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Durante décadas, milhares de pessoas atravessaram o centro de São Paulo sem imaginar que um córrego corria enterrado sob seus pés; agora, projeto vencedor quer desenterrar suas águas, criar uma passarela sobre o antigo caminho e transformar o rio esquecido no coração vivo do futuro Parque do Bixiga
Escrito por Ana Alice
Publicado em 28/07/2026 às 22:00
Curiosidades
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Um córrego escondido sob o centro de São Paulo deverá reaparecer entre caminhos, árvores e áreas de convivência, enquanto um antigo terreno disputado começa a ganhar a forma do futuro Parque do Bixiga.
Em uma área de aproximadamente 11 mil metros quadrados no centro de São Paulo, o elemento que deverá organizar o futuro parque não é uma torre, uma praça pavimentada nem um grande prédio.
É um córrego que deixou de fazer parte da paisagem visível da cidade.
O curso d’água do Bixiga permanece escondido sob o terreno da Rua Jaceguai, ao lado do Teatro Oficina, em uma região atravessada diariamente por moradores, trabalhadores e visitantes que dificilmente percebem a água canalizada sob o solo.
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Projeto pretende revelar o córrego do Bixiga
O projeto escolhido pela Prefeitura de São Paulo pretende mudar essa relação.
A proposta vencedora do concurso público para o Parque Municipal do Bixiga prevê reabrir e renaturalizar o córrego, permitindo que a água volte a aparecer entre árvores, caminhos, áreas de descanso e uma passarela que acompanhará parte de seu percurso.
Anunciado em 4 de maio de 2026, o projeto do escritório paulistano Democratic Architects avançou desde a apresentação pública.
A Prefeitura já registra a contratação do escritório para elaborar o anteprojeto e os projetos básico e executivo de arquitetura, urbanismo e paisagismo, em um contrato de R$ 1.281.388,27.
Isso significa que a proposta vencedora entrou na fase de detalhamento técnico, mas ainda não representa uma obra pronta para começar imediatamente.
Até 28 de julho de 2026, não foi localizado um contrato específico para a construção do parque nem uma data oficial de inauguração.
Passarela acompanhará o curso d’água
A ideia central é fazer do córrego o eixo que organiza a experiência do visitante.
Em vez de aparecer apenas como um canal reto cercado por concreto, a água deverá seguir um desenho mais curvo, atravessando áreas de filtragem natural e espaços com vegetação.
Uma passarela-deck leve e acessível acompanhará o curso d’água, oferecendo um caminho para quem quiser atravessar o parque mais perto da parte recuperada da paisagem.
O projeto também prevê jardins de chuva e pisos permeáveis.
Em termos simples, essas soluções ajudam a água da chuva a entrar no solo de maneira mais lenta, em vez de seguir imediatamente para galerias e ruas.
A proposta pretende, assim, combinar lazer, drenagem urbana e recuperação ambiental em uma área central marcada pela ocupação intensa e por problemas de alagamento.
O que significa renaturalizar um córrego
O termo usado para esse processo é renaturalização.
Ele não significa simplesmente retirar a cobertura do córrego e deixar a água exposta.
Renaturalizar envolve reorganizar margens, vegetação, caminho da água, drenagem e espaços de circulação para tentar recuperar parte das funções que o curso d’água perdeu quando foi canalizado ou enterrado.
No caso do Bixiga, a proposta vencedora prevê que o córrego atravesse pequenas áreas de filtragem natural.
A água passaria por trechos com plantas e superfícies capazes de reter sedimentos e contribuir para a melhoria gradual de sua qualidade.
Os detalhes definitivos, no entanto, ainda dependem do desenvolvimento dos projetos técnico e executivo.
Essas etapas deverão definir dimensões, materiais, estruturas, sistemas de drenagem e soluções necessárias para que a ideia apresentada no concurso possa ser construída com segurança.
Por isso, as imagens divulgadas mostram a intenção arquitetônica e paisagística, não uma fotografia exata de como cada elemento ficará depois da obra.
Parque do Bixiga será dividido em dois níveis
O desenho divide o terreno em duas partes principais.
O chamado Parque Baixo será a área mais ligada ao córrego, à vegetação e à recuperação ambiental.
Nesse setor, caminhos curvos deverão acompanhar o relevo e conduzir o visitante por um bosque urbano formado por espécies nativas e por um programa agroflorestal com finalidade educativa e contemplativa.
Já o Parque Alto concentrará uma parcela maior das atividades sociais, esportivas e das construções de apoio.
A proposta inclui quadras, parquinho infantil, espaços multiuso, áreas para animais de estimação, ambientes para práticas como ioga e tai chi, anfiteatro aberto, banheiros e setores administrativos.
Entre os dois níveis, uma arquibancada-arrimo deverá aproveitar o desnível do terreno para criar um espaço de permanência e apresentações ao ar livre.
O elemento funciona ao mesmo tempo como contenção do solo, conexão entre alturas diferentes e área onde o público poderá se sentar.
Também estão previstos mirante, rampa acessível, áreas para banho de sol, totens informativos e calçadas ampliadas nas bordas do parque.
Moradores participaram da elaboração das diretrizes
A existência do córrego sob o terreno não era apenas uma curiosidade escondida no mapa.
A renaturalização foi colocada como uma das principais diretrizes do concurso, após levantamentos técnicos e oficinas com moradores, coletivos e representantes da região.
Três encontros participativos realizados em 2025 reuniram 71 moradores e 32 representantes de movimentos e grupos locais.
As atividades discutiram memória, características do terreno, necessidades cotidianas e caminhos possíveis para o futuro espaço público.
Segundo a Prefeitura, os estudos indicaram tanto o interesse da população quanto a viabilidade técnica de utilizar o curso d’água como elemento estruturador do parque.
Antes da abertura do concurso, documentos do Conselho Gestor mostravam que a possibilidade de reabrir o córrego ainda precisava ser analisada em conjunto com os órgãos responsáveis pela drenagem urbana.
A preocupação era evitar que uma proposta fosse escolhida e depois precisasse abandonar sua característica central por impedimentos técnicos encontrados apenas na fase executiva.
A diretriz final do concurso incorporou a renaturalização, e todos os projetos concorrentes tiveram de considerar essa condição.
Assista o vídeo
Escritório vencedor desenvolverá o projeto executivo
O escritório Democratic Architects venceu uma disputa realizada em duas etapas.
Inicialmente, cinco propostas foram selecionadas, e cada equipe recebeu R$ 18 mil para aprofundar os desenhos antes da avaliação final.
O primeiro lugar recebeu R$ 130 mil, enquanto o segundo e o terceiro colocados foram premiados com R$ 60 mil e R$ 40 mil, respectivamente.
A equipe liderada pelo arquiteto e urbanista Antonio Roberto Zanolla ficou responsável pelo projeto vencedor.
Além da premiação, o edital previa a contratação posterior dos autores para desenvolver os documentos técnicos necessários à implantação.
O contrato de aproximadamente R$ 1,28 milhão não corresponde ao orçamento da construção do parque.
Esse valor é destinado ao trabalho especializado de detalhamento arquitetônico, urbanístico e paisagístico.
O custo total das obras só poderá ser dimensionado com maior segurança depois que os projetos, memoriais, levantamentos e planilhas forem concluídos.
Terreno foi disputado por décadas
A área onde o parque será implantado esteve no centro de uma disputa urbana iniciada na década de 1980.
O terreno foi adquirido pelo Grupo Silvio Santos, que pretendia construir um empreendimento imobiliário ao lado do Teatro Oficina.
Durante décadas, artistas, moradores, arquitetos e movimentos locais defenderam que o espaço permanecesse livre e fosse transformado em parque público.
Em maio de 2024, o grupo aceitou vender a área à Prefeitura por R$ 64.379.100,13, abaixo dos R$ 80 milhões inicialmente solicitados.
O terreno possui cerca de 11 mil metros quadrados e fica na Rua Jaceguai, em uma área de forte valor cultural e histórico da Bela Vista.
Em julho de 2024, os imóveis foram declarados de utilidade pública para desapropriação, etapa necessária para a implantação do equipamento municipal.
A criação do parque também foi incorporada ao planejamento urbano da cidade, e um Conselho Gestor foi eleito em 2025.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

