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Ridicularizado por andar de bicicleta com os bolsos cheios de sementes, um homem vendeu os próprios três acres de terra para comprar mudas e passou seis décadas semeando estradas e morros áridos, creditado por cobrir a região de milhões de árvores
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 24/07/2026 às 19:27
Curiosidades
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Conhecido em sua região da Índia como Ramaiah das Árvores, Daripalli Ramaiah vendeu o único terreno que possuía para comprar mudas e passou mais de seis décadas pedalando por estradas e morros secos com sementes no bolso. Morreu em abril de 2025, aos 87 anos, depois de receber a maior honraria civil que o país dá.
No vilarejo de Reddypalli, no distrito de Khammam, no atual estado indiano de Telangana, vivia um homem que media a própria vida em mudas, e não em anos ou em dinheiro. Onde enxergava um pedaço de terra árida, Daripalli Ramaiah tirava sementes do bolso e plantava, com a esperança teimosa de cobrir toda a região de árvores. A trajetória dele foi contada pelo portal indiano The Better India, que o apresentou ao mundo como um herói anônimo muito antes de ele virar figura nacional.
O tamanho do gesto assusta pela desproporção entre o meio e o resultado. Por estimativa do próprio Ramaiah, foram mais de dez milhões de árvores plantadas ao longo de mais de seis décadas, tudo a partir de uma bicicleta, sacos de estopa cheios de sementes e um capacete de metal com uma frase gravada. Para bancar a missão, ele chegou a vender os próprios três acres de terra, cerca de 1,2 hectare, o único patrimônio que tinha, para comprar mais sementes e mudas. Em 2017, o governo indiano reconheceu esse trabalho com o Padma Shri, uma das mais altas condecorações civis do país.
A lição da mãe e o segredo guardado na semente
A relação de Ramaiah com o plantio começou na infância, dentro de casa. Ele guardava a lembrança da mãe separando as sementes de abóbora de uma colheita para a próxima estação, e foi observando esse gesto simples que aprendeu a primeira lição da vida inteira. Para ele, a semente carregava um segredo: recebia vida e provava a própria existência ao encontrar o solo na época das monções e brotar em planta.
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Dessa observação nasceu uma filosofia inteira sobre o ciclo das plantas. A muda resiste a maus tratos até virar árvore e passar a proteger quem antes a atormentava, e ainda espalha sementes pelo chão para dar origem à geração seguinte. Foi essa imagem, de uma vida que se defende e depois retribui, que Ramaiah transformou em rotina diária, pedalando quilômetros com uma das mãos no guidão e a outra jogando sementes nas margens dos caminhos.
Ridicularizado, seguiu pedalando
No começo, o homem que carregava plantas na bicicleta e sementes no bolso era motivo de deboche. Crianças corriam atrás dele, adultos o tratavam como excêntrico inofensivo, alguém que perdia tempo com uma causa sem futuro. A aparência reforçava a fama: Ramaiah desfilava com um cartaz verde pendurado como se fosse um manto, coberto de frases sobre a importância das árvores.
Ele respondia às críticas com humor e com uma identidade que fazia questão de exibir. Comparava o próprio visual ao de uma miss e dizia, em tom de brincadeira, que aquele era o seu jeito de ser reconhecido. Tinha até uma explicação pronta para quem duvidava dele: quem se cobre de cinzas sagradas é sacerdote, quem veste cáqui é policial, e quem usa um lenço verde é Ramaiah. O deboche do início virou reverência com o passar dos anos, e os mesmos que zombavam passaram a admirá lo.
O homem que vendeu a própria terra por mudas
A decisão que mais define Ramaiah é também a mais radical. Quando a missão de plantar superou os recursos que ele tinha, vendeu os três acres de terra que possuía para comprar sementes e mudas. Era o patrimônio da família, e virou floresta espalhada pela região em vez de ficar guardado como bem particular.
A mesma lógica aparece em um episódio revelador. Um parente que só enxergava valor comercial nas árvores aconselhou Ramaiah a cortar e vender os sândalos vermelhos que já tinham crescido no quintal dele, madeira de alto preço. Ele nem cogitou. Explicou que estava formando um banco de sementes para as gerações futuras e que cada árvore dele servia apenas para gerar mais árvores. Para Ramaiah, cortar uma árvore para lucrar era uma contradição com a própria fé, resumida em uma frase que ele repetia: não acreditava em quem derruba árvores mas se ajoelha diante de uma pedra, porque, para ele, a natureza era Deus e Deus era a natureza.
Um corredor verde erguido espécie por espécie
O trabalho de Ramaiah não era aleatório. Ele reuniu sementes de várias espécies nativas, como bael, figueira sagrada, kadamba, nim, pongamia e o sândalo vermelho, e escolheu as margens do canal entre Khammam e a ponte de Palleguda para começar a arborizar um trecho de quatro quilômetros dos dois lados do caminho. Plantou muda em cada pedaço de terra seca daquele percurso, e o que era faixa árida virou corredor de árvores enormes.
O conhecimento por trás disso foi todo autodidata. Com estudo formal que não passou do ensino básico, Ramaiah leu tudo o que encontrou sobre árvores, comprando livros antigos em sebos de beira de estrada com os poucos recursos que tinha, e virou uma espécie de enciclopédia ambulante sobre plantas, capaz de contar a história de quase cada árvore que havia posto no chão. Ele cultivava um viveiro de sândalo vermelho e distribuía as mudas de graça, aceitando qualquer valor que lhe oferecessem e usando o dinheiro para produzir ainda mais mudas.
O acidente que o transformou em escultor
Uma queda mudou o rumo do trabalho de Ramaiah sem interrompê lo. Perseguido por crianças enquanto pedalava, ele caiu e fraturou o quadril, o que o deixou imobilizado por alguns meses. Em vez de parar, raciocinou que, se as pernas estavam presas, as mãos continuavam livres, e aprendeu a esculpir pedra com prego e martelo, gravando slogans e imagens de folhas e árvores em cada superfície que encontrava.
A engenhosidade dele aparecia até nas tarefas mais miúdas. Como as cascas das sementes de teca eram duras e trabalhosas de quebrar, Ramaiah montou um assento feito com essas sementes para a esposa, que se sentava ali perto do fogo para cozinhar. O vai e vem constante dela acabava rachando as cascas e adiantava o serviço. A companheira teve papel central nessa missão de uma vida, ao lado dele nos momentos bons e ruins, ajudando a sustentar a paixão que movia a casa.
Do ridículo ao Padma Shri
O reconhecimento que Ramaiah nunca perseguiu acabou chegando de todo lado. Em 2017, recebeu o Padma Shri, honraria que coroou décadas de trabalho braçal e transformou o excêntrico do vilarejo em símbolo nacional de reflorestamento. A história dele passou a integrar até material escolar, e as árvores que plantou se espalham por milhares de escolas da região.
A filosofia que ele deixou é simples e cabe em um conselho que repetia. Em vez de dar uma fruta a uma criança, dizia, dê a ela uma planta, e deixe que a criança cuide daquela muda até virar árvore, para que aprenda a amar a natureza e colha frutos para sempre. As crianças de hoje são os cidadãos de amanhã, assim como as plantas de hoje são as árvores de amanhã, resumia. Ramaiah morreu em 12 de abril de 2025, aos 87 anos, na própria casa em Reddypalli, deixando atrás de si florestas inteiras onde antes só havia terra seca.
Milhões de árvores plantadas por um homem só
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A vida de Daripalli Ramaiah desmonta a ideia de que causas ambientais dependem de dinheiro ou de estrutura. Ele começou com uma bicicleta, sementes no bolso e a convicção de que cada muda plantada tinha que sobreviver, e terminou creditado por cobrir uma região inteira de árvores, sem nunca ter tido posse, cargo ou diploma para isso.
E aí fica a provocação que o próprio Ramaiah gostava de fazer. Quantas árvores você já plantou na vida, cinco, dez, nenhuma? Comenta aqui embaixo se você plantaria uma árvore hoje sabendo que talvez nunca fosse sentar na sombra dela, e conta se existe algum lugar seco perto de você que bem que merecia virar verde.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

