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Ex-empregada doméstica que deixou a escola na quarta série para ajudar o pai agricultor retoma os estudos décadas depois e chega à graduação em Enfermagem na mesma turma da filha de 23 anos
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 04/08/2026 às 16:48
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Depois de décadas longe da escola, Ana Maria transformou uma carreira construída com esforço em um novo começo acadêmico e encontrou na filha Fernanda uma parceira para enfrentar provas, laboratórios e a reta final da faculdade.
Poucas histórias começam tão cedo.
Ainda criança, Ana Maria da Silva deixou a escola na antiga quarta série para trabalhar e ajudar o pai agricultor no interior de Pernambuco. Décadas depois, aos 50 anos, chegou à reta final da graduação em Enfermagem na mesma turma da filha, Fernanda Silva, de 23.
Entre um momento e outro, vieram a mudança para São Paulo, os empregos como doméstica e faxineira, a maternidade, o curso técnico e cerca de 15 anos de experiência na saúde.
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A virada ganhou força em 2022, quando mãe e filha entraram juntas na Universidade Cidade de São Paulo, a Unicid. O que poderia ser uma coincidência virou uma parceria construída entre livros, laboratórios e estágios.
A escola ficou para trás na quarta série
Ana cresceu no interior de Pernambuco e precisou abandonar os estudos para ajudar o pai no trabalho agrícola. A saída da escola não aconteceu por falta de interesse, mas pela necessidade de contribuir com a família.
Em 1993, mudou-se para São Paulo em busca de oportunidades. Na capital, trabalhou como empregada doméstica, auxiliar de limpeza e cuidadora.
Durante o período em que fazia faxinas em uma escola, uma diretora percebeu seu potencial e a incentivou a voltar a estudar. O conselho abriu uma possibilidade que parecia distante havia anos.
O curso técnico mudou sua trajetória
Ana já era mãe e tinha renda limitada quando decidiu fazer o curso técnico de Enfermagem. Para conciliar trabalho, estudo e os cuidados com Fernanda, contou com a ajuda de uma tia paterna da menina durante a semana.
Depois da formação, começou a trabalhar como cuidadora e mais tarde foi aprovada em concurso público para atuar em hospitais considerados de referência.
Quando a história foi publicada pela Folha de S.Paulo, Ana acumulava cerca de 15 anos como técnica de Enfermagem. A profissão também influenciou Fernanda, embora a jovem inicialmente pensasse em Gastronomia ou Arquitetura.
Em 2022, mãe e filha viraram colegas
Ao entrarem na Unicid, as duas fizeram um acordo: dentro da faculdade, seriam colegas de turma. Ana não agiria como mãe durante as aulas, e Fernanda não seria tratada como filha no ambiente acadêmico.
A diferença de idade e experiência aproximou as duas. Fernanda ajudava a mãe nos conteúdos teóricos e nos termos acadêmicos. Ana usava a vivência prática na saúde para orientar a filha em laboratórios e estágios.
Para Ana, voltar a uma sala cheia de estudantes depois de tantos anos foi um choque. Em alguns momentos, duvidou que conseguiria acompanhar o curso. Fernanda passou a explicar conteúdos com exemplos do cotidiano, transformando a relação familiar em parceria de estudo.
Um acidente ameaçou o plano das duas
Na etapa final da graduação, Ana sofreu um acidente de trabalho durante o estágio. A reportagem não detalhou o episódio, mas ele colocou em risco o objetivo de concluir o curso ao lado da filha.
O diploma tinha um significado que ultrapassava a conquista individual. Ana não queria apenas assistir à formatura de Fernanda, nem ser a única homenageada pela filha. Queria que as duas chegassem juntas ao fim de uma trajetória iniciada em pontos muito diferentes.
Em maio de 2026, quando a Folha publicou a história, mãe e filha estavam a poucas semanas da graduação. Ainda não havia confirmação pública da cerimônia, mas elas já haviam atravessado quatro anos de aulas, práticas e obstáculos na mesma turma.
A educação que atravessou gerações
A história de Ana não apaga os anos em que ficou longe da escola, nem transforma dificuldade em espetáculo. Ela mostra como o acesso tardio à educação pode reconstruir caminhos e ampliar escolhas.
Ao chegar à reta final do curso com Fernanda, Ana não apenas retomou um projeto interrompido na infância. Também mostrou que a formação de uma filha pode se tornar a continuação da história da mãe, agora com as duas ocupando o mesmo espaço que por décadas pareceu distante.
Fonte
Folha de S.Paulo
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

