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Editor compra quadro por cerca de R$ 69, artista acha que cobrou caro e ainda lhe dá outra obra; 99 anos depois, primeira tela é vendida por R$ 5,58 milhões
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 04/09/2026 às 19:10
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L. S. Lowry ainda lutava para vender suas pinturas quando Arthur Wallace decidiu apostar em seu trabalho; a obra atravessou gerações da família antes de chegar ao leilão
Em 1926, quando o pintor britânico L. S. Lowry ainda estava longe de alcançar a fama que teria décadas depois, o editor literário Arthur Wallace decidiu comprar diretamente do artista uma pintura chamada Going to the Mill. Lowry pediu apenas £ 10 (cerca de R$ 69 na conversão cambial atual) e, pouco depois, chegou à conclusão de que talvez tivesse cobrado caro demais.
O artista então fez algo ainda mais surpreendente: ofereceu a Wallace uma segunda pintura sem cobrar nada a mais. A primeira tela permaneceu com a família do comprador por quase um século e, em maio de 2025, reapareceu no mercado com um resultado difícil de imaginar para quem participou daquela negociação original.
Depois de 99 anos na mesma família, Going to the Mill foi arrematada por £ 805.200 (aproximadamente R$ 5,58 milhões) em uma venda organizada pela casa de leilões Lyon & Turnbull, em Londres.
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Paulo Nogueira
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Editor conheceu trabalho de Lowry quando artista ainda vendia muito pouco
Arthur S. Wallace trabalhava como editor literário do Manchester Guardian, jornal que mais tarde se tornaria The Guardian. Em 1926, ele participou da preparação de um suplemento relacionado à Manchester Civic Week e entrou em contato com pinturas de Lowry, que naquele momento ainda tinha enorme dificuldade para encontrar compradores.
Lowry já produzia suas características paisagens urbanas e industriais, mas seu nome ainda não tinha o reconhecimento nacional que conquistaria posteriormente. Wallace se interessou especialmente por Going to the Mill, obra pintada em 1925 que mostra uma multidão circulando em meio a fábricas, edifícios, fumaça e chaminés.
Na parte posterior da pintura havia inclusive uma indicação de preço de £ 30 (cerca de R$ 208 pelo câmbio atual). Mesmo assim, Lowry aceitou vendê-la ao editor por somente £ 10 (aproximadamente R$ 69).
Essas conversões representam apenas o câmbio atual entre libra e real e não correspondem ao poder de compra que £ 10 tinham em 1926.
Pintor achou que £ 10 era dinheiro demais e ofereceu outra obra
A história ficou ainda mais incomum depois que Wallace realizou o pagamento. Segundo o relato preservado pela família do editor, Lowry passou a acreditar que havia recebido dinheiro demais pela pintura.
Uma carta enviada pelo artista a Wallace em 9 de novembro de 1926 ajuda a documentar o episódio. Nela, Lowry agradecia pelo cheque de £ 10 (cerca de R$ 69) e dizia estar satisfeito porque a esposa de Wallace havia gostado da pintura.
Na mesma correspondência, o artista ofereceu gratuitamente outra de suas obras, A Manufacturing Town, de 1922, como uma lembrança relacionada à Civic Week.
Na prática, Wallace acabou ficando com duas pinturas de Lowry pagando apenas £ 10 (aproximadamente R$ 69).
A frase segundo a qual Lowry teria dito que “havia cobrado demais” vem das lembranças transmitidas posteriormente pela família de Wallace. A carta preservada não registra exatamente essas palavras, embora confirme a oferta da segunda pintura sem um novo pagamento.
Segunda pintura foi vendida para ajudar a pagar dois casamentos
As duas obras seguiram caminhos diferentes dentro da família. A Manufacturing Town foi vendida em 1968, quando descendentes de Wallace precisavam levantar dinheiro para pagar dois casamentos.
Lowry ainda estava vivo na época e, de acordo com relatos preservados sobre a negociação, não se opôs à decisão. A pintura acabaria entrando para a coleção do Science Museum Group, onde permanece como parte do patrimônio artístico ligado à industrialização britânica.
Já Going to the Mill permaneceu com os Wallace.
Keith Wallace, neto do comprador original, contou que durante sua infância a pintura ficava simplesmente pendurada na parede da sala de jantar da família. Durante anos, segundo ele, não havia seguro especial nem grandes medidas de segurança protegendo uma obra que futuramente valeria milhões.
Quadro ficou quase um século com a mesma família
A situação começou a mudar em 2013, quando Going to the Mill foi cedida em empréstimo de longo prazo à Pallant House Gallery, em Chichester. A exposição permitiu que o público voltasse a ver uma obra que havia permanecido praticamente fora de circulação durante décadas.
O empréstimo durou até 2024. No ano seguinte, uma nova geração da família Wallace decidiu colocar a pintura à venda.
A Lyon & Turnbull estimou inicialmente que o quadro poderia alcançar entre £ 700 mil (aproximadamente R$ 4,85 milhões) e £ 1 milhão (cerca de R$ 6,93 milhões).
No leilão realizado em Londres em 2 de maio de 2025, o martelo finalmente caiu em £ 805.200 (aproximadamente R$ 5,58 milhões), considerando a comissão do comprador.
Comparando apenas os valores nominais em libras, sem correção por inflação ou outros custos, a cifra final foi 80.520 vezes maior que as £ 10 pagas por Wallace em 1926.
Obra mostra momento em que Lowry começava a criar seu estilo mais conhecido
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O valor da pintura não está ligado apenas à história de sua compra. Especialistas consideram Going to the Mill importante porque ela registra um período decisivo na formação do estilo de L. S. Lowry.
A cena mostra trabalhadores e outras figuras atravessando uma paisagem marcada por fábricas e chaminés, elementos que posteriormente se tornariam recorrentes em sua produção. A atmosfera ainda é mais escura e acinzentada do que aquela vista em muitas das pinturas pelas quais ele ficaria famoso.
Décadas depois, Lowry se transformaria em um dos nomes mais valorizados da arte britânica do século XX. Algumas de suas obras passaram a atingir vários milhões de libras em leilões, incluindo Going to the Match, vendida em 2022 por £ 7.846.500 (aproximadamente R$ 54,36 milhões).
A diferença ajuda a dimensionar a história de Wallace: em 1926, o editor decidiu gastar £ 10 (cerca de R$ 69) em um pintor que ainda encontrava dificuldades para vender seus trabalhos. Lowry acreditou que até aquele valor poderia ser excessivo e entregou mais um quadro de presente. Quase um século depois, apenas a primeira pintura atravessaria a marca dos R$ 5,5 milhões em um leilão.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

