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Depois de passar quase 30 anos numa gaiola de apenas 4 metros quadrados, urso Ben foi resgatado no Vietnã abaixo do peso, com dente quebrado e sinais de exploração para retirada de bile, e finalmente ganhou acesso a um santuário especializado
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 28/08/2026 às 22:50
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Urso Ben passou quase 30 anos numa gaiola de apenas 4 m² no Vietnã, chegou ao resgate abaixo do peso e com vesícula inflamada antes de ser levado a um santuário especializado.
Durante praticamente três décadas, o urso-negro-asiático Ben viveu dentro de uma gaiola metálica de apenas 4 metros quadrados em um quintal particular na província de Son La, no Vietnã. O recinto tinha espaço tão limitado que, segundo a organização FOUR PAWS, o animal mal conseguia se virar, não possuía acesso direto a água potável, abrigo adequado contra mudanças climáticas ou qualquer estrutura de enriquecimento ambiental.
Quando uma equipe veterinária chegou para examiná-lo em 2019, Ben tinha aproximadamente 30 anos e carregava no corpo marcas daquele confinamento. Estava abaixo do peso, apresentava pouca massa muscular, tinha um canino quebrado e uma inflamação crônica na vesícula biliar, considerada pela equipe um forte indicativo de que havia sido submetido à retirada de bile. Em dezembro daquele ano, uma viagem de cerca de 200 quilômetros finalmente o levou ao Bear Sanctuary Ninh Binh.
Ben entrou na gaiola ainda jovem e praticamente envelheceu dentro dela
A FOUR PAWS descreve Ben como um animal que passou quase toda a vida naquele mesmo espaço de 4 m².
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Ele teria chegado ao cativeiro ainda jovem e permaneceu cercado por grades, piso metálico e duas paredes de concreto durante quase três décadas. O recinto era mal higienizado, apresentava fezes mofadas e ainda havia lixo acumulado ao redor da estrutura.
Não existiam árvores para escalar, solo onde pudesse cavar, lago para entrar na água ou locais adequados para se esconder.
Para uma espécie adaptada a circular por ambientes florestais complexos, a diferença entre comportamento natural e aquele espaço era enorme.
Gaiola tinha somente 4 metros quadrados
Esse é talvez o número que melhor dimensiona a história. Quatro metros quadrados correspondem, por exemplo, a um espaço de 2 metros por 2 metros. Era aproximadamente essa área que Ben possuía para permanecer durante anos.
A organização afirma que havia pouco espaço até mesmo para o urso virar o próprio corpo. Além disso, ele permanecia sobre barras metálicas, sem acesso direto a água para beber e sem proteção apropriada contra alterações do clima.
Ben também não recebia objetos ou estruturas que estimulassem comportamentos comuns da espécie. O resultado foi um animal que chegou à velhice tendo conhecido principalmente concreto e metal.
Vesícula inflamada levantou forte suspeita de extração de bile
O exame realizado antes da transferência revelou um problema especialmente significativo. Uma ultrassonografia mostrou que Ben apresentava inflamação crônica da vesícula biliar.
A veterinária Szilvia Kalogeropoulu, responsável pela avaliação citada pela FOUR PAWS, classificou a condição como um forte indicador de exploração anterior para retirada de bile. A organização afirma que Ben havia sido utilizado regularmente para esse fim.
Segundo as informações obtidas durante o resgate, o antigo responsável pelo animal teria interrompido as extrações em 2015, quatro anos antes de entregá-lo voluntariamente à organização. Ben, entretanto, continuou confinado até 2019.
Bile de urso alimentou durante anos um mercado ligado à medicina tradicional
O caso de Ben faz parte de um problema muito maior no Vietnã. A bile contém ácido ursodesoxicólico, substância utilizada medicinalmente, mas que também pode ser produzida sinteticamente.
Apesar da existência de alternativas, a bile extraída de ursos permaneceu associada a determinadas práticas de medicina tradicional em partes da Ásia.
Assista o vídeo
A FOUR PAWS informa que a produção e comercialização desse material foram proibidas no Vietnã, embora animais registrados anteriormente tenham permanecido em propriedades privadas, dificultando sua retirada sem o consentimento dos responsáveis.
Essa particularidade jurídica ajuda a explicar por que alguns ursos permaneceram durante anos nas antigas fazendas mesmo depois das mudanças na legislação.
Um dos dentes havia quebrado depois de anos mordendo as grades
A boca de Ben também carregava uma consequência física do confinamento. Um de seus dentes caninos estava quebrado.
A equipe veterinária relacionou a lesão ao comportamento repetitivo de morder as barras metálicas da gaiola ao longo dos anos. Também existia suspeita de artrose na coluna, que exigiria exames mais detalhados depois da chegada ao santuário.
Seu estado corporal igualmente preocupava.
Ben estava abaixo do peso e apresentava baixa musculatura, indicando que a recuperação não terminaria simplesmente com a abertura da porta da gaiola.
Resgate aconteceu em dezembro de 2019
Depois da autorização do proprietário, a operação avançou rapidamente. Em 3 de dezembro de 2019, Ben deixou Son La e iniciou uma viagem de aproximadamente 200 quilômetros até Ninh Binh.
O primeiro destino dentro do santuário não foi diretamente uma grande área externa.
Ben passou por quarentena e acompanhamento veterinário para permitir que a equipe avaliasse seu estado clínico, adaptação e necessidade de tratamentos adicionais.
Logo após o resgate, a FOUR PAWS registrou que ele apresentou apetite e recebeu alimentos como abóbora, batata-doce, banana e sopa de arroz, enquanto os responsáveis tentavam ajudá-lo a recuperar peso.
Santuário foi projetado para chegar a 10 hectares
A mudança de escala era enorme. O Bear Sanctuary Ninh Binh havia sido oficialmente inaugurado pela FOUR PAWS em março de 2019 e foi planejado para ocupar até 10 hectares, ou 100 mil metros quadrados, quando totalmente desenvolvido. A capacidade projetada era de até 100 ursos resgatados.
A estrutura inclui clínica veterinária, área de quarentena, casas internas para os animais e grandes recintos externos.
Nesses espaços existem árvores, lagos, estruturas para escalada e locais para esconderijo, permitindo comportamentos impossíveis em gaiolas de poucos metros quadrados.
Não significa retorno à natureza selvagem. Esses animais continuam dependentes de cuidados humanos, mas passam a viver em ambientes desenhados especificamente para suas necessidades biológicas.
Caso de Ben ocorreu quando centenas de ursos ainda permaneciam confinados
Quando Ben foi retirado, em 2019, a situação ainda tinha dimensões muito maiores. Naquele período, a FOUR PAWS estimava que aproximadamente 450 ursos permaneciam em fazendas ou outros tipos de cativeiro no Vietnã.
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O cenário mudou significativamente nos anos seguintes. Uma atualização publicada pela organização em janeiro de 2025 afirma que o número de ursos mantidos em fazendas caiu de aproximadamente 4.300 animais em 2005 para 180 no final de dezembro de 2024, uma redução de cerca de 96%.
Isso não significa que a prática desapareceu completamente, mas mostra a escala da transformação ocorrida em duas décadas.
No santuário, até procurar alimento passa a ser parte da recuperação
Um santuário especializado não fornece apenas espaço. O enriquecimento ambiental pode envolver esconder alimentos, alterar locais onde eles são oferecidos e disponibilizar troncos, estruturas, vegetação e elementos naturais que incentivem o animal a explorar.
A própria FOUR PAWS passou a mostrar Ben interagindo com formas de enriquecimento depois do resgate. A organização relatou que, após décadas vendo essencialmente grades e concreto, ele começou a explorar o novo ambiente de maneira cautelosa.
Para um animal com histórico tão prolongado de confinamento, a adaptação é gradual.
O objetivo não é obrigá-lo a utilizar imediatamente todo o espaço disponível, mas permitir que tenha algo que durante décadas praticamente não existiu: escolha.
De 4 m² para um projeto de 100 mil m²
A trajetória de Ben possui muitos números extraordinários, mas dois resumem a dimensão da mudança. Durante quase 30 anos, sua vida esteve concentrada em uma gaiola de aproximadamente 4 m².
Depois do resgate, ele foi levado para uma instituição projetada para chegar a 10 hectares, o equivalente a 100 mil m², com recintos naturais, lagos, árvores, estruturas de escalada e atendimento veterinário especializado.
Ele chegou ao processo abaixo do peso, com pouca massa muscular, um dente canino quebrado e uma vesícula cronicamente inflamada.
A porta aberta em dezembro de 2019, portanto, não apagou quase três décadas de confinamento.
Mas encerrou uma rotina que havia começado quando Ben ainda era jovem e continuado até ele se tornar um urso de aproximadamente 30 anos.
Depois de passar quase a vida inteira sobre barras de metal em quatro metros quadrados, sua recuperação começou com algo que parece banal para um animal selvagem: espaço para caminhar, água, vegetação e a possibilidade de escolher para onde ir.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

