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Vinte anos depois de interromper a faculdade para cuidar dos filhos, mulher de 48 anos voltou à sala, dividiu por quase nove anos apostilas, trabalhos e a mesma turma com a filha de 26, recebeu ao lado dela o diploma de Pedagogia e hoje as duas ensinam na mesma escola em Alagoas
Escrito por Ana Alice
Publicado em 29/07/2026 às 00:45
Curiosidades
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Uma escolha feita dentro da própria família transformou a rotina de duas gerações e criou uma parceria que atravessou anos de estudo, mudanças pessoais e desafios até chegar a um desfecho pouco comum.
Durante quase nove anos, a vida universitária de Vanderlucia Lima de Cordeiro Amorim e Wythoria Christiny Cordeiro Amorim seguiu no mesmo ritmo.
Mãe e filha frequentaram a mesma turma, estudaram pelas mesmas apostilas, prepararam trabalhos juntas e enfrentaram os obstáculos de uma graduação que começou em 2015.
O percurso terminou em 19 de agosto de 2024, quando as duas receberam o diploma de Pedagogia na mesma cerimônia da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), em Santana do Ipanema, no sertão alagoano.
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Vanderlucia tinha 48 anos na ocasião, enquanto Wythoria estava com 26.
A imagem das duas formadas lado a lado representava mais do que a conclusão de um curso.
Para a mãe, era a retomada de um plano interrompido duas décadas antes.
Para a filha, o diploma marcava o fim de uma caminhada iniciada ao lado da pessoa que havia inspirado a escolha da profissão.
Professora retomou sonho interrompido por 20 anos
Vanderlucia já tinha formação no magistério e trabalhava como professora no município, mas ainda não havia concluído um curso superior.
Cerca de 20 anos antes da formatura, ela precisou interromper os estudos para cuidar dos filhos.
O projeto de chegar à universidade permaneceu adiado até 2015.
Naquele ano, Wythoria havia terminado o ensino médio e se preparava para iniciar uma nova etapa.
Em vez de apenas acompanhar a filha, Vanderlucia decidiu tentar o mesmo caminho.
As duas escolheram Pedagogia e conseguiram entrar na Uneal no mesmo período.
A coincidência colocou mãe e filha não apenas no mesmo curso, mas também na mesma turma durante toda a graduação.
Em casa, a relação continuava sendo de mãe e filha.
Na universidade, porém, elas também passaram a compartilhar prazos, atividades, leituras, avaliações e responsabilidades acadêmicas.
Wythoria contou ao Terra que o curso havia sido escolhido pelas duas porque a graduação era um sonho antigo da mãe, que também se tornou um objetivo da filha.
A partir daquele momento, a conquista deixou de ser individual e passou a fazer parte da trajetória de ambas.
Mãe e filha dividiram a rotina na faculdade
O período entre o ingresso e a formatura foi maior do que a duração habitual de muitos cursos de graduação.
A caminhada iniciada em 2015 atravessou quase nove anos e incluiu mudanças que afetaram diretamente a vida acadêmica das duas.
Durante esse tempo, mãe e filha dividiram os materiais usados nas disciplinas e realizaram juntas os trabalhos pedidos pelos professores.
O apoio não se limitava às atividades dentro da universidade.
A organização dos estudos também precisava considerar o trabalho, a vida familiar e o deslocamento até o campus.
Depois da cerimônia, Vanderlucia resumiu essa rotina em uma frase: “Nós estudávamos juntas, dividimos as apostilas e nos apoiamos mutuamente.”
O relato foi divulgado pela equipe da Uneal e mostra como a parceria acompanhou praticamente todas as fases do curso.
A convivência diária também criou uma situação pouco comum.
Enquanto muitos estudantes procuram colegas para formar grupos e organizar tarefas, Vanderlucia e Wythoria já tinham dentro da própria família alguém que conhecia os mesmos textos, professores, prazos e dificuldades.
Isso não eliminou os problemas enfrentados no caminho.
Ao contrário, a dupla precisou ajustar a rotina várias vezes para permanecer no curso até a colação de grau.
Pandemia, deslocamento e duas gestações marcaram a graduação
Entre os desafios relatados estavam o deslocamento diário até a universidade, as mudanças provocadas pela pandemia de Covid-19 e as duas gestações de Wythoria durante a graduação.
O transporte utilizado no trajeto era cedido pela prefeitura, segundo informações divulgadas após a formatura.
A viagem fazia parte da rotina acadêmica e precisava ser conciliada com as demais responsabilidades das duas estudantes.
Ao longo do curso, Wythoria também se tornou mãe duas vezes.
As gestações trouxeram limitações em determinados períodos, mas ela continuou matriculada e contou com o apoio de Vanderlucia para acompanhar as atividades.
A pandemia acrescentou outra mudança ao percurso.
As restrições sanitárias afetaram o funcionamento de universidades em todo o país e alteraram calendários, aulas e atividades acadêmicas.
No caso das duas alagoanas, esse período passou a integrar uma graduação que já exigia conciliação entre estudo, trabalho e família.
Apesar das interrupções e adaptações, elas permaneceram na mesma turma.
Quando uma precisava de ajuda, a outra conhecia exatamente as exigências da disciplina e o estágio em que o trabalho se encontrava.
Foi essa organização compartilhada que permitiu às duas atravessar os diferentes momentos da formação sem transformar a universidade em uma experiência separada da vida familiar.
Diploma de Pedagogia foi entregue na mesma cerimônia
A colação de grau reuniu estudantes de Pedagogia, Ciências Biológicas, Zootecnia e Química.
Entre os formandos, a história de Vanderlucia e Wythoria ganhou destaque porque as duas subiram ao mesmo palco para concluir um percurso iniciado juntas.
A cerimônia ocorreu no campus da Uneal em Santana do Ipanema.
Familiares acompanharam o momento, incluindo Nelson Amorim, filho de Vanderlucia e irmão de Wythoria, que entrou com as duas formandas durante a solenidade.
Na ocasião, o então reitor da universidade, Odilon Máximo, destacou o papel da presença da Uneal no interior de Alagoas.
Segundo ele, a instituição mantinha atividades em Santana do Ipanema havia 30 anos, oferecendo acesso ao ensino superior público à população do sertão.
Para Wythoria, os sentimentos daquele dia foram resumidos em “alegria, felicidade e gratidão a Deus”.
A fala acompanhou o encerramento de uma etapa marcada não apenas pela obtenção do diploma, mas também pela experiência de frequentar a universidade ao lado da mãe.
Da mesma turma para a mesma escola em Alagoas
Quando a história foi divulgada, em agosto e setembro de 2024, Vanderlucia e Wythoria já trabalhavam como professoras na Escola Municipal de Educação Básica Maria do Carmo, em Santana do Ipanema.
A parceria, portanto, não terminou com a entrega dos diplomas.
O que antes envolvia apostilas, avaliações e trabalhos universitários passou a incluir conversas sobre a rotina escolar, planejamento das atividades e experiências em sala de aula.
Wythoria afirmou que as duas continuavam trocando dicas e conselhos no trabalho.
Também disse que sentiria falta da rotina universitária com a mãe, embora a convivência profissional mantivesse as duas ligadas à educação.
A trajetória acadêmica de Wythoria já incluía atividades relacionadas à prática docente antes da formatura.
Em 2018, seu nome apareceu entre os autores de um trabalho ligado ao Programa de Residência Pedagógica da Uneal, desenvolvido em uma instituição de educação infantil da rede municipal de Santana do Ipanema.
O estudo discutia como a organização dos espaços de uma creche pode influenciar as experiências e a aprendizagem das crianças.
O caso de mãe e filha não depende de um acontecimento novo para continuar despertando curiosidade.
Ele mostra como uma formação interrompida pode ser retomada anos depois e como duas gerações de uma mesma família conseguiram transformar um antigo plano em uma experiência compartilhada.
Depois de quase nove anos ocupando a mesma sala como alunas, as duas chegaram à escola como professoras.
Quantos sonhos deixados de lado ainda poderiam recomeçar quando alguém encontra apoio para voltar a estudar?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

