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Depois de estudar só até a 4ª série e começar a trabalhar aos 13 anos, mulher conciliou creche, supletivo e faxina até 1h30, ganhou bolsa no cursinho onde limpava, passou em 1º lugar na PUC-Campinas e se formou em Pedagogia na Unicamp
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 12/08/2026 às 17:51
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Trajetória marcada pela interrupção precoce dos estudos, jornadas duplas de trabalho e dificuldades financeiras atravessou supletivo, cursinho, vestibular e universidade pública, reunindo episódios pouco comuns de persistência educacional e mudanças profissionais que transformaram uma rotina exaustiva em novas possibilidades acadêmicas.
Marinalva Imaculada Cuzin deixou a escola depois dos primeiros quatro anos de estudo e começou a trabalhar formalmente aos 13 anos, mas retomou a educação quando já precisava conciliar emprego, filhos e uma rotina diária que frequentemente avançava pela madrugada.
Durante o dia, trabalhava em uma creche; à noite, frequentava o supletivo e, quando a maioria das pessoas já encerrava as atividades, seguia para uma segunda jornada de faxina, das 23h à 1h30, em um cursinho ligado ao DCE da Unicamp.
Foi justamente no espaço onde trabalhava como faxineira que surgiu a oportunidade de estudar com bolsa, passo que antecedeu o primeiro lugar no vestibular da PUC-Campinas e a posterior escolha pelo curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Campinas.
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Registrada pela Folha de S.Paulo na época de sua formatura, a sequência mostra que Marinalva chegou ao fim da graduação aos 36 anos, mãe de três filhos, depois de enfrentar dificuldades financeiras que continuaram mesmo após seu ingresso no ensino superior.
Da 4ª série ao primeiro emprego aos 13 anos
Criada pelos avós maternos, Marinalva frequentou somente os quatro primeiros anos do então ensino básico, e a necessidade de contribuir com as despesas domésticas fez com que sua entrada no mercado de trabalho acontecesse muito antes da conclusão da escolaridade regular.
Para conseguir o primeiro emprego com carteira assinada aos 13 anos, ela precisou de autorização judicial, passando então a trabalhar como empacotadora em uma loja de roupas de Campinas, no interior paulista, enquanto os estudos permaneciam interrompidos.
Nos anos seguintes, outras ocupações passaram a compor sua rotina, entre elas o trabalho como caixa de drogaria, até que, aos 18 anos, surgiu uma vaga como monitora de educação infantil na prefeitura, atividade que ocupava praticamente todo o período diurno.
Embora o emprego trouxesse uma fonte regular de renda, a escolarização que havia ficado para trás continuava sendo uma questão aberta, levando Marinalva a reorganizar o cotidiano para recuperar etapas de ensino enquanto mantinha responsabilidades profissionais e familiares.
Supletivo, creche e faxina durante a madrugada
Aos 23 anos, sua agenda passou a concentrar três compromissos distintos no mesmo dia: o trabalho na creche, os estudos pelo supletivo durante a noite e, depois das 23h, uma segunda atividade profissional como faxineira de um cursinho vestibular.
Mantido pelo Diretório Central dos Estudantes da Unicamp, o cursinho onde ela fazia a limpeza encerrava mais uma jornada por volta de 1h30 da madrugada, horário em que Marinalva finalmente podia retornar para casa após atravessar trabalho e estudo quase sem intervalos.
Com o passar do tempo, aquele ambiente deixou de representar apenas uma fonte complementar de renda e passou a ocupar outro papel em sua trajetória, porque a convivência diária com o cursinho abriu caminho para que ela também pudesse frequentar as aulas preparatórias.
Depois de concluir etapas necessárias da formação escolar e cursar o magistério, Marinalva conseguiu uma bolsa para estudar no mesmo cursinho onde trabalhava fazendo faxina, transformando o espaço da jornada noturna em parte direta de sua preparação para o vestibular.
Primeiro lugar na PUC-Campinas e escolha pela Unicamp
O resultado dessa preparação apareceu de maneira concreta no processo seletivo: Marinalva conquistou o primeiro lugar no vestibular da PUC-Campinas, desempenho que colocou diante dela a possibilidade real de ingressar no ensino superior depois de tantos anos afastada do percurso escolar convencional.
Apesar da colocação obtida, a escolha final foi diferente, porque a Universidade Estadual de Campinas oferecia ensino público e não exigia o pagamento de mensalidades, fator decisivo para que ela optasse por cursar Pedagogia na Unicamp.
A entrada na universidade, no entanto, não eliminou as dificuldades materiais que acompanhavam sua rotina, e mudanças ocorridas durante a graduação acabaram atingindo diretamente sua situação de moradia, aumentando a pressão financeira enquanto ela tentava permanecer no curso.
Depois de deixar a casa onde vivia, acompanhada de uma das filhas, Marinalva ficou sem condições de pagar aluguel e procurou abrigo na moradia estudantil, recorrendo à própria estrutura universitária enquanto buscava uma alternativa que permitisse continuar os estudos.
Oito meses em uma sala de estudos da universidade
Como não havia participado do processo regular destinado à obtenção de uma vaga no alojamento, a permanência inicial naquele espaço ocorreu de maneira irregular e terminou poucos dias depois, obrigando mãe e filha a procurar outra solução dentro da universidade.
Após deixar o alojamento, as duas passaram a permanecer provisoriamente em uma sala de estudos, situação que, embora inicialmente temporária, se prolongou por aproximadamente oito meses enquanto Marinalva mantinha a matrícula e buscava condições financeiras mais estáveis.
Nesse período, parte da renda vinha de uma bolsa-trabalho recebida para executar serviços gerais na biblioteca, atividade que permitia manter alguma sustentação financeira enquanto ela seguia frequentando a graduação e enfrentava momentos em que faltava dinheiro até para despesas consideradas básicas.
Mais adiante, a obtenção de um emprego com remuneração maior permitiu que Marinalva alugasse um imóvel em Barão Geraldo, distrito de Campinas onde fica o principal campus da Unicamp, encerrando aquela fase de instabilidade de moradia durante a formação universitária.
A partir dessa mudança, o curso prosseguiu com apoio de pessoas próximas e auxílio para despesas relacionadas aos estudos, até que ela completasse os cinco anos da graduação em Pedagogia, consolidando uma etapa iniciada muitos anos depois da interrupção escolar.
Da graduação à alfabetização de adultos
Já perto do fim do curso, a relação de Marinalva com a educação ultrapassou sua própria condição de estudante, pois ela começou a atuar profissionalmente em atividades que envolviam diretamente o ensino e a alfabetização de pessoas adultas.
No período noturno, trabalhava no presídio Ataliba Nogueira, em Hortolândia, na Região Metropolitana de Campinas, onde era responsável por atividades de alfabetização de adultos, ao mesmo tempo em que mantinha vínculos com pesquisas relacionadas à educação dentro da Unicamp.
Assim, a mulher que havia interrompido a escolarização depois dos primeiros anos do ensino básico passou a ocupar uma função diretamente ligada à aprendizagem de outras pessoas, enquanto construía experiência profissional na mesma área acadêmica escolhida para sua graduação.
Paralelamente, as atividades de pesquisa desenvolvidas na universidade ampliavam sua ligação com o campo educacional, acrescentando uma dimensão acadêmica a uma trajetória que começou com o retorno ao supletivo e passou pelas madrugadas de faxina em um cursinho vestibular.
Formatura em Pedagogia aos 36 anos
Na cerimônia que marcou o término da graduação, outro episódio ganhou destaque: Marinalva foi escolhida pelos colegas para fazer o juramento em nome da turma de Pedagogia, assumindo uma posição central justamente no momento que simbolizava a conclusão do curso.
O diploma chegou aos 36 anos, depois de um percurso que havia começado com o trabalho aos 13, passado por atividades no comércio e na educação infantil e avançado pela retomada dos estudos, pelo supletivo e pela preparação para o vestibular.
Entre esses diferentes capítulos, permanecia um elo particularmente incomum: o mesmo cursinho em que Marinalva trabalhava até 1h30 da madrugada fazendo faxina foi também o local onde recebeu a bolsa que contribuiu para sua preparação acadêmica.
Depois do primeiro lugar obtido na PUC-Campinas, a escolha pela Unicamp colocou Marinalva dentro da instituição em torno da qual parte de sua rotina profissional e educacional já havia se desenvolvido, agora na condição de estudante universitária de Pedagogia.
O espaço que antes aparecia em sua vida principalmente por causa do emprego noturno passou, dessa maneira, a integrar sua formação acadêmica e, posteriormente, suas atividades ligadas à pesquisa e à educação de adultos.
Mesmo após receber o diploma, os estudos continuavam entre seus planos, e, na época da formatura, Marinalva já se preparava para ingressar em uma etapa de pós-graduação, prolongando a trajetória educacional retomada depois de anos de afastamento da escola.
Quantas pessoas que hoje trabalham nos bastidores de escolas, cursinhos e universidades podem estar construindo, longe dos holofotes, um caminho semelhante até uma sala de aula do outro lado da porta?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

