5 min de leitura
Com 665 metros quadrados, um centro comunitário conseguiu transformar o canteiro em escola, ergueu paredes de tijolos trançadas e abriu espaço de trabalho e venda para mulheres artesãs
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 28/08/2026 às 18:15
Atualizado em 28/08/2026 às 18:16
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
O centro Las Tejedoras, construído em Chongón, possui capacitação, produção e venda de artesanato, enquanto a madeira, as paredes de tijolos inclinados e as portas treliçadas criam espaços protegidos, iluminados e ventilados naturalmente
De longe, a fachada do centro comunitário Las Tejedoras parece coberta por um tecido grosso. O olhar mais atento revela outra coisa: são paredes de tijolos comuns, inclinados e ligados em um desenho que lembra a trama feita pelas próprias artesãs.
O edifício ocupa 665 metros quadrados em Chongón, no Equador, e foi registrado como uma obra de 2023. A informação foi publicada pelo ArchDaily, portal especializado em arquitetura e projetos, em 18 de abril de 2023.
Natura Futura e Juan Carlos Bamba desenvolveram o projeto com a Fundação Young Living e a organização Bromelias. O espaço já construído dispõe de aprendizado, encontro, produção e comercialização, enquanto as oficinas realizadas durante a obra levaram o ensino para dentro do próprio canteiro.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Quando a parede de tijolos imita o tear
O efeito visual nasce do assentamento em espinha de peixe, desenho no qual as peças mudam de direção e formam uma sequência de diagonais. Em Las Tejedoras, a solução aproxima a construção do trabalho manual com fibras naturais que deu identidade ao grupo de mulheres.
Não é apenas decoração. A disposição entrelaçada ajuda a enrijecer os fechamentos, pois os trechos da parede ficam ligados pela própria forma da montagem. Em linguagem simples, a trama dificulta que cada parte trabalhe isoladamente e dá mais firmeza ao conjunto.
O princípio visual lembra os cobogós e as alvenarias vazadas encontrados em muitas construções do Nordeste. Esses elementos filtram a luz, mantêm alguma ligação com o lado externo e ajudam o ar a circular, embora o desenho equatoriano tenha composição própria e reproduza a ideia de um tecido.
A madeira sustenta enquanto o tijolo fecha
As paredes trançadas não carregam sozinhas o peso principal do centro. A estrutura de madeira de teca roliça sustenta a cobertura e o piso do nível superior. Essa madeira aparece no projeto por sua dureza, durabilidade e uso regional em apoios de casas sobre estacas.
Os tijolos atuam como fechamento, dividindo e protegendo os ambientes. Eles ganham rigidez pelo encaixe em espinha de peixe, mas não substituem as peças de madeira responsáveis por receber as cargas maiores do edifício.
A proteção contra a chuva também depende do conjunto, e não apenas do tijolo. A cobertura protege as áreas de atividade, a face posterior fica mais fechada junto ao limite do terreno e as portas treliçadas de madeira permitem controlar a abertura dos espaços.
O canteiro virou sala de aula para a comunidade
A construção foi usada como parte do processo de formação. Moradores e familiares ligados à academia local participaram de oficinas voltadas ao trabalho no canteiro, com o objetivo de desenvolver habilidades úteis para o crescimento da comunidade e o cuidado com o ambiente.
As oficinas não foram apresentadas como cursos separados e não há indicação de certificados profissionais. O ponto comprovado é o aprendizado prático no canteiro, capaz de aproximar os participantes das etapas reais de uma obra e deixar conhecimento no próprio território.
Essa diferença impede uma interpretação exagerada. O projeto contou com participação comunitária e treinamento, mas isso não significa que toda a construção tenha sido executada exclusivamente por mulheres. A obra também teve construtor principal e uma equipe formada por diferentes colaboradores.
Ventilação natural sem depender de ar condicionado
As portas treliçadas podem ser dobradas e abertas para ligar os ambientes ao pátio e à rua. Esse movimento ajuda a controlar ventilação, entrada de luz e contato entre interior e exterior, sem transformar cada área em uma caixa fechada.
O ArchDaily, portal especializado em arquitetura e projetos, identifica essas portas como o principal recurso de controle das aberturas. As paredes com desenho trançado completam a linguagem do edifício e ajudam a criar fechamentos que parecem mais leves do que uma alvenaria comum totalmente lisa.
No centro do conjunto há um pátio com vegetação da região, cercado por duas alas laterais e uma área central. Essa organização mantém os ambientes próximos de um espaço aberto de encontro e exposição, favorecendo a circulação entre aulas, oficinas, loja e produção artesanal.
Arquitetura produtiva aproxima ensino, trabalho e venda
Las Tejedoras nasceu da necessidade de um espaço maior para a Organização de Mulheres Artesãs Bromelias. O grupo reúne mães de alunos da Academia Young Living e trabalha com tecidos feitos à mão usando fibras naturais.
Desde 2009, a academia atende cerca de 150 crianças de baixa renda. Chongón possui aproximadamente 4.900 moradores, com presença expressiva de mulheres fora do grupo economicamente ativo e com poucas possibilidades de entrada no mercado de trabalho.
Assista o vídeo
O novo centro coloca várias etapas no mesmo endereço. Há salas para formação teórica, cafeteria, serviços sanitários, oficinas práticas, área para dormir, depósitos, loja e uma nave central onde os tecidos são produzidos. A fachada principal funciona ainda como galeria de produção e exposição voltada para a rua.
Um edifício que transforma material comum em oportunidade
Las Tejedoras mostra que um tijolo conhecido por qualquer pedreiro pode ganhar outra função quando desenho, clima e uso social são pensados juntos. A parede lembra um tear, a madeira recebe as cargas principais e as portas controlam luz e ventilação em um centro feito para atividades reais da comunidade.
O resultado une construção, capacitação e trabalho feminino sem apagar a participação dos demais moradores e profissionais.
Você usaria uma parede trançada como essa em uma obra no Brasil? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe a história com quem trabalha com tijolos, madeira ou construção comunitária.
Fonte
ArchDaily
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

