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Leoa tem os dedos cortados ainda filhote para impedir que as garras cresçam em circo na Guatemala, passa cerca de oito anos mancando com dor, desenvolve infecção, fibrossarcoma e lesões ósseas na perna, até ser resgatada, receber um implante de titânio na África do Sul e finalmente voltar a brincar sem dor
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 28/08/2026 às 23:42
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Sasha teve os dedos cortados em um circo, viveu anos com dor e câncer na perna e recebeu implante de titânio após ser resgatada.
Em 2018, a leoa Sasha foi retirada de um circo na Guatemala durante a Operation Liberty, missão conduzida pela Animal Defenders International (ADI) para auxiliar na retirada de animais dos circos após a proibição nacional. Quando a equipe conseguiu examiná-la, percebeu imediatamente que havia algo errado: Sasha mancava. A origem estava numa prática realizada quando ela ainda era jovem para impedir o crescimento das garras. Seus dedos haviam sido cortados, mas parte de um deles permaneceu danificada, esmagada e infectada. A ADI afirma que Sasha conviveu com a dor durante anos antes que o problema fosse finalmente tratado.
Dois anos depois, já transferida para o ADI Wildlife Sanctuary, na África do Sul, Sasha enfrentaria uma cirurgia extremamente complexa. Exames haviam identificado um fibrossarcoma, lesões ósseas e uma fratura associada a um cisto na perna.
O veterinário Peter Caldwell retirou aproximadamente 8 centímetros de osso comprometido e utilizou titânio e cimento ósseo para reconstruir a região. A operação permitiu algo que parecia cada vez mais difícil: manter a perna e oferecer à leoa uma vida sem a dor que havia marcado praticamente toda a sua juventude.
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Sasha teve os dedos cortados para impedir que suas garras crescessem
A origem de todo o problema estava numa intervenção realizada durante sua vida circense. A ADI descreve que Sasha passou por um procedimento de declawing, no qual partes dos dedos foram removidas para impedir o crescimento das garras. Em grandes felinos, trata-se de uma alteração muito mais invasiva do que simplesmente aparar unhas.
No caso de Sasha, o procedimento deixou um fragmento de dedo lesionado. Quando os profissionais da ADI finalmente tiveram acesso ao animal, encontraram a região comprometida e infectada. A leoa já apresentava uma claudicação permanente, andando de maneira desigual para evitar apoiar normalmente a pata afetada.
A organização afirma que o problema começou ainda quando Sasha era filhote. Em atualização publicada em 2024, a ADI descreveu aproximadamente oito anos de dor e dificuldade para caminhar antes que o tratamento definitivo permitisse aliviar a condição.
Por anos, Sasha aprendeu a caminhar evitando a pata lesionada
Mancar não era apenas um sinal visível da lesão. Ao longo dos anos, o corpo de Sasha começou a se adaptar à maneira anormal de caminhar. Ela modificava a distribuição do peso para reduzir o desconforto na pata comprometida.
Essa compensação deixaria uma sequela que permaneceria mesmo depois da cirurgia. A ADI informa que os tendões da perna encurtaram em consequência dos anos de claudicação. Por isso, mesmo após ficar livre da dor e do câncer, Sasha continuou andando de maneira diferente.
A mudança importante é que a claudicação posterior não representa a mesma situação existente no circo. O santuário afirma que Sasha continua mancando, mas não sente mais a dor constante que tinha anteriormente.
Resgate revelou que o problema era muito mais grave do que parecia
A princípio, a equipe sabia apenas que Sasha mancava. Depois de retirá-la do circo, profissionais realizaram ultrassonografias e radiografias no centro temporário de resgate instalado pela ADI na Guatemala. Os exames permitiram localizar os restos do dedo lesionado.
A parte comprometida foi removida em uma primeira cirurgia realizada ainda na Guatemala.
Foi durante essa etapa que surgiu uma descoberta mais preocupante: os veterinários diagnosticaram um câncer de evolução lenta, posteriormente identificado nos relatos da organização como fibrossarcoma.
A lesão deixou de ser apenas um problema na pata
O quadro exigiria acompanhamento muito além da primeira cirurgia. A ADI relata que, após a remoção do dedo afetado, Sasha continuou sendo monitorada porque os veterinários sabiam que seriam necessários equipamentos mais avançados para avaliar adequadamente a perna.
Quando posteriormente passou por exames na África do Sul, não havia evidência de que o fibrossarcoma original tivesse se espalhado para os pulmões ou outros órgãos. Entretanto, havia outro problema grave: um cisto ósseo havia provocado uma fratura na perna.
A combinação de danos antigos, alterações ósseas e histórico de câncer criou um desafio veterinário incomum.
Guatemala havia iniciado retirada de animais dos circos
O resgate de Sasha ocorreu dentro de uma operação muito maior.
A Guatemala havia proibido o uso de animais em circos, e a ADI iniciou uma missão que duraria aproximadamente 18 meses para auxiliar as autoridades a retirar leões e tigres dos espetáculos e organizar um destino permanente para eles.
Sasha e Kimba estiveram entre os primeiros animais retirados de um dos circos. A própria organização registra que o Circo Navarro entregou voluntariamente seus animais após a mudança legal.
Enquanto não podiam deixar o país, os animais permaneceram em um centro temporário criado pela ADI na Guatemala, onde receberam áreas de exercício, atendimento veterinário e enriquecimento ambiental.
Pela primeira vez, Sasha saiu da gaiola e pisou na grama
Uma das primeiras mudanças aconteceu ainda antes da viagem para a África.
Em agosto de 2018, registros da operação mostraram Sasha saindo cautelosamente para uma área com grama, em um espaço preparado para os grandes felinos retirados dos circos.
A ADI descreveu aquele local como o maior espaço que alguns daqueles animais haviam conhecido até então.
Assista o vídeo
Havia pneus suspensos, feno, objetos para interação e espaço suficiente para que os leões começassem a correr e fortalecer músculos pouco utilizados.
Sasha foi descrita como a primeira das leoas do grupo a entrar cuidadosamente na área gramada antes de começar a explorar o ambiente.
Mesmo no santuário, Sasha continuava precisando de analgésicos
A mudança de continente não eliminou automaticamente aquilo que anos de lesão haviam causado.
No santuário, Sasha passou a ser monitorada e recebeu medicação para controlar a dor provocada pela claudicação enquanto os veterinários aprofundavam a investigação de sua perna.
Peter Caldwell solicitou radiografias, exames sanguíneos e análises de tecidos. A intenção era avaliar até onde o dano havia avançado e determinar se seria possível preservar a perna.
A alternativa escolhida foi uma reconstrução cirúrgica incomum e tecnicamente complexa.
Cirurgia retirou 8 centímetros de osso comprometido
Em novembro de 2020, Sasha entrou em cirurgia. O procedimento durou várias horas. O veterinário retirou aproximadamente 8 centímetros de osso danificado da perna e substituiu a área comprometida utilizando um implante de titânio combinado com cimento ósseo.
Todo tecido e osso retirados foram encaminhados para novos testes.
A preocupação principal era descobrir se ainda havia doença ativa e, simultaneamente, produzir uma estrutura suficientemente resistente para permitir que um animal do tamanho de uma leoa voltasse a apoiar a pata.
Exames não encontraram câncer nos pulmões ou em outros órgãos
Depois da operação surgiu uma notícia importante. Segundo a ADI, os exames realizados naquele momento não encontraram vestígios do fibrossarcoma original nem câncer nos pulmões ou em outros órgãos.
Isso não tornava a recuperação simples. Sasha tinha acabado de passar por uma reconstrução óssea extensa e precisaria permanecer sob observação constante.
A estimativa inicial era de aproximadamente quatro a seis semanas de internação, mas ela permaneceu no hospital por cerca de dois meses antes de voltar ao santuário.
Dois meses depois, Sasha voltou para casa com titânio na perna
Em 15 de janeiro de 2021, a ADI anunciou que Sasha estava novamente no santuário.
A recuperação continuaria de maneira progressiva. Inicialmente, ela permaneceria na instalação noturna e depois ganharia acesso a um recinto portátil de reabilitação construído especialmente para ampliar gradualmente o exercício.
A equipe evitou aumentar rapidamente as distâncias percorridas.
Depois de anos alterando sua forma de caminhar, seria necessário fortalecer o membro reconstruído sem sobrecarregar a região operada.
Bolas e brinquedos viraram parte da fisioterapia
Foi então que algo aparentemente simples ganhou função médica. Grandes bolas resistentes, estruturas para subir e outros objetos de enriquecimento começaram a ser usados como parte da fisioterapia da pata com titânio.
Quando Sasha empurra uma bola, sobe em plataformas ou se desloca atrás de um brinquedo, utiliza músculos e articulações que precisam continuar ativos.
A equipe esperava que a movimentação progressiva também ajudasse a alongar os tendões encurtados e melhorar sua mobilidade ao longo do tempo.
A leoa que passou anos evitando apoiar a pata voltou a brincar
Em maio de 2021, poucos meses depois da cirurgia, a ADI já publicava Sasha interagindo com melancias e caixas com catnip enquanto seguia sua recuperação.
Em 2022, bolas especialmente resistentes passaram a funcionar simultaneamente como enriquecimento e exercício terapêutico.
No ano seguinte, o santuário instalou um novo centro de brincadeiras para ela, com estruturas e objetos planejados para estimular o uso da perna reconstruída.
Em 2024, Sasha tinha 12 anos e continuava subindo em plataformas
Uma atualização publicada pela ADI em julho de 2024 mostrava como a história havia mudado.
Sasha estava então com aproximadamente 12 anos, continuava com a característica claudicação, mas era descrita como sem dor e capaz de saltar para suas plataformas.
Ela também passou a viver próxima de Tomas e Kimba, outros leões retirados do mesmo contexto circense na Guatemala.
Segundo o santuário, pela manhã os três podiam ser observados correndo ao longo da cerca que separa seus habitats.
Sasha continua listada entre os leões do santuário
A página atual de animais do ADI Wildlife Sanctuary continua listando Sasha, ao lado de Kimba e Tomas, entre os leões retirados dos circos guatemaltecos e levados para a África do Sul.
O habitat destinado a ela é descrito pelo santuário como tendo aproximadamente 1 hectare, equivalente a cerca de 10 mil m².
É uma realidade completamente diferente daquela na qual a lesão começou.
O implante de titânio não apagou oito anos de dano, mas eliminou a dor que moldou sua vida
A história de Sasha não terminou com uma recuperação perfeita. Ela ainda manca. Os tendões encurtados durante anos não voltaram simplesmente ao estado original, e sua mobilidade continua sendo acompanhada.
Mas a diferença entre antes e depois é profunda.
A leoa que teve partes dos dedos cortadas para impedir o crescimento das garras passou anos ajustando cada passo para suportar uma pata lesionada. Quando finalmente foi examinada após o resgate, havia infecção, um câncer local e posteriormente lesões ósseas suficientemente graves para contribuir para uma fratura.
Veterinários retiraram 8 centímetros de osso comprometido, reconstruíram a perna utilizando titânio e cimento ósseo e acompanharam uma recuperação que levou meses.
Hoje, quando Sasha empurra bolas, corre ao lado da cerca ou sobe numa plataforma, ainda é possível perceber a sequela em sua maneira de caminhar.
Mas, segundo a atualização do próprio santuário, ela faz tudo isso sem a dor que havia acompanhado praticamente toda a primeira parte de sua vida.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

