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Cientistas mapeiam 124 milhões de conexões no sistema nervoso de uma mosca macho e descobrem que 95% das células também existem na fêmea
Escrito por Douglas Avila
Publicado em 04/09/2026 às 19:38
Atualizado em 04/09/2026 às 19:40
Ciência e Tecnologia
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O conectoma completo de uma mosca-das-frutas macho reúne 124 milhões de conexões no cérebro e no cordão nervoso, permitindo comparar célula por célula com a fêmea e mostrar como apenas 5% de diferenças ajudam a reorganizar comportamentos.
O trabalho foi publicado na revista Cell em 3 de setembro de 2026. Pesquisadores reconstruíram o sistema nervoso central do macho e registraram 124 milhões de conexões, formando um mapa tridimensional da comunicação entre células.
A equipe então comparou esse mapa ao conectoma da fêmea, concluído dois anos antes. Cerca de 95% das células aparecem nos dois sexos. Os 5% restantes parecem pequenos em proporção, mas ajudam a formar circuitos associados a diferenças de corte, canto e agressividade.
O resultado não é uma explicação sobre homens e mulheres. Os próprios pesquisadores alertam que o comportamento humano é muito mais complexo. O valor da mosca está em permitir acompanhar neurônios e conexões com uma completude que ainda não existe para um cérebro humano.
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Paulo Nogueira
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Um conectoma funciona como mapa de fiação. Ele mostra quais células se ligam e por onde sinais podem circular. Não registra sozinho cada pensamento ou ação, porém oferece a estrutura necessária para testar como determinados circuitos produzem respostas observáveis.
Como 124 milhões de conexões viraram um mapa navegável
O cérebro da mosca tem tamanho diminuto, mas sua rede permanece enorme. Reconstruir cada célula exige identificar prolongamentos, seguir trajetos e marcar contatos. Quando esses elementos são reunidos, o volume compacto se transforma numa paisagem densa de caminhos coloridos.
O novo trabalho cobre não apenas o cérebro, mas também o cordão nervoso central do macho. Essa continuidade importa porque comportamento não termina na região que processa sinais. Comandos precisam alcançar estruturas que coordenam movimento e receber informação sensorial do corpo.
A observação ao microscópio é o começo de um processo que depois depende de organização digital. Imagens fornecem detalhes; pesquisadores e ferramentas computacionais transformam esses detalhes em células identificáveis. O mapa final permite procurar circuitos específicos sem recomeçar do tecido bruto.
O número de 124 milhões não representa neurônios diferentes, mas pontos de conexão entre eles. Essa distinção é essencial. Uma célula pode conversar com muitas outras, e é a distribuição dos contatos que define quais rotas têm condições de transmitir atividade.
Comparar dois conectomas completos muda a pergunta. Em vez de observar uma região isolada e supor diferenças gerais, os cientistas conseguem verificar quais células existem nos dois mapas, quais mudam e como essas mudanças se encaixam numa rede maior.
A semelhança de 95% mostra que macho e fêmea compartilham a maior parte da arquitetura. Portanto, comportamentos distintos não exigem dois sistemas nervosos totalmente separados. Alterações concentradas em uma fração da rede podem mudar a maneira como sinais comuns são encaminhados.
Os 5% diferentes ajudam a localizar corte, canto e agressividade
As diferenças identificadas se conectam a comportamentos sociais da mosca. Machos executam sequências de corte, produzem canto e apresentam padrões de agressividade próprios. O mapa oferece uma base para relacionar essas ações a circuitos que não aparecem da mesma forma na fêmea.
Isso não significa que uma única célula contenha um comportamento inteiro. Redes combinam entradas, estado e resposta. A utilidade do conectoma é reduzir o espaço de busca, apontando onde cientistas podem realizar experimentos para testar causalidade.
Se um circuito parece diferente, pesquisadores podem observar sua atividade ou interferir nele e verificar o que muda. Dessa forma, o mapa deixa de ser apenas uma imagem impressionante e funciona como índice para perguntas experimentais mais precisas.
A reconstrução colorida revela simetria e densidade, porém cada cor representa trajetos que precisam ser interpretados. O valor científico não está só na beleza. Está na possibilidade de percorrer conexões desde entrada sensorial até comando motor sem perder o caminho entre regiões.
A comparação também ajuda a separar estrutura universal de especialização sexual. Se uma célula aparece nos dois mapas, ela pode integrar funções compartilhadas. Se surge apenas em um ou forma conexões diferentes, vira candidata a explicar respostas específicas.
A Universidade de Cambridge afirma que esse tipo de trabalho pode abrir caminhos para estudar como diferenças genéticas alteram a fiação cerebral. Referências a autismo e esquizofrenia, contudo, são perspectivas de pesquisa. Não representam diagnóstico, tratamento ou equivalência direta com moscas.
Essa cautela evita uma extrapolação comum. Ter um mapa completo de um animal não significa compreender automaticamente toda a mente. O conectoma mostra possibilidades de fluxo, enquanto atividade, química e experiência determinam quais caminhos são usados em cada momento.
Mesmo assim, completude muda o ritmo da investigação. Quando todos os caminhos conhecidos estão disponíveis, resultados de laboratórios diferentes podem ser ligados à mesma referência. Uma descoberta sobre movimento pode ser conectada a outra sobre visão sem reconstruir a rede inteira.
É difícil não ver o mapa como um novo instrumento, semelhante a um atlas que permite escolher destino antes de viajar. Ele não substitui o experimento, mas mostra quais rotas existem e onde uma alteração pequena pode repercutir em muitos pontos.
Os 5% de células diferentes ganham importância exatamente por estarem cercados por 95% de semelhança. Se quase toda a estrutura é compartilhada, variações localizadas oferecem uma oportunidade rara de estudar como mudanças pequenas produzem comportamentos reconhecivelmente distintos.
O mapa do macho completa a comparação que faltava. A partir de agora, pesquisadores podem formular hipóteses usando dois sistemas inteiros, não fragmentos escolhidos. Isso permite testar, em conjunto, tanto diferenças quanto mecanismos que permanecem iguais entre os sexos.
A conquista técnica cabe numa frase, mas sua exploração levará tempo: 124 milhões de conexões foram organizadas numa estrutura navegável. Cada estudo futuro poderá escolher um pequeno trecho dessa rede e perguntar o que acontece quando ele funciona de outra maneira.
Como apenas 5% de células diferentes conseguem reorganizar comportamentos num sistema nervoso quase todo compartilhado?
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Fontes
Cell
University of Cambridge
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

