, o centro econômico, produtivo e cultural do açaí continua na Amazônia, especialmente no Pará, responsável pela ampla maioria dos frutos produzidos no Brasil.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Fabio Lucas Carvalho.

