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Faxineira acordava às 5h, limpava salas e corredores das 7h às 16h, estudava à noite na própria faculdade onde trabalhava, chegava em casa às 23h ou depois da meia-noite e manteve a rotina até se formar em Direito aos 58 anos, tirar 9,5 no TCC e se tornar a primeira da família com curso superior no Espírito Santo
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 04/08/2026 às 18:21
Atualizado em 04/08/2026 às 18:36
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Rotina marcada por trabalho braçal, viagens de ônibus e aulas noturnas mostra como uma funcionária da limpeza transformou o próprio emprego em caminho para a universidade, alcançou desempenho acadêmico de destaque e abriu uma nova etapa profissional sem abandonar as responsabilidades diárias.
Adenizi Souza Munizi transformou o local onde trabalhava na limpeza em espaço de formação universitária ao concluir Direito, aos 58 anos, na mesma faculdade particular de Vitória em que passava os dias organizando e higienizando salas, corredores e áreas de circulação.
Além de se tornar a primeira pessoa da família com diploma de ensino superior, ela terminou a graduação sem reprovações e recebeu nota 9,5 no Trabalho de Conclusão de Curso, resultado alcançado enquanto mantinha uma rotina diária de trabalho, deslocamento e aulas noturnas.
Moradora do bairro São Benedito, em Cariacica, Adenizi iniciava o dia antes do amanhecer, acordava às 5h e seguia de ônibus para a capital capixaba, onde cumpria expediente das 7h às 16h nos espaços frequentados por estudantes, professores e funcionários.
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Faxineira estudava na mesma faculdade onde trabalhava
Encerrado o turno de limpeza, o retorno para casa ainda precisava esperar, pois ela permanecia na instituição, usava o fim da tarde para adiantar leituras e tarefas acadêmicas e aguardava o início das aulas do curso de Direito.
Assim, o prédio que exigia esforço físico durante o dia passava a representar um ambiente de formação à noite, quando Adenizi deixava as atividades profissionais e assumia o papel de estudante, acompanhando disciplinas e cumprindo as mesmas exigências da turma.
Em condições regulares, a viagem de volta terminava por volta das 23h, mas os dias em que ela perdia o ônibus prolongavam o percurso até depois da meia-noite, pouco antes de a rotina recomeçar na manhã seguinte.
Entre trabalho integral, deslocamentos entre municípios, estudos realizados antes das aulas e presença em sala durante o período noturno, a maior parte do dia era passada longe de casa, sem que as responsabilidades domésticas deixassem de fazer parte da semana.
Bolsa de estudos abriu caminho para o curso de Direito
Segundo reportagem de A Gazeta, Adenizi trabalhava na faculdade desde 2009 e recebeu uma bolsa destinada aos funcionários interessados em cursar o ensino superior, benefício que permitiu seu ingresso na graduação sem a necessidade de abandonar o emprego na limpeza.
Embora a bolsa tenha viabilizado a formação, a permanência no curso continuou exigindo organização constante, já que transporte público, atividades domésticas, expediente integral e preparação acadêmica precisavam caber em uma rotina com poucas horas disponíveis.
Antes mesmo de entrar na universidade, a trabalhadora observava situações em que pessoas sem formação acadêmica eram tratadas com preconceito, experiência que fortaleceu sua vontade de estudar e influenciou a escolha por uma área relacionada ao acesso à justiça.
Natural de uma região rural de Guarapari, também localizada na Região Metropolitana de Vitória, Adenizi chegou à graduação em uma etapa diferente da maioria dos colegas, levando para a sala de aula décadas de trabalho, responsabilidades familiares e experiências acumuladas.
Divorciada, mãe de duas filhas adultas e avó de quatro netos, ela frequentava uma turma formada também por estudantes com idade próxima à de suas próprias filhas, sem permitir que a diferença geracional se transformasse em obstáculo acadêmico.
Organização permitiu conciliar trabalho e faculdade
Para preservar o ritmo durante a semana, parte das tarefas domésticas era antecipada nos fins de semana, enquanto o intervalo entre o fim da limpeza e o começo das aulas servia para revisar conteúdos, preparar atividades e reduzir o volume de estudos levado para casa.
Esse planejamento ajudava a manter o acompanhamento das disciplinas mesmo nos dias encerrados depois das 23h, quando o cansaço acumulado pelo expediente e pelo transporte ainda dividia espaço com trabalhos acadêmicos e leituras exigidas pelo curso.
O desempenho registrado ao longo da graduação acompanhou o esforço empregado na rotina, pois Adenizi não teve reprovações, destacou-se entre os colegas e recebeu nota 9,5 no TCC desenvolvido sob orientação da professora Alline Correia Devens.
Embora a orientadora tivesse a mesma idade de uma das filhas da estudante, a diferença não interferiu na relação acadêmica, marcada pela dedicação ao conteúdo, pelo empenho nas atividades e pela busca constante por informações necessárias ao desenvolvimento do trabalho final.
Preconceito acompanhou a trajetória profissional
Mesmo avançando na graduação, Adenizi continuava sendo reconhecida principalmente pela função exercida na limpeza e relatava situações de preconceito praticadas por pessoas que associavam trabalhadores do setor a possibilidades profissionais e educacionais limitadas.
Longe de afastá-la da universidade, essas experiências reforçaram o interesse em concluir o curso e ampliaram o significado da formação, que passou a representar também uma resposta concreta às limitações que outras pessoas tentavam atribuir à sua trajetória.
Dentro da faculdade, o contraste permanecia visível todos os dias, já que Adenizi organizava e limpava os ambientes durante o expediente e, poucas horas depois, circulava pelos mesmos corredores como aluna, apresentava trabalhos e acompanhava as aulas noturnas.
Formatura não provocou saída imediata do emprego
Concluída a graduação, ela não deixou imediatamente o trabalho na instituição, permanecendo na função de faxineira enquanto direcionava o tempo disponível para os estudos do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, etapa necessária para exercer plenamente a advocacia.
Naquele período, Adenizi ainda não havia escolhido uma área jurídica específica, porque concentrava os esforços na preparação para a prova, incorporando a nova meta à mesma disciplina que havia sustentado os anos de formação universitária.
O expediente continuava ocupando o período diurno, enquanto noites, intervalos e momentos livres passaram a ser usados na revisão dos conteúdos exigidos pelo exame, prolongando uma rotina que já combinava trabalho, estudo e deslocamentos entre Cariacica e Vitória.
Primeira pessoa da família com diploma universitário
Dentro da família, a conclusão do curso representou uma conquista inédita, pois nenhum parente havia alcançado o ensino superior antes dela, tornando o diploma uma referência direta para as filhas, os netos e outras pessoas próximas.
A formação também passou a demonstrar, no cotidiano familiar, que o ingresso na universidade podia ocorrer depois de décadas de trabalho e responsabilidades, sem depender de uma trajetória acadêmica iniciada imediatamente após o término da escola.
Em vez de abandonar a limpeza para estudar, Adenizi aproveitou a política de bolsas destinada aos funcionários e atravessou a graduação mantendo as tarefas do expediente, o transporte público, os compromissos domésticos e as exigências acadêmicas previstas para todos os alunos.
Os horários dimensionavam o esforço envolvido: acordar às 5h, trabalhar das 7h às 16h, estudar antes das aulas, permanecer no campus à noite e chegar em casa às 23h ou depois da meia-noite significava passar quase todo o dia em atividade.
Mesmo com o tempo dividido entre tantas obrigações, a ausência de reprovações e a nota obtida no TCC colocaram Adenizi entre os destaques da turma, oferecendo resultados objetivos a uma trajetória construída sem afastamento do trabalho braçal.
Nos corredores onde antes era vista apenas como funcionária da limpeza, ela passou também a circular como estudante universitária, apresentou trabalhos, participou das aulas e concluiu Direito aos 58 anos na mesma instituição que havia lhe oferecido emprego e oportunidade acadêmica.
Depois da formatura, o diploma passou a dividir espaço com o uniforme profissional enquanto Adenizi se preparava para o Exame da Ordem, mantendo como próxima meta o avanço para uma nova etapa dentro da área jurídica.
O que mais chama sua atenção nessa trajetória: começar uma graduação aos 58 anos, estudar depois de um expediente inteiro ou concluir o curso sem nenhuma reprovação?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

