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Holanda constrói uma muralha móvel colossal contra o Mar do Norte: Maeslantkering usa duas portas de 210 metros, estruturas de 22 metros de altura e articulações de 680 toneladas para fechar sozinha uma das rotas marítimas mais importantes da Europa e proteger cerca de 2 milhões de pessoas
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 28/08/2026 às 19:39
Atualizado em 28/08/2026 às 19:42
Construção
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Maeslantkering usa duas portas de 210 metros e articulações de 680 toneladas para fechar automaticamente o acesso do Mar do Norte durante tempestades extremas.
Em 1997, os Países Baixos concluíram a Maeslantkering, uma barreira contra tempestades construída na Nieuwe Waterweg, próxima a Hoek van Holland, para enfrentar um problema aparentemente contraditório: proteger Rotterdam e outras áreas densamente povoadas contra o avanço do Mar do Norte sem fechar permanentemente a rota utilizada pelos grandes navios que acessam o porto. A solução foi construir duas estruturas móveis colossais. Cada porta possui 210 metros de largura, 22 metros de altura e 15 metros de profundidade, movimentada por uma articulação esférica de 10 metros de diâmetro e aproximadamente 680 toneladas.
Quando uma tempestade ameaça elevar perigosamente o nível do mar, essas duas estruturas deixam seus enormes compartimentos laterais e começam a girar em direção ao centro da hidrovia. Depois de posicionadas, são preenchidas com água e afundam até o fundo, criando uma barreira temporária entre o Mar do Norte e o interior do país.
O Rijkswaterstaat, órgão responsável pela infraestrutura hídrica neerlandesa, afirma que nenhuma barreira contra inundações do mundo possui componentes móveis maiores e que a Maeslantkering ajuda a proteger aproximadamente 2 milhões de habitantes da Holanda do Sul.
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Duas portas de 210 metros ficam abertas durante praticamente toda a vida da estrutura
A característica mais engenhosa da Maeslantkering é que, na maior parte do tempo, ela praticamente desaparece da rota dos navios.
Suas duas gigantescas portas permanecem estacionadas em docas nas margens da Nieuwe Waterweg. Dessa forma, petroleiros, cargueiros e outras embarcações continuam entrando e saindo normalmente da região portuária de Rotterdam.
Isso era essencial para o projeto. A Nieuwe Waterweg é uma ligação fundamental entre Rotterdam e o Mar do Norte. O próprio Rijkswaterstaat destaca que essa hidrovia foi decisiva para que Rotterdam se transformasse em um dos maiores centros portuários do planeta.
Construir uma barragem permanente naquele ponto resolveria parte do problema das tempestades, mas criaria outro gigantesco problema econômico.
A Maeslantkering foi projetada justamente para oferecer as duas coisas: uma passagem completamente aberta para a navegação durante condições normais e uma muralha monumental quando o mar ameaça avançar sobre o interior do país.
Cada porta é praticamente uma estrutura industrial inteira em movimento
Os números das duas comportas ajudam a entender por que o Rijkswaterstaat trata a obra como excepcional.
Cada uma mede 210 metros de largura, 22 metros de altura e 15 metros de profundidade. Uma única porta é maior em comprimento que muitos edifícios altos quando deitados.
Assista o vídeo
Mas ela não se movimenta como uma comporta convencional que simplesmente sobe ou desce verticalmente.
Cada parede está conectada a uma enorme estrutura metálica articulada que permite que ela gire horizontalmente, saindo da margem e avançando sobre a água. As duas metades partem simultaneamente de lados opostos.
Quando se aproximam do centro, aquilo que poucos minutos antes era uma hidrovia aberta começa a se transformar numa barreira contra o oceano.
Articulações esféricas têm 10 metros de diâmetro e pesam 680 toneladas
Talvez a peça mais extraordinária de toda a construção esteja nas extremidades dos braços. A Maeslantkering utiliza articulações esféricas com aproximadamente 10 metros de diâmetro e 680 toneladas de massa.
Em essência, cada conjunto funciona de maneira semelhante a uma gigantesca articulação do corpo humano.
A diferença é a escala. Em vez de movimentar um braço ou uma perna, cada articulação precisa permitir o deslocamento controlado de uma estrutura metálica com centenas de metros submetida simultaneamente à gravidade, vento, correnteza e pressão da água.
Os 10 metros de diâmetro significam que a própria esfera é comparável em altura a um prédio de aproximadamente três andares. E cada unidade pesa mais do que diversos aviões comerciais de grande porte juntos.
Quando chega ao centro, a porta ainda precisa afundar
Mover as estruturas horizontalmente não é suficiente para interromper a passagem da água. Quando as duas comportas chegam à posição de fechamento, compartimentos internos começam a receber água.
O peso adicional reduz a flutuabilidade e faz com que as portas afundem lentamente até repousarem sobre a estrutura preparada no fundo da hidrovia.
Segundo o Rijkswaterstaat, o processo completo leva aproximadamente duas horas.
É somente depois desse afundamento que a barreira assume plenamente sua função contra a tempestade.
Passada a ameaça, a água utilizada como lastro é removida. As portas voltam a flutuar e podem ser movimentadas novamente para suas docas laterais, reabrindo o caminho para a navegação.
Estrutura foi projetada para enfrentar uma elevação de até 5 metros acima do nível de referência
O Rijkswaterstaat informa que a Maeslantkering foi concebida para enfrentar uma maré de tempestade de até 5 metros acima do NAP, o nível de referência utilizado nos Países Baixos.
Quando ventos fortes empurram grandes volumes de água do Mar do Norte em direção à costa neerlandesa, o nível marítimo pode subir rapidamente.
Ao mesmo tempo, rios precisam continuar escoando água em direção ao oceano. Essa combinação pode elevar perigosamente os níveis nas regiões próximas a Rotterdam e Dordrecht.
A função da barreira é interromper temporariamente a entrada adicional de água marítima antes que ela pressione ainda mais os diques e áreas baixas do interior.
Computadores podem decidir o momento de fechar as duas estruturas
Outra característica incomum é que o sistema foi projetado para operar automaticamente. O Rijkswaterstaat estabelece níveis oficiais de fechamento. Se a previsão indicar que a água chegará a 3 metros acima do NAP em Rotterdam ou 2,9 metros em Dordrecht, a Maeslantkering inicia o procedimento automático de fechamento.
Isso não significa que engenheiros simplesmente abandonem o controle.
Quando existe previsão de água elevada, equipes especializadas ficam presentes para acompanhar todos os sistemas e intervir manualmente caso ocorra alguma anomalia.
Mas a decisão operacional e a sequência normal de fechamento foram concebidas para serem realizadas pelo próprio sistema.
Em uma estrutura que precisa funcionar justamente durante algumas das condições meteorológicas mais severas possíveis, a confiabilidade da automação é tão importante quanto o tamanho do aço utilizado.
Em dezembro de 2023, as portas gigantes fecharam automaticamente contra o Mar do Norte
Na noite de 21 de dezembro de 2023, a Maeslantkering entrou efetivamente em ação sob as condições para as quais havia sido construída.
Assista o vídeo
Às 22h15, as duas estruturas estavam fechadas. Foi a primeira vez que a barreira completou automaticamente um fechamento provocado pelo nível real de água previsto acima do limite operacional normal.
O episódio também produziu uma situação inédita. As seis barreiras contra tempestades administradas pelo Rijkswaterstaat ficaram fechadas naquela noite em resposta às condições de água elevada.
Depois que a tempestade passou e o nível da água diminuiu, a Maeslantkering voltou a abrir. Décadas de manutenção, simulações e testes anuais haviam servido justamente para aquele momento.
Cerca de 2 milhões de pessoas dependem do sistema de proteção
A importância da obra não pode ser compreendida apenas olhando para as portas. O Rijkswaterstaat afirma que a Maeslantkering ajuda a proteger aproximadamente 2 milhões de habitantes da Holanda do Sul contra inundações provocadas pelo Mar do Norte.
A região inclui Rotterdam, Dordrecht e extensas áreas urbanizadas, industriais e agrícolas.
Os Países Baixos têm uma relação particularmente delicada com a água porque grandes áreas do território estão próximas ou abaixo do nível do mar.
Por isso, a Maeslantkering não trabalha isoladamente.
Ela faz parte dos Deltawerken, o enorme conjunto neerlandês de barragens, diques, comportas e barreiras desenvolvido para reduzir o risco de novas catástrofes.
A tragédia de 1953 mudou para sempre a engenharia hidráulica do país
O pano de fundo histórico é a devastadora inundação do Mar do Norte de 1953, que atingiu principalmente Países Baixos, Reino Unido e Bélgica.
Nos Países Baixos, o desastre mostrou que o sistema de proteção existente era insuficiente diante de uma combinação extrema de tempestade e maré. Nas décadas seguintes surgiu o ambicioso programa Delta Works.
Diversas entradas marítimas foram fechadas, barragens foram construídas e barreiras móveis começaram a modificar a relação física entre o país e o mar.
A Maeslantkering foi a última grande obra concluída dentro desse conjunto histórico.
Ela foi construída entre 1991 e 1997 e, junto com a Hartelkering e o reforço do dique de Rozenburg, forma a chamada Europoortkering.
Todos os anos, a Holanda fecha a estrutura apenas para conferir se ela ainda funciona
Uma barreira usada raramente enfrenta um problema peculiar: ela precisa estar pronta mesmo depois de passar longos períodos sem executar sua missão real.
Por isso, o Rijkswaterstaat realiza uma prova de funcionamento todos os anos em setembro, antes do início da temporada de tempestades.
As duas portas são efetivamente movimentadas.
Sistemas de controle, motores, articulações, estruturas metálicas e procedimentos das equipes são verificados.
Também existe uma chamada verificação de fechamento quando passam sete anos sem uma operação sob tempestade adequada para realizar esse tipo de avaliação.
A lógica é simples: uma estrutura projetada para proteger milhões de pessoas não pode descobrir que uma peça deixou de funcionar justamente quando o mar já está subindo.
Manutenção de uma estrutura desse tamanho nunca termina
A escala transforma até uma pintura anticorrosiva em uma obra de engenharia. Em 2024, o Rijkswaterstaat iniciou a aplicação de uma nova camada de proteção nas estruturas metálicas da Maeslantkering.
O trabalho foi planejado para durar três anos, em grande parte porque as intervenções de grande porte só podem ocorrer durante a janela entre 15 de abril e 15 de agosto, fora da temporada principal de tempestades.
Depois disso, tudo precisa estar novamente disponível para o teste anual de setembro e para o período de maior risco que começa em outubro.
A nova proteção foi projetada para oferecer aproximadamente mais duas décadas de serviço antes que outra grande intervenção semelhante seja necessária.
Duas estruturas de 210 metros transformam uma hidrovia aberta em muralha contra o oceano
A Maeslantkering é uma megaestrutura incomum porque passa a maior parte de sua existência sem bloquear nada.
Sua função cotidiana é justamente permitir que uma das rotas marítimas mais importantes da Europa permaneça aberta. Mas quando o Mar do Norte ameaça o interior dos Países Baixos, a escala da engenharia aparece.
Duas portas de 210 metros de largura e 22 metros de altura deixam suas docas. Articulações esféricas de 10 metros e 680 toneladas permitem o movimento. As estruturas encontram-se sobre a hidrovia, recebem água dentro dos compartimentos e afundam até o fundo em um processo que leva aproximadamente duas horas.
Atrás delas estão Rotterdam, Dordrecht e uma região onde vivem aproximadamente 2 milhões de pessoas.
À frente está o Mar do Norte.
E entre ambos existe uma das maiores estruturas móveis já construídas pela engenharia hidráulica, concebida para fazer algo que parece simples apenas até observar seus números: fechar temporariamente o caminho do oceano inteiro sem fechar permanentemente o caminho dos navios.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

