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Com 224 metros de altura, 1,2 milhão de toneladas e capacidade para guardar 1,3 milhão de barris dentro da própria base, Hibernia foi fincada a 315 km da costa e projetada para resistir ao impacto de um iceberg de 1 milhão de toneladas
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 28/08/2026 às 11:39
Atualizado em 28/08/2026 às 11:43
Petróleo e Gás
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Hibernia tem 224 metros, pesa 1,2 milhão de toneladas e guarda 1,3 milhão de barris em uma base de concreto projetada para enfrentar icebergs.
Em 1997, a plataforma petrolífera Hibernia foi rebocada para os Grand Banks, no Atlântico Norte, e instalada no fundo do mar a aproximadamente 315 quilômetros de St. John’s, em Newfoundland and Labrador, no Canadá. Segundo dados do governo provincial e da Hibernia Management and Development Company, a estrutura completa alcança 224 metros de altura, pesa cerca de 1,2 milhão de toneladas em sua configuração instalada e possui capacidade para armazenar 1,3 milhão de barris de petróleo dentro da própria base de concreto.
Mas tamanho e armazenamento eram apenas parte do desafio. Hibernia seria instalada numa região exposta a tempestades violentas, gelo marinho e icebergs. Por isso, sua Gravity Base Structure, ou GBS, foi transformada em uma espécie de fortaleza circular de concreto armado e protendido.
Hibernia tem a altura aproximada de um prédio de 75 andares
Os 224 metros informados pela própria Hibernia para a plataforma completa colocam a estrutura na escala de um arranha-céu. A empresa compara essa altura à de um edifício com aproximadamente 75 andares.
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A diferença é que grande parte dessa estrutura não foi construída sobre solo urbano. Hibernia está apoiada diretamente no fundo do Atlântico Norte, em aproximadamente 80 metros de profundidade.
Acima da base ficam as instalações de perfuração, processamento, geração de energia, utilidades, alojamentos e enormes torres utilizadas nas operações dos poços.
A estrutura chega a 1,2 milhão de toneladas depois de instalada
Outro número ajuda a compreender a escala de Hibernia. Dados oficiais do governo de Newfoundland and Labrador descrevem a plataforma com aproximadamente 1,2 milhão de toneladas.
Esse valor se refere à estrutura em sua condição instalada e lastrada. Durante a etapa em que a parte superior foi unida à base, em fevereiro de 1997, a plataforma pesava quase 600 mil toneladas, segundo a cronologia oficial do projeto.
Depois de levada ao campo e assentada no fundo do oceano, água de lastro e a configuração final elevaram enormemente essa massa.
Ela não permanece no lugar por meio de cabos de ancoragem convencionais. O conceito de gravity-based structure utiliza justamente a massa colossal da base para mantê-la apoiada no leito marinho.
A base sozinha possui cerca de 106 metros de diâmetro
O coração do projeto é um enorme caixão circular de concreto. Documentação técnica do American Concrete Institute descreve a GBS com aproximadamente 106 metros de diâmetro e 85 metros de altura, antes de considerar toda a superestrutura instalada acima dela.
A base possui uma laje cuja espessura chega a aproximadamente 1,4 metro em determinados pontos.
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Imagine um círculo de concreto com largura superior ao comprimento de um campo de futebol, erguido verticalmente no oceano e utilizado simultaneamente como fundação, escudo contra gelo e tanque de petróleo.
Essa é essencialmente a função da GBS.
1,3 milhão de barris de petróleo cabem dentro da própria fundação
Talvez o detalhe mais extraordinário esteja escondido abaixo da superfície. A base de Hibernia não é apenas um bloco maciço de concreto. Seu interior possui células capazes de armazenar 1,3 milhão de barris de petróleo bruto, confirmação que aparece tanto na documentação da Hibernia quanto em registros regulatórios canadenses.
Um barril de petróleo corresponde a aproximadamente 159 litros. Portanto, a capacidade nominal da base equivale a mais de 206 milhões de litros.
O óleo produzido pelos poços entra nessas células e permanece armazenado até ser transferido para navios-tanque. Assim, a própria fundação funciona como um gigantesco terminal de armazenamento submerso.
Petróleo e água permanecem juntos dentro das células
A engenharia das células de armazenamento é particularmente interessante. Documentos relacionados à operação de Hibernia explicam que cada célula contém água e petróleo simultaneamente. Como o óleo é menos denso, permanece acima da água.
À medida que petróleo entra na célula, ele desloca a água. Quando o óleo é retirado para carregamento nos navios-tanque, água volta a ocupar volume.
O sistema ajuda a manter as células continuamente preenchidas e controlar as pressões internas.
É uma solução que permite colocar um enorme estoque de petróleo literalmente dentro da estrutura que sustenta toda a plataforma.
O verdadeiro inimigo de Hibernia são os icebergs
Hibernia está localizada nos Grand Banks, uma região do Atlântico Norte conhecida historicamente pela passagem de icebergs.
Esses blocos de gelo podem possuir uma massa extraordinária e, principalmente, grande parte de seu volume permanece abaixo da superfície.
Para uma estrutura fixa instalada diretamente no fundo do oceano, simplesmente se afastar de um iceberg não é opção.
A solução foi construir a plataforma para receber impactos extremos.
Dezesseis “dentes” de concreto cercam a estrutura
O formato da base não é perfeitamente liso. Documentação técnica descreve uma série de projeções em formato de cunha distribuídas pela parede externa. São frequentemente chamadas de “icewall teeth”, os dentes da parede de gelo.
Sua finalidade é ajudar a reduzir as cargas produzidas por um iceberg ao atingir a plataforma, promovendo esmagamento e ruptura localizada do gelo em vez de simplesmente receber toda a força contra uma parede plana.
Ao todo, fontes técnicas descrevem 16 dessas estruturas ao redor do perímetro.
O resultado dá à parte inferior de Hibernia uma aparência incomum e revela que sua geometria foi determinada não apenas pelo peso do edifício, mas pelo comportamento físico de enormes massas de gelo.
Projeto considera iceberg de 1 milhão de toneladas atingindo diretamente a plataforma
Documentação da ExxonMobil sobre sua experiência em ambientes árticos informa que Hibernia foi projetada para suportar o impacto de um iceberg de 1 milhão de toneladas.
Uma avaliação técnica produzida para autoridades americanas detalha ainda mais o critério. O estudo indica capacidade para enfrentar um iceberg de aproximadamente 1 milhão de toneladas sem danos dentro do evento de projeto, além de considerar um cenário extremo de aproximadamente 6 milhões de toneladas, associado a danos reparáveis.
Isso não significa que os operadores simplesmente esperem um iceberg colidir. Há também um sistema ativo de gerenciamento de gelo.
Navios podem tentar rebocar icebergs antes que eles cheguem à plataforma
Hibernia emprega monitoramento para identificar blocos de gelo potencialmente perigosos.
Em determinadas condições, embarcações de apoio podem tentar alterar a trajetória de um iceberg antes que ele alcance a plataforma.
A documentação da ExxonMobil descreve o uso de navios, aeronaves e radares marítimos para rastrear o movimento dessas massas de gelo.
Se ventos e correntes direcionarem um iceberg potencialmente perigoso para a estrutura, embarcações podem ser mobilizadas para tentar rebocá-lo ou desviá-lo.
A fortaleza de concreto, portanto, constitui a última barreira física. Antes dela existe uma operação constante de vigilância.
Testes de engenharia chegaram a ser realizados dentro de icebergs reais
Projetar uma estrutura para receber uma colisão de gelo de dimensões gigantescas exigia entender uma variável difícil: quanta pressão um iceberg realmente exerce ao ser esmagado contra concreto?
Pesquisadores canadenses realizaram estudos específicos para Hibernia. Documentação do National Research Council of Canada relata experimentos de indentação executados em túneis escavados dentro de icebergs encalhados.
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Os engenheiros analisaram como o gelo se deformava, fraturava e esmagava sob diferentes condições.
Essas informações foram utilizadas para estabelecer cargas locais e globais necessárias ao projeto da plataforma.
O formato brutalmente robusto de Hibernia é, portanto, resultado também de pesquisa experimental realizada diretamente no gelo do Atlântico Norte.
O projeto precisou resistir simultaneamente a gelo e ondas gigantes
A parede anti-iceberg criou outro problema de engenharia. Uma estrutura extremamente larga e maciça é eficiente para resistir à colisão com gelo, mas também oferece uma enorme superfície às ondas.
O National Research Council observa que a necessidade de resistência aos icebergs levou Hibernia a uma geometria que também atrai cargas muito maiores das ondas do que estruturas mais abertas e esbeltas usadas em regiões sem gelo.
Os engenheiros precisaram, portanto, resolver dois problemas ao mesmo tempo.
A base deveria ser suficientemente maciça para enfrentar gelo, mas também suportar décadas de ondas, tempestades, pressões hidrostáticas e movimentos marítimos.
Hibernia foi construída em terra e depois colocada para flutuar
Construir uma estrutura desse tamanho diretamente em mar aberto seria extremamente complexo.
A GBS começou a ser construída em Bull Arm, Trinity Bay, em Newfoundland. A obra avançou inicialmente em doca seca. Depois, a base foi colocada para flutuar e a construção continuou enquanto a estrutura permanecia parcialmente submersa.
Os módulos superiores vieram de diferentes lugares. A própria cronologia do projeto registra componentes construídos no Canadá, Coreia do Sul e Itália, posteriormente reunidos em Bull Arm.
Era uma operação industrial internacional cuja montagem final resultou numa estrutura que chegaria a centenas de milhares de toneladas antes mesmo de deixar a costa.
Uma estrutura de centenas de milhares de toneladas foi rebocada pelo Atlântico
O reboque começou em 23 de maio de 1997. O dado que mostra a dificuldade da operação é a velocidade: a Hibernia informa que o deslocamento ocorreu a pouco mais de 2 nós em média, aproximadamente 4 km/h.
A plataforma não navegava por conta própria.
Rebocadores conduziram lentamente a estrutura até o campo petrolífero, onde seria posicionada sobre o fundo do oceano. Em 6 de junho de 1997, Hibernia estava finalmente instalada.
A instalação fica a 315 km de terra firme
O campo de Hibernia está localizado a aproximadamente 315 quilômetros de St. John’s, na região conhecida como Jeanne d’Arc Basin.
Não existe cidade próxima, estrada ou porto ao lado. A operação depende de navios de abastecimento e helicópteros para transportar materiais, suprimentos e pessoas.
O isolamento torna manutenção e segurança ainda mais complexas. Praticamente tudo aquilo que uma instalação industrial convencional receberia por estrada precisa chegar pelo ar ou pelo mar.
A produção começou em novembro de 1997
Depois da instalação e da perfuração dos primeiros poços de desenvolvimento, Hibernia produziu seu primeiro petróleo em 17 de novembro de 1997, um mês antes do cronograma inicialmente estabelecido pela empresa.
Foi um momento histórico para Newfoundland and Labrador. Hibernia tornou-se a primeira plataforma de produção offshore da província e ajudou a estabelecer uma indústria petrolífera que posteriormente recebeu outros grandes projetos.
A estrutura concebida para sobreviver a icebergs deixava de ser apenas uma façanha de engenharia e começava efetivamente a produzir.
Em 2016, Hibernia ultrapassou 1 bilhão de barris produzidos
Em 21 de dezembro de 2016, a Hibernia Management and Development Company e a ExxonMobil anunciaram que o campo havia produzido seu bilionésimo barril de petróleo.
A marca superou aquilo que se esperava originalmente quando a produção começou em 1997.
Tecnologias como perfuração de alcance estendido, modelagem geológica e melhor gerenciamento do reservatório prolongaram a vida do projeto.
Atualmente, a própria Hibernia afirma que a vida projetada do campo foi estendida para além de 2040.
Quase três décadas depois, a fortaleza de concreto continua produzindo
O ponto talvez mais impressionante é que Hibernia não é apenas um monumento tecnológico do século passado.
Dados oficiais de produção mostram atividade do campo ainda em 2026, quase 29 anos depois do primeiro óleo.
A instalação continua assentada no mesmo ponto do Atlântico Norte, cercada por água fria, ondas e uma região onde a presença de gelo foi considerada desde o primeiro desenho.
A estrutura originalmente concebida para um projeto com horizonte de cerca de duas décadas permanece operacional muito além disso.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

