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Debaixo de um dos bairros mais tradicionais de São Paulo, obras do metrô encontram cerca de 110 mil peças e revelam vestígios de um espaço de culto afro-brasileiro a 2,2 metros de profundidade, em área associada à memória negra da cidade e que pode ter relação com quilombo do século XIX
Escrito por Ana Alice
Publicado em 09/09/2026 às 17:50
Atualizado em 09/09/2026 às 17:51
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A construção da Linha 6-Laranja abriu uma janela para camadas esquecidas do Bixiga, onde objetos, estruturas e possíveis elementos religiosos ajudam a reconstruir parte da presença negra que marcou a formação de São Paulo.
A pouco mais de dois metros abaixo das ruas do Bixiga, no centro de São Paulo, uma obra destinada ao futuro começou a revelar uma camada muito mais antiga da cidade.
Durante as escavações da estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja, arqueólogos localizaram estruturas e objetos que podem ter pertencido a um espaço de culto de religião de matriz africana.
Os novos vestígios foram identificados em junho de 2026, a cerca de 2,2 metros de profundidade, dentro da chamada Área 6 do sítio arqueológico Saracura-Vai-Vai.
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Paulo Nogueira
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Entre eles apareceram porções de anil, gravetos amarrados, ossos de animais, fragmentos de ovo, uma conta de vidro verde e objetos metálicos fixados ao piso.
A descoberta faz parte de uma investigação muito maior.
Até março de 2026, cerca de 110 mil peças arqueológicas já haviam sido encontradas no sítio Saracura-Vai-Vai, incluindo fragmentos de cerâmica, metais, vidros e ossos.
Esse número corresponde ao conjunto das escavações realizadas na área desde os primeiros achados, e não apenas ao cômodo descoberto a 2,2 metros.
Em 2 de setembro de 2026, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, aprovou o relatório parcial de monitoramento dos novos achados e definiu regras para o resgate.
A decisão permitiu que outras frentes da obra continuassem, mas determinou que a área diretamente ligada aos vestígios permaneça isolada até a conclusão dos trabalhos arqueológicos.
Um cômodo escondido sob aterros chamou a atenção dos arqueólogos
Os objetos não apareceram espalhados aleatoriamente pela terra.
Segundo as informações analisadas pelo Iphan, os trabalhos da A Lasca Consultoria, empresa responsável pelo acompanhamento arqueológico contratado pela concessionária, revelaram estruturas de alvenaria, pisos, sistemas de drenagem, alicerces e fragmentos de paredes.
Em um dos cômodos, a disposição dos objetos chamou atenção por sua possível relação com práticas religiosas afro-brasileiras.
Havia pequenos montes de anil, uma cavidade destinada à deposição de objetos, um feixe de gravetos amarrados e elementos metálicos associados diretamente ao piso, além de restos animais e uma conta de vidro verde.
Uma consultora especializada em religiões afro-brasileiras avaliou o conjunto e apontou que um martelo fixado ao chão e um objeto semelhante a um prego poderiam ter referências simbólicas associadas a Ogum e Exu.
O feixe de gravetos, por sua vez, pode corresponder a um atori, tipo de vara utilizada em determinados contextos rituais.
O anil também possui usos tradicionais ligados à purificação e proteção em práticas de matriz africana.
Essas interpretações reforçam a hipótese de que aquele cômodo tenha funcionado como espaço sagrado ou parte de um terreiro, mas a classificação arqueológica e histórica exige análise conjunta do contexto, dos objetos e das estruturas.
Martelo será retirado junto com parte do próprio piso
A maneira como alguns objetos foram encontrados tornou o resgate mais delicado.
O Iphan recomendou que artefatos fixados à construção não sejam simplesmente arrancados do local.
No caso do martelo preso ao chão, por exemplo, a orientação é retirar um bloco de aproximadamente 1 metro por 1 metro do piso junto com o objeto, preservando a posição original do artefato em relação à estrutura.
A preocupação é conservar não apenas a peça isolada, mas também a informação arqueológica contida em sua localização.
Isso é especialmente importante quando um objeto pode possuir significado ritual.
Um martelo guardado em uma coleção transmite uma informação.
Um martelo deliberadamente fixado em um ponto específico de determinado cômodo pode transmitir outra completamente diferente.
Por esse motivo, o Iphan também determinou registro detalhado das estruturas antes da remoção dos elementos considerados significativos.
Escavação terá de ser manual e área será registrada em três dimensões
As estruturas descobertas não precisarão necessariamente permanecer integralmente no lugar.
O plano definido pelo Iphan prevê a coleta de amostras construtivas, como partes de pisos e tijolos, combinada ao resgate cuidadoso dos artefatos.
As escavações da área sensível deverão ocorrer manualmente para que pisos, paredes, depósitos e demais vestígios possam ser expostos e registrados antes de sua retirada.
Também foi recomendado um levantamento fotogramétrico, técnica que utiliza fotografias para registrar dimensões e geometria das estruturas e permite produzir modelos virtuais tridimensionais do espaço arqueológico.
Outra determinação chama atenção para a natureza específica da descoberta.
Parte dos trabalhos deverá ter participação de arqueólogo com experiência em diáspora africana e de uma liderança religiosa, de modo que aspectos culturais e simbólicos sejam considerados durante a identificação e interpretação dos materiais.
O Iphan classificou o sítio como relevante para o conhecimento da história da população negra de São Paulo e de sua participação na formação da cidade.
Achado fica em território ligado ao antigo Saracura
A localização ajuda a explicar por que os objetos despertaram tanta atenção.
O Bixiga, atualmente associado também à forte presença da imigração italiana, possui uma história negra anterior e profundamente ligada ao vale e ao córrego Saracura.
Pesquisas históricas e arqueológicas apontam que as margens do Saracura abrigaram, durante o século XIX, uma população formada por negros escravizados fugidos, libertos e seus descendentes.
A região ficou relacionada ao chamado Quilombo Saracura, uma territorialidade negra urbana que incluía moradias, trabalho, sociabilidade e manifestações culturais e religiosas.
Estudos acadêmicos sobre a paisagem do Bixiga identificam ocupações quilombolas nas margens do córrego entre os séculos XVIII e XIX.
O crescimento da cidade alterou radicalmente essa paisagem.
O córrego foi progressivamente canalizado, ruas foram abertas, construções ocuparam as antigas várzeas e parte da memória negra do território ficou soterrada sob sucessivas camadas urbanas.
As escavações do metrô passaram, literalmente, a atravessar algumas dessas camadas.
Relação com o quilombo ainda é uma hipótese
A proximidade histórica não significa que cada objeto encontrado possa ser automaticamente atribuído ao Quilombo Saracura.
O próprio Iphan já havia feito essa ressalva desde os primeiros trabalhos arqueológicos no local.
Em nota publicada depois dos achados iniciais, o instituto informou que havia possibilidade de relação entre materiais do sítio e o antigo quilombo, mas exigiu estudos complementares antes de qualquer conclusão definitiva.
Essa cautela continua sendo necessária para os vestígios descobertos em 2026.
O conjunto encontrado pode revelar práticas religiosas de uma população negra que ocupou a região, mas determinar sua datação, duração de uso e vínculo exato com grupos específicos exige análise arqueológica e documental.
A importância do achado não depende de antecipar essa conclusão.
Só o fato de estruturas e objetos relacionados potencialmente a religiosidades afro-brasileiras terem sobrevivido sob uma área intensamente urbanizada já oferece novas informações sobre quem ocupava aquele território e como vivia.
O sítio Saracura-Vai-Vai começou a ganhar forma em 2022
A descoberta atual é resultado de uma história que começou anos antes.
O acompanhamento arqueológico foi exigido preventivamente durante o processo de licenciamento da Linha 6-Laranja, e os primeiros conjuntos relevantes surgiram na área da futura estação.
Em 2022, o Iphan registrou o Saracura/14 Bis como sítio arqueológico integrante do Patrimônio Cultural Brasileiro.
Desde então, sucessivas etapas de escavação ampliaram a dimensão conhecida do sítio.
Na fase inicial, milhares de fragmentos foram recuperados.
Com novas áreas abertas e monitoradas, o total cresceu até alcançar aproximadamente 110 mil peças contabilizadas até março de 2026.
Os trabalhos na Área 6 começaram em junho de 2026, em um setor contíguo às zonas pesquisadas anteriormente.
Foi ali que surgiram os novos vestígios associados ao possível espaço religioso.
Achados interferem diretamente no cronograma da estação
A arqueologia também se tornou uma das partes mais delicadas da construção da estação.
Em 27 de agosto, antes da nova decisão do Iphan, a Linha Uni informou que as atividades no canteiro da 14 Bis-Saracura haviam sido paralisadas enquanto aguardava instruções sobre o tratamento dos novos achados.
Com a manifestação de 2 de setembro, outras áreas puderam voltar ao planejamento normal, desde que o setor arqueológico continue protegido.
A 14 Bis-Saracura permanece a estação mais atrasada da Linha 6-Laranja.
No balanço público citado no início de setembro, estava com cerca de 15,53% de execução e deverá alcançar aproximadamente 38,33 metros de profundidade.
Parte da Linha 6 já começou a operar.
Em 3 de julho de 2026, seis estações entraram em operação assistida entre João Paulo I e Perdizes.
Quando totalmente concluído, o ramal terá 15 estações e mais de 15 quilômetros entre Brasilândia e São Joaquim.
Assista o vídeo
Uma estação de metrô pode carregar a memória encontrada sob ela
As descobertas também provocaram uma discussão que vai além do resgate das peças.
O movimento Mobiliza Saracura-Vai-Vai reivindica que a futura estação tenha um espaço dedicado à memória negra e à história arqueológica encontrada durante a construção.
O próprio Iphan reforçou a recomendação de criação de um espaço de memória e valorização da população negra de São Paulo dentro da futura estação.
Assista o vídeo
Assim, uma obra projetada para levar passageiros por dezenas de metros abaixo da cidade acabou revelando algo que permaneceu enterrado por gerações.
O Bixiga conhecido atualmente por seus teatros, restaurantes, festas populares e tradição do samba também conserva, sob ruas e construções, vestígios materiais de uma presença negra muito mais antiga.
Agora, entre aproximadamente 110 mil fragmentos recuperados ao longo de anos de escavação, um cômodo encontrado a 2,2 metros de profundidade acrescenta outra peça a essa história: a possibilidade de que um espaço de culto afro-brasileiro tenha sobrevivido no subsolo de uma das regiões mais transformadas de São Paulo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

