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Fim dos pedreiros humanos em parte da obra: Quênia coloca uma gigantesca impressora 3D para “cuspir” concreto, ergue paredes de casas de dois quartos em apenas 18 horas, imprime 10 moradias em 10 semanas e tenta transformar uma única máquina em fábrica de um bairro inteiro com 52 casas
Escrito por Ana Alice
Publicado em 01/09/2026 às 22:55
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Projeto no litoral do Quênia testa construção em escala com impressão 3D, combina alta velocidade na produção das paredes e um plano ambicioso para formar uma comunidade inteira com dezenas de moradias.
Em Kilifi, no litoral do Quênia, uma única impressora 3D de grande porte foi usada para erguer as paredes de dez casas em apenas dez semanas, numa experiência que buscava demonstrar se a impressão de concreto poderia funcionar em escala residencial.
As paredes de uma unidade de dois quartos levaram cerca de 18 horas de impressão, enquanto as de três quartos chegaram a aproximadamente 28 horas.
O projeto, chamado Mvule Gardens, foi concebido pela 14Trees para reunir 52 moradias impressas em 3D.
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A primeira fase começou em outubro de 2022 e chegou a dez unidades impressas entre outubro daquele ano e janeiro de 2023, média equivalente a uma casa por semana.
A velocidade, porém, exige uma distinção importante.
As 18 ou 28 horas se referem ao tempo necessário para imprimir as paredes, e não ao prazo completo para entregar uma residência pronta para morar.
Fundação, cobertura, portas, janelas, instalações elétricas e hidráulicas, acabamentos e outras etapas continuam dependendo de métodos convencionais e de trabalhadores no canteiro.
Uma única impressora 3D produziu as primeiras dez casas
A primeira etapa do Mvule Gardens usou uma impressora de construção BOD2, fabricada pela empresa dinamarquesa COBOD.
O equipamento funciona dentro de uma grande estrutura metálica e deposita sucessivas camadas de material cimentício seguindo um projeto digital.
Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, a 14Trees utilizou uma única máquina para imprimir seis casas de três quartos e quatro unidades de dois quartos.
As primeiras tinham aproximadamente 76 metros quadrados, enquanto as menores ficavam em torno de 56 metros quadrados.
A sequência de dez residências em dez semanas foi usada pelas empresas envolvidas como demonstração de produtividade.
A própria Holcim registrou posteriormente que, em fevereiro de 2023, a 14Trees havia concluído a impressão em concreto das dez unidades e que as paredes das casas de dois quartos podiam ser produzidas em cerca de 18 horas de impressão.
Nas moradias de três quartos, o processo exigia aproximadamente 28 horas de impressão das paredes, segundo documentação divulgada pela Holcim.
O tempo adicional está relacionado principalmente à área maior e à quantidade superior de material necessária para formar as paredes.
Máquina não imprime uma casa inteira de uma só vez
Visualmente, o equipamento lembra um grande pórtico instalado ao redor da área onde a construção será levantada.
Um bico controlado digitalmente percorre o trajeto previsto e deposita faixas sucessivas da mistura de construção.
No projeto do Quênia, a impressora utilizou TectorPrint, material desenvolvido pela Holcim para impressão 3D de estruturas de concreto.
Segundo a empresa, a formulação permite que as paredes exerçam função estrutural, em vez de servirem apenas como elementos decorativos ou de fechamento.
O resultado deixa uma característica visual evidente: em vez da superfície lisa produzida por reboco convencional, as paredes exibem linhas horizontais formadas pelas camadas sucessivas depositadas pela impressora.
Embora a automação seja central no processo, a construção não ocorre sem mão de obra.
A operação da impressora exige técnicos, enquanto outras equipes continuam responsáveis por serviços que vão das fundações ao telhado e aos acabamentos.
A Holcim relatou que trabalhadores locais foram treinados para atuar como operadores e assistentes da máquina, transformando profissionais de outras áreas em especialistas na operação do equipamento.
Mvule Gardens foi planejado para chegar a 52 moradias
As dez primeiras unidades representam apenas a primeira etapa de um empreendimento maior.
O projeto original do Mvule Gardens prevê 52 casas em Kilifi, cidade costeira localizada ao norte de Mombasa.
A ideia da 14Trees era avançar em fases compostas por aproximadamente dez a 15 residências, testando alterações e melhorias a cada nova etapa.
A empresa apresentou o empreendimento como uma oportunidade de levar a impressão 3D para além de construções experimentais isoladas e avaliar a tecnologia em escala de bairro.
Quando as primeiras casas foram produzidas, o projeto também buscava atender compradores da chamada classe média trabalhadora queniana.
Reportagem publicada em março de 2023 informou que as unidades de dois quartos tinham pouco mais de 600 pés quadrados, equivalentes a cerca de 56 metros quadrados, e eram anunciadas inicialmente por aproximadamente US$ 27,6 mil.
Já as casas de três quartos, com área próxima de 76 metros quadrados, apareciam naquele período por valores em torno de US$ 37,8 mil a US$ 39 mil, dependendo da referência e do momento da divulgação.
Esses preços eram comerciais e históricos, portanto não representam necessariamente os valores praticados atualmente.
Primeiras dez casas atraíram compradores antes da conclusão
A procura pelas casas chamou atenção ainda durante a obra.
Segundo a Business Insider, as dez unidades da primeira fase já haviam sido vendidas mesmo antes de estarem completamente finalizadas.
Naquele estágio, as equipes ainda trabalhavam em coberturas e acabamentos.
A publicação relatava que a impressão das paredes era apenas uma parte do cronograma completo e que, em média, a equipe levava cerca de uma semana para avançar cada residência dentro da sequência produtiva.
Esse intervalo ajuda a explicar por que “18 horas para imprimir uma casa” pode ser uma simplificação enganosa.
O recorde diz respeito à impressão das paredes de uma unidade de dois quartos; entregar a residência inteira exige muito mais tempo.
Ainda assim, a capacidade de produzir rapidamente a estrutura vertical é justamente o argumento central das empresas que desenvolvem impressão 3D para construção.
Quanto menor o tempo gasto na alvenaria ou em elementos estruturais equivalentes, maior seria a possibilidade de reduzir etapas repetitivas do canteiro.
Projeto recebeu certificação ambiental do IFC
O Mvule Gardens também foi concebido com uma proposta ambiental.
A 14Trees informa que o empreendimento recebeu certificação EDGE Advanced, vinculada à International Finance Corporation, instituição do Grupo Banco Mundial voltada ao setor privado.
O sistema EDGE avalia aspectos como consumo previsto de energia, água e energia incorporada aos materiais.
No caso do projeto queniano, a certificação foi utilizada como evidência de que a proposta não se limitava à velocidade de construção.
A 14Trees sustenta que a impressão 3D pode reduzir desperdícios porque deposita material apenas onde o projeto determina.
A tecnologia também abre espaço para formatos curvos ou personalizados sem exigir moldes complexos para cada parede.
Essas vantagens, contudo, não significam que a impressão 3D já tenha resolvido o déficit habitacional.
Custos do equipamento, manutenção, disponibilidade da mistura adequada, treinamento de trabalhadores, transporte e regulamentação continuam sendo fatores decisivos para determinar se a técnica é competitiva em cada mercado.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

