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Expedição ao Oceano Austral encontra uma “bola da morte” carnívora coberta de pequenos ganchos para capturar presas, além de vermes-zumbis sem boca nem intestino, entre 30 espécies de águas profundas desconhecidas pela ciência
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 04/09/2026 às 19:29
Atualizado em 04/09/2026 às 19:30
Ciência e Tecnologia
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Expedições no Oceano Austral confirmam 30 novas espécies, incluindo esponja carnívora encontrada a 3.601 metros e animais extremos.
Uma criatura esférica coberta por minúsculos ganchos capazes de prender outros animais foi encontrada a 3.601 metros de profundidade no Oceano Austral. A esponja carnívora, apelidada de “death-ball”, ou “bola da morte”, tornou-se o símbolo de um conjunto ainda maior de descobertas: pesquisadores confirmaram 30 espécies de águas profundas até então desconhecidas pela ciência, além de registrarem vermes-zumbis que sobrevivem sem boca nem intestino.
Segundo o The Nippon Foundation-Nekton Ocean Census, os resultados foram anunciados em 29 de outubro de 2025 após a análise de materiais coletados em duas campanhas científicas realizadas naquele ano com o Schmidt Ocean Institute. A escala da descoberta pode aumentar: quando os 30 novos organismos foram confirmados, menos de 30% das amostras obtidas nas expedições haviam sido avaliadas.
Esponja carnívora foi encontrada a 3.601 metros no fundo do Oceano Austral
A chamada “bola da morte” pertence ao gênero Chondrocladia e foi registrada pelo veículo operado remotamente SuBastian no ponto conhecido como Trench North, a leste da ilha Montagu, nas ilhas Sandwich do Sul. O equipamento encontrou o animal a exatamente 3.601 metros abaixo da superfície.
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O aspecto esférico, por si só, já chamaria atenção entre as formas incomuns encontradas no oceano profundo. O que diferencia esse organismo, entretanto, é a estratégia de alimentação. Sua superfície apresenta pequenos ganchos capazes de aprisionar presas, uma adaptação muito distante do comportamento associado à maioria das esponjas.
Esponjas marinhas são geralmente conhecidas por retirar partículas e microrganismos da água por filtração. A Chondrocladia encontrada no Oceano Austral segue outra lógica: ela é predadora. Em um ambiente onde encontrar alimento pode ser difícil, capturar diretamente pequenos animais oferece uma alternativa evolutiva para sobreviver.
Uma esponja que caça quebra a imagem tradicional desses animais
O apelido “death-ball” nasceu justamente da combinação entre formato e comportamento. Em vez de permanecer apenas filtrando a água ao redor, a nova esponja apresenta estruturas capazes de agarrar organismos que entram em contato com sua superfície.
A descoberta pertence a uma linhagem de esponjas carnívoras já conhecida pelos especialistas, mas o exemplar encontrado foi considerado uma nova espécie de Chondrocladia.
O organismo ainda aparece como Chondrocladia sp. nov., indicação utilizada enquanto o processo taxonômico formal não está concluído.
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Essa distinção é importante. Para o Ocean Census, uma espécie pode ser considerada “descoberta” quando especialistas determinam, por características morfológicas e, quando necessário, sequenciamento genético, que ela é nova para a ciência.
A descrição formal, com nome científico definitivo, publicação revisada por pares e depósito de um espécime-tipo, é uma etapa posterior.
Vermes-zumbis vivem sem boca e sem sistema digestivo convencional
As campanhas também encontraram Osedax, organismos que receberam o apelido de “vermes-zumbis” por uma razão igualmente extrema. Eles não possuem boca nem intestino e estão associados à decomposição dos ossos de baleias e de outros grandes vertebrados que chegam ao fundo do oceano.
Sua sobrevivência depende de uma associação com bactérias simbióticas. Esses microrganismos ajudam a decompor compostos presentes nos ossos, permitindo que os vermes aproveitem recursos energéticos que permaneceriam inacessíveis para muitos outros animais.
No caso das amostras do Oceano Austral, o Ocean Census ressalta que os Osedax observados não são considerados, até o momento, parte das novas espécies confirmadas. Eles apareceram ao lado do conjunto de organismos desconhecidos e ajudam a demonstrar a diversidade de estratégias biológicas encontradas nas profundezas investigadas.
Quase 2 mil espécimes foram retirados de uma das regiões mais isoladas da Terra
Uma das campanhas centrais ocorreu entre 20 de fevereiro e 26 de março de 2025 nas ilhas Sandwich do Sul. A missão científica utilizou o navio de pesquisa R/V Falkor (too) e o ROV SuBastian para explorar caldeiras vulcânicas, montanhas submarinas, a Fossa das Sandwich do Sul e áreas do fundo próximas às ilhas Montagu e Saunders.
Durante esse trabalho, os pesquisadores recolheram quase 2 mil espécimes pertencentes a 14 filos animais, além de milhares de imagens em alta definição e muitas horas de gravações submarinas. O volume de material ajuda a explicar por que a classificação científica continua mesmo meses depois do retorno do navio.
A região está entre os ambientes oceânicos mais difíceis de estudar. A própria missão destacou seu grau de isolamento: durante partes da viagem, os seres humanos mais próximos dos pesquisadores podiam estar a bordo da Estação Espacial Internacional, centenas de quilômetros acima do planeta.
Novas estrelas-do-mar, crustáceos e vermes iridescentes apareceram nas amostras
A “bola da morte” está longe de ser a única novidade. Entre as 30 espécies confirmadas aparecem vermes escamosos do gênero Eulagisca, descritos pelo Ocean Census como blindados e iridescentes, além de estrelas-do-mar pertencentes às famílias Brisingidae, Benthopectinidae e Paxillosidae.
Os cientistas também identificaram novos isópodes e anfípodes. Parte do material relacionado aos anfípodes continua em análise e pode representar algo ainda maior do ponto de vista taxonômico: uma família até então desconhecida.
Gastrópodes e bivalves raros adaptados a áreas influenciadas por vulcanismo e sistemas hidrotermais também foram coletados. Outros exemplares, como corais-negros e um possível novo gênero de pena-do-mar, permaneciam sob avaliação especializada quando os resultados das 30 espécies foram divulgados.
Fontes hidrotermais surgiram a cerca de 700 metros de profundidade
A biodiversidade encontrada ocorreu em um cenário geológico igualmente incomum. Durante a missão às ilhas Sandwich do Sul, os pesquisadores localizaram novas fontes hidrotermais a aproximadamente 700 metros de profundidade na região da Quest Caldera.
O maior pockmark analisado continha três fontes, enquanto outro apresentava uma. A chaminé mais alta atingia cerca de 4 metros, e sua superfície estava ocupada por organismos como caracóis marinhos e cracas. As comunidades utilizam processos ligados à quimiossíntese, nos quais a cadeia de energia não depende diretamente da luz solar.
A combinação chamou atenção porque jardins de corais e grandes esponjas também foram observados nas proximidades. O fundo marinho das Sandwich do Sul reúne vulcões submarinos, trincheiras profundas, montanhas e zonas hidrotermais em uma faixa geologicamente ativa do Atlântico Sul.
O fundo do mar também revelou sinais de vulcanismo explosivo
Os pesquisadores encontraram grandes blocos de pedra-pomes, material associado a erupções vulcânicas explosivas. A descoberta forneceu evidências adicionais de que os sistemas vulcânicos das ilhas Sandwich do Sul são capazes de produzir eventos explosivos debaixo do oceano.
A missão não foi desenhada apenas para procurar novas espécies. Parte dos trabalhos analisou justamente riscos geológicos relacionados a vulcões, terremotos, deslizamentos submarinos e possíveis tsunamis.
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Essa combinação de biologia e geologia é especialmente relevante porque mudanças no fundo oceânico podem criar, destruir ou alterar habitats. Fontes hidrotermais, por exemplo, estabelecem condições químicas capazes de sustentar comunidades muito diferentes daquelas encontradas a poucos quilômetros de distância.
ROV SuBastian consegue chegar a 4.500 metros de profundidade
Grande parte dessas descobertas seria praticamente impossível sem veículos robóticos. O ROV SuBastian, utilizado nas expedições, foi desenvolvido para operar em profundidades de até 4.500 metros e transportar câmeras, iluminação, sensores e braços manipuladores capazes de coletar exemplares diretamente do fundo.
O equipamento possui câmeras científicas 4K e HD e um sistema de iluminação que pode atingir 400 mil lúmens. Os braços hidráulicos permitem manipular ferramentas e colocar amostras em caixas específicas durante o mergulho.
Isso significa que os cientistas conseguem observar um organismo em seu habitat, registrar sua posição, filmar sua interação com o ambiente e depois recolhê-lo para análise. No caso da esponja “bola da morte”, a profundidade de 3.601 metros estava dentro da capacidade operacional do veículo.
Outra campanha entrou em uma área escondida por 150 metros de gelo
O conjunto de 30 novas espécies não deriva apenas das Sandwich do Sul. Pesquisadores ligados ao Ocean Census também participaram de uma segunda campanha do Falkor (too) no Mar de Bellingshausen, próximo à Península Antártica, no início de 2025.
Em 13 de janeiro daquele ano, o iceberg A-84 se desprendeu da plataforma de gelo George VI. Com aproximadamente 510 km², o bloco abriu acesso a uma porção do fundo marinho que estivera coberta por cerca de 150 metros de gelo durante séculos.
O navio alcançou a região recém-exposta em 25 de janeiro e, segundo o Schmidt Ocean Institute, tornou-se a primeira equipe científica a investigar diretamente aquele ambiente. Comunidades de grandes esponjas, corais, anêmonas e outros organismos foram observadas em áreas anteriormente inacessíveis aos seres humanos.
Menos de 30% das amostras já produziram 30 novas espécies
Talvez o número mais importante para dimensionar o resultado não seja a profundidade da esponja nem a quantidade de animais coletados. Quando o Ocean Census anunciou as descobertas, menos de 30% das amostras da expedição haviam sido examinadas. Mesmo assim, 30 espécies desconhecidas já tinham sido confirmadas.
A identificação ocorreu no Southern Ocean Species Discovery Workshop, realizado em agosto de 2025 na Universidad de Magallanes, em Punta Arenas, no Chile. Especialistas internacionais compararam características morfológicas, produziram imagens dos exemplares e empregaram códigos de barras de DNA quando necessário.
O processo tenta reduzir um gargalo histórico da taxonomia. Segundo o Ocean Census, a descrição formal de uma nova espécie normalmente pode levar 13,5 anos. O programa procura acelerar as etapas iniciais reunindo especialistas, material biológico e ferramentas genéticas em workshops concentrados.
O Oceano Austral ainda guarda uma quantidade desconhecida de vida
As descobertas deixam uma conclusão difícil de ignorar: mesmo com sonar, navios oceanográficos, veículos robóticos e sequenciamento de DNA, grandes áreas do fundo do Oceano Austral continuam biologicamente pouco conhecidas.
Em uma única sequência de campanhas, pesquisadores encontraram uma esponja predadora a 3.601 metros, vermes sem boca nem intestino, novas estrelas-do-mar, crustáceos desconhecidos, vermes iridescentes, possíveis novos grupos taxonômicos, fontes hidrotermais e comunidades associadas a vulcões submarinos.
E o trabalho de classificação estava longe do fim. Com menos de um terço das amostras analisadas no momento do anúncio, o número de espécies novas pode crescer à medida que taxonomistas estudem o restante do material.
No ambiente onde a pressão é enorme, a luz solar desaparece e a temperatura permanece próxima do congelamento, a vida não apenas persiste. Ela desenvolveu soluções tão extremas quanto uma esponja coberta de ganchos que captura animais e vermes que dispensaram boca e intestino para extrair energia de ossos depositados no fundo do mar.
A confirmação de 30 espécies desconhecidas usando apenas uma fração das amostras mostra quanto do Oceano Austral ainda permanece, literalmente, fora do alcance do conhecimento humano.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

