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Em Santa Catarina, pegadas fósseis indicam que um animal semelhante a um “rato-cão” podia chegar a cerca de 1,55 metro e caminhava pelo território brasileiro há aproximadamente 130 milhões de anos, quando os dinossauros ainda dominavam o planeta
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 09/09/2026 às 20:24
Atualizado em 09/09/2026 às 20:25
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Marcas encontradas em Santa Catarina pertencem a um mamaliaforme quadrúpede de porte incomum e podem mudar a visão de que esses animais eram sempre pequenos durante a era dos dinossauros
Há cerca de 130 milhões de anos, enquanto dinossauros ainda ocupavam os ecossistemas terrestres, um animal muito diferente também caminhava sobre as dunas do território que hoje corresponde ao Sul do Brasil.
Pegadas preservadas em rochas de Santa Catarina indicam que esse mamaliaforme poderia alcançar aproximadamente 1,55 metro de comprimento, dimensão comparável à de um cachorro grande ou até de uma onça-parda.
A descoberta foi analisada em estudo publicado em agosto de 2026 no Journal of South American Earth Sciences e chama atenção justamente porque não existe um esqueleto conhecido desse animal. Tudo o que os cientistas têm são suas enormes pegadas.
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Pegadas encontradas em uma pedreira de Santa Catarina chegam a 13,4 centímetros de largura
Os rastros estudados foram encontrados em uma pedreira próxima ao município de Turvo, em Santa Catarina, dentro de rochas pertencentes à Formação Botucatu.
As maiores pegadas chegam a aproximadamente 11,4 centímetros de comprimento e 13,4 centímetros de largura. A distância observada entre os passos fica próxima de 40 centímetros.
Para um animal mamaliaforme do início do Cretáceo, são dimensões surpreendentes. Os exemplares foram identificados pelos pesquisadores como UERJ IC-170 e UERJ IC-171 e estão preservados em placas de arenito.
Quatro dedos curtos ajudaram cientistas a descobrir quem deixou as marcas
Não foi apenas o tamanho que chamou atenção. As pegadas apresentam quatro dedos relativamente curtos e arredondados, além de um formato bastante diferente daquele normalmente deixado por dinossauros.
A disposição dos rastros também forma uma pista relativamente estreita, característica considerada compatível com um animal que se deslocava sobre quatro patas.
Após comparar as marcas com outros rastros fósseis conhecidos, os pesquisadores atribuíram as pegadas à icnofamília Chelichnopodidae.
Isso não significa, porém, que os cientistas tenham descoberto a espécie exata. Como não existem ossos associados aos rastros, a classificação é feita essencialmente a partir das próprias pegadas.
Animal podia chegar a cerca de 1,55 metro e ter porte semelhante ao de um cachorro grande
A partir das proporções das pegadas e da comparação com outros animais conhecidos, os pesquisadores calcularam que o responsável pelas marcas poderia atingir aproximadamente 1,55 metro de comprimento corporal.
O número é uma estimativa, não uma medição direta. Ainda assim, coloca o animal muito acima da imagem tradicional associada aos primeiros parentes dos mamíferos, frequentemente apresentados como criaturas pequenas e discretas vivendo à sombra dos dinossauros.
Em termos atuais, seu porte poderia ser comparado ao de um cachorro grande ou de uma onça-parda.
Aparência de “rato-cão” é uma reconstrução, porque nenhum esqueleto foi encontrado
A criatura começou a ser descrita em algumas reportagens como uma espécie de “rato-cão gigante”, comparação que ajuda a imaginar sua aparência, mas que precisa ser tratada com cautela.
Os cientistas não encontraram crânio, dentes ou esqueleto capazes de revelar exatamente como era seu rosto, sua pelagem ou suas proporções corporais.
As imagens que mostram um animal parecido com uma combinação entre um grande roedor e um cachorro são, portanto, reconstruções artísticas baseadas no conhecimento disponível sobre mamaliaformes, e não um retrato comprovado do animal que deixou as pegadas.
Enquanto ele caminhava pelo Brasil, a região era ocupada por um enorme deserto
O cenário brasileiro de 130 milhões de anos atrás também era completamente diferente daquele conhecido atualmente.
As rochas pertencem à Formação Botucatu, que preserva vestígios de um gigantesco sistema de dunas que existiu durante o final do Jurássico e início do Cretáceo.
A América do Sul ainda fazia parte do supercontinente Gondwana, e grandes áreas atualmente ocupadas pelo Sul e Sudeste brasileiros apresentavam condições desérticas.
Nesse mesmo ambiente circularam diferentes vertebrados, incluindo dinossauros e pequenos animais cujos rastros permaneceram registrados na areia e posteriormente se transformaram em fósseis.
O deserto preservou as pegadas, mas praticamente apagou o animal que passou por ali
Uma das maiores dificuldades dos pesquisadores é justamente explicar por que existem marcas tão evidentes de um animal tão grande, mas nenhum osso correspondente.
Segundo os cientistas, as condições daquele antigo ambiente favoreceram a preservação das pegadas, enquanto eram muito menos adequadas para conservar esqueletos.
O problema vai além deste caso. O registro de fósseis corporais de mamaliaformes do Jurássico e do início do Cretáceo no Brasil é extremamente limitado.
Por isso, os rastros da Formação Botucatu acabam funcionando como uma espécie de registro alternativo de animais que podem ter vivido por aqui, mas desapareceram quase completamente do registro ósseo.
Tamanho também levanta hipótese de que animal pudesse comer pequenos vertebrados
Um mamaliaforme chegando perto de 1,55 metro provavelmente ocupava um nicho bastante diferente daquele associado aos pequenos mamíferos mesozoicos.
Por seu tamanho, pesquisadores consideram possível que fosse um animal onívoro robusto, capaz de consumir diferentes fontes de alimento e eventualmente capturar pequenos vertebrados.
Isso abre inclusive a possibilidade de que pudesse atacar dinossauros pequenos ou filhotes, embora as pegadas de Santa Catarina não apresentem nenhuma evidência direta desse comportamento.
Não há marcas de caça, restos de presas ou conteúdo estomacal. Portanto, dizer que o animal efetivamente caçava dinossauros iria além do que os fósseis permitem concluir.
Descoberta desafia ideia de que mamíferos da época dos dinossauros eram sempre pequenos
Durante muito tempo, a evolução inicial dos mamíferos foi contada principalmente como a história de animais de pequeno porte que permaneceram em nichos discretos enquanto os dinossauros dominavam os ambientes terrestres.
Novas descobertas começaram a mostrar que essa história era mais complexa, e as pegadas brasileiras acrescentam uma peça importante a esse quebra-cabeça.
O estudo conclui que os rastros de Santa Catarina estão entre as maiores pegadas semelhantes às de mamíferos já registradas no Cretáceo Inferior de Gondwana.
Para os pesquisadores, isso pode significar que mamaliaformes de grande porte surgiram mais cedo e com maior frequência do que o registro de esqueletos fazia parecer.
Cientistas admitem que animais grandes podem ter sido subestimados durante décadas
Existe ainda outra possibilidade levantada pelos pesquisadores: algumas evidências podem ter sido interpretadas incorretamente no passado porque ninguém esperava encontrar mamaliaformes tão grandes.
Durante décadas, o pequeno tamanho desses animais foi tratado quase como regra para grande parte do Mesozoico. Uma pegada excepcionalmente grande poderia, portanto, acabar sendo atribuída a outro grupo de vertebrados.
Os novos rastros encontrados no Brasil ajudam a romper essa expectativa.
Mesmo sem um único osso para mostrar exatamente quem era aquela criatura, pegadas de até 13,4 centímetros preservadas durante aproximadamente 130 milhões de anos indicam que um animal muito maior do que se imaginava caminhava pelo território brasileiro enquanto os dinossauros ainda dominavam o planeta.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

