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Fósseis encontrados em sítio explodido pela Rio Tinto revelam que diabos-da-Tasmânia viviam com humanos há até 47 mil anos e podem ter usado acampamentos como fonte de alimento
Escrito por Roberta Souza
Publicado em 13/09/2026 às 08:04
Atualizado em 13/09/2026 às 08:05
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Fragmentos de mandíbula e dente encontrados em Juukan Gorge, na Austrália Ocidental, preencheram uma lacuna no registro fóssil do diabo-da-Tasmânia. Mais de 8 mil ossos analisados, marcas de mordidas e fragmentos digeridos indicam que os marsupiais frequentavam repetidamente locais ocupados por humanos, possivelmente aproveitando restos de animais durante dezenas de milhares de anos.
Hoje, encontrar um diabo-da-Tasmânia vivendo livremente significa procurar a espécie na ilha da Tasmânia. Entretanto, milhares de anos atrás, esses marsupiais carnívoros ocupavam ambientes muito diferentes, incluindo as regiões áridas e rochosas do noroeste da Austrália.
Uma nova pesquisa encontrou evidências inequívocas da presença desses animais na região de Pilbara, na Austrália Ocidental. Os fósseis apareceram em Juukan Gorge, um sítio arqueológico ocupado por humanos há pelo menos 47 mil anos e que ganhou repercussão internacional depois que a mineradora Rio Tinto atingiu dois antigos abrigos rochosos com explosivos em 2020.
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Paulo Nogueira
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O estudo não encontrou apenas ossos do animal. Os pesquisadores analisaram mais de 8 mil restos de animais, identificaram marcas compatíveis com dentes de diabos-da-Tasmânia e estudaram centenas de fragmentos ósseos que haviam passado pelo sistema digestivo de carnívoros.
A combinação levou a uma hipótese surpreendente: durante milhares de anos, diabos-da-Tasmânia podem ter frequentado acampamentos humanos para aproveitar restos de animais deixados pelas pessoas.
Um pedaço de mandíbula tem cerca de 7 mil anos
As evidências diretas incluem apenas alguns pequenos fósseis, mas eles cobrem uma enorme distância temporal.
Um deles é parte de uma mandíbula inferior, com dois molares preservados. A análise dos sedimentos ao redor colocou o material entre aproximadamente 6.900 e 7.300 anos atrás.
Outro fragmento, parte de um pré-molar inferior, apareceu em depósitos muito mais antigos, datados entre aproximadamente 42.500 e 47.100 anos.
Portanto, os dois exemplares estão separados por dezenas de milhares de anos.
Essa distância temporal é justamente uma das características mais importantes da descoberta. Em vez de sugerir a presença ocasional de apenas um animal, outras evidências encontradas no sítio indicam que diabos-da-Tasmânia frequentaram aquele ambiente durante uma enorme parcela da história de ocupação humana de Juukan Gorge.
Descoberta preenche uma lacuna no mapa do diabo-da-Tasmânia
Apesar do nome atual, o diabo-da-Tasmânia não viveu exclusivamente na ilha que hoje dá nome à espécie.
Fósseis anteriores já mostravam que esses marsupiais ocuparam diferentes partes da Austrália continental. Entretanto, faltavam evidências inequívocas para Pilbara.
O novo estudo, publicado na revista científica Archaeology in Oceania, ajuda a preencher justamente essa lacuna.
A descoberta também reforça como a distribuição histórica da espécie foi muito maior do que aquela observada atualmente.
O próprio CPG já mostrou outro capítulo dessa história ao relatar que diabos-da-Tasmânia voltaram ao continente australiano após cerca de 3 mil anos e reproduziram em uma área de reintrodução, enquanto pesquisas relacionaram a ausência do predador ao avanço de gatos ferais.
Esse contexto torna os novos fósseis ainda mais relevantes. Eles mostram que, muito antes de desaparecer do continente, o animal conseguia sobreviver até mesmo nas gargantas áridas e rochosas de Pilbara.
Animais atravessaram grandes mudanças climáticas
As evidências encontradas em Juukan Gorge atravessam diferentes períodos ambientais da Austrália.
Parte delas antecede o Último Máximo Glacial, enquanto outras pertencem a períodos posteriores. Isso significa que os diabos permaneceram na região durante mudanças importantes de temperatura e disponibilidade de água.
Durante o período glacial, grande parte da Austrália enfrentou condições mais frias e secas.
Mesmo assim, os animais permaneceram presentes.
Essa constatação sugere que o diabo-da-Tasmânia possuía flexibilidade ecológica maior do que sua distribuição atual poderia fazer parecer.
Em outras palavras, não era simplesmente um animal adaptado aos ambientes encontrados hoje na Tasmânia.
A espécie ocupou regiões muito diferentes ao longo do continente.
Cientistas analisaram mais de 8 mil ossos
Os fósseis identificam diretamente a presença da espécie, mas milhares de outros fragmentos ajudaram os pesquisadores a investigar como esses animais utilizavam o sítio.
A equipe catalogou mais de 8 mil ossos de animais recuperados em Juukan Gorge.
Mais de 1.000 apresentam sinais de mastigação ou roedura provocados principalmente por roedores, mas também compatíveis com outros animais, entre eles quolls, grandes marsupiais carnívoros e possivelmente lagartos-monitores.
Os cientistas selecionaram 55 ossos com marcas para uma análise mais detalhada.
Em pelo menos 10 deles, o tamanho das impressões deixadas pelos dentes apresentou maior compatibilidade com aquela esperada para diabos-da-Tasmânia.
Além disso, essas marcas aparecem em materiais pertencentes a diferentes períodos.
Isso reduz a possibilidade de que tenham sido produzidas em apenas um episódio isolado.
Outros 263 fragmentos haviam sido digeridos por animais
Outra pista surgiu em 263 fragmentos ósseos digeridos encontrados no abrigo.
Segundo os pesquisadores, parte desse material era grande demais para corresponder às presas normalmente consumidas pelos pequenos carnívoros atualmente encontrados em Pilbara.
O conjunto se mostra mais compatível com a ação de um marsupial maior capaz de consumir e triturar ossos.
Somado aos fósseis e às marcas de dentes, esse material fortalece a interpretação de que diabos-da-Tasmânia participavam regularmente da comunidade de necrófagos de Juukan Gorge.
Entretanto, outra característica deixou a história ainda mais interessante.
Muitos dos ossos de grandes animais encontrados no sítio chegaram ali por causa da atividade humana.
Diabos podem ter aprendido a procurar restos deixados por humanos
Entre os restos encontrados aparecem animais maiores, como cangurus e grandes lagartos.
As evidências arqueológicas mostram que humanos levaram parte dessas presas para os abrigos, processaram a carne e deixaram ossos e outros resíduos no local.
Justamente nesses materiais associados à atividade humana aparecem sinais compatíveis com alimentação por grandes carnívoros.
A hipótese dos pesquisadores é que os acampamentos tenham se transformado em fontes relativamente previsíveis de alimento.
As pessoas caçavam e preparavam animais. Parte dos restos permanecia no local. Depois, diabos-da-Tasmânia poderiam entrar nos abrigos para aproveitar aquilo que havia sido descartado.
Esse comportamento pode ter ocorrido repetidamente durante milhares de anos.
Eles poderiam funcionar como uma espécie de “equipe de limpeza”
Essa aproximação não beneficiaria apenas os animais.
Ao consumir carcaças e restos orgânicos, os diabos retirariam material em decomposição das proximidades dos acampamentos humanos.
Os pesquisadores comparam esse possível papel ao de uma equipe natural de limpeza.
Isso não significa, porém, que seres humanos tenham domesticado diabos-da-Tasmânia.
O estudo também não demonstra uma relação semelhante àquela que posteriormente existiria entre humanos e cães.
A interpretação é mais simples: os animais provavelmente aprenderam que áreas frequentadas por pessoas ofereciam uma fonte recorrente de carniça e restos de alimento.
Assim, humanos e diabos podem ter utilizado repetidamente o mesmo espaço.
Não há evidência de que humanos comessem os diabos
Existe ainda uma distinção importante na interpretação arqueológica.
Os pesquisadores não encontraram evidências de que os fósseis de diabo-da-Tasmânia recuperados tenham sido cortados, queimados ou preparados para consumo humano.
Portanto, encontrar seus ossos no mesmo sítio ocupado por pessoas não significa automaticamente que o animal fosse caçado.
A hipótese apresentada no estudo segue na direção oposta.
Os diabos provavelmente entravam nos locais ocupados pelos humanos para procurar alimento e, eventualmente, alguns podem ter morrido dentro ou próximos dos abrigos.
As próprias marcas deixadas em outros ossos indicam que os marsupiais estavam entre os animais que aproveitavam restos disponíveis naquele ambiente.
Austrália continua revelando registros excepcionais preservados em rochas
Juukan Gorge faz parte de um território especialmente importante para arqueologia, paleontologia e geologia.
A Austrália continua produzindo descobertas capazes de reconstruir períodos extremamente diferentes da história da Terra. O CPG mostrou, por exemplo, como fósseis microscópicos preservados em antigas rochas australianas revelaram células complexas vivendo em ambientes marinhos há aproximadamente 1,7 bilhão de anos.
Nesse caso, testemunhos de sondagem usados pela exploração mineral preservaram vestígios microscópicos de organismos que viveram em antigos ambientes oceânicos.
Em Juukan Gorge, o intervalo temporal é muito menor, mas a quantidade de informação comportamental é extraordinária.
Os vestígios permitem estudar não apenas quais espécies estavam presentes, mas como animais e humanos utilizaram o mesmo espaço ao longo de dezenas de milhares de anos.
O abrigo guardou ferramentas, fogueiras e vestígios humanos
A importância arqueológica de Juukan Gorge vai muito além dos novos fósseis.
Escavações realizadas no local recuperaram artefatos de pedra, antigas fogueiras, contas feitas de conchas, ferramentas produzidas com ossos e cabelo humano trançado.
Além disso, a ocupação humana do abrigo remonta a pelo menos 47 mil anos.
Essa combinação permite investigar uma longa história de interação entre pessoas, animais e transformações ambientais.
Em vez de apenas identificar espécies antigas, os arqueólogos conseguem reconstruir comportamentos e mudanças ocorridas ao longo de centenas de gerações.
Por isso, Juukan Gorge se tornou um dos sítios arqueológicos mais relevantes da região.
Rio Tinto atingiu os abrigos com explosivos em 2020
É justamente nesse ponto que a descoberta científica encontra uma das histórias mais controversas da mineração australiana.
Em 2020, a Rio Tinto realizou detonações relacionadas à expansão de operações de minério de ferro e destruiu antigos abrigos rochosos de Juukan Gorge.
O episódio provocou forte repercussão devido à importância cultural e arqueológica da área para os povos Puutu Kunti Kurrama e Pinikura, conhecidos pela sigla PKKP.
As consequências chegaram ao alto escalão da mineradora.
Executivos deixaram a empresa e o episódio desencadeou uma discussão nacional sobre a proteção de sítios culturais indígenas diante de grandes projetos de mineração.
Seis anos depois, os novos fósseis reforçam justamente o valor científico do material preservado naquela região.
Mesmo após o impacto das detonações, materiais recuperados anteriormente e pesquisas realizadas posteriormente continuam revelando novas informações.
Descoberta mostra parte do conhecimento que poderia ter desaparecido
O contexto torna a pesquisa particularmente significativa.
Juukan Gorge preservou registros de aproximadamente 47 mil anos de ocupação humana e interação com a fauna local.
Parte desse arquivo arqueológico sofreu danos irreversíveis.
Ainda assim, os materiais recuperados continuam produzindo informações capazes de mudar o entendimento científico sobre a fauna australiana.
Um pequeno fragmento de mandíbula e um dente, por exemplo, ajudaram a provar que diabos-da-Tasmânia estavam presentes em uma região na qual sua existência ainda não havia sido demonstrada de forma conclusiva.
Ao mesmo tempo, milhares de outros ossos permitem investigar como os animais utilizavam locais ocupados pelos humanos.
A descoberta mostra como sítios arqueológicos não preservam apenas objetos isolados.
Eles funcionam como arquivos ambientais e culturais, nos quais diferentes evidências ganham significado quando permanecem associadas à camada e ao local originais.
Então chegaram os dingos
Os diabos-da-Tasmânia acabaram desaparecendo da Austrália continental há aproximadamente 3.200 anos.
Pouco antes, outro predador havia começado a se espalhar pelo continente: o dingo.
A possível relação entre esses acontecimentos já é discutida há bastante tempo.
Dingos poderiam competir com diabos por presas e carcaças. Além disso, poderiam ocupar regiões e fontes de alimento anteriormente utilizadas pelos marsupiais.
O novo estudo acrescenta outra possibilidade.
Dingos podem ter disputado justamente a comida ligada aos humanos
Se diabos-da-Tasmânia frequentavam acampamentos humanos para aproveitar restos durante milhares de anos, a chegada dos dingos pode ter criado uma competição adicional.
Não seria apenas uma disputa pelas mesmas presas selvagens.
Também poderia envolver o acesso aos restos de alimento encontrados perto das pessoas.
Como os dingos desenvolveram uma relação próxima com populações humanas, poderiam ter ocupado parte desse nicho.
Entretanto, os pesquisadores não afirmam que essa competição explica sozinha a extinção continental dos diabos.
Esse cuidado é fundamental.
Mudanças climáticas, alterações ambientais e interações com outros predadores podem ter atuado ao mesmo tempo.
Diabos e dingos ainda coexistiram por aproximadamente mil anos
A chegada dos dingos não provocou o desaparecimento imediato dos diabos-da-Tasmânia.
As duas espécies provavelmente coexistiram na Austrália continental durante aproximadamente mil anos.
Portanto, qualquer explicação baseada exclusivamente no novo predador seria excessivamente simplista.
Durante esse período, o clima também mudou e determinadas regiões australianas se tornaram mais áridas.
A nova pesquisa acrescenta a possível perda de uma fonte de alimento ligada aos acampamentos humanos como mais um fator a ser investigado, não como resposta definitiva.
Esse tipo de distinção evita transformar uma hipótese científica interessante em uma conclusão que o estudo não demonstra.
Diabos sobreviveram na Tasmânia
Enquanto desapareceram do continente, os diabos permaneceram na Tasmânia, onde sobreviveram até o presente.
A separação geográfica ajudou a criar a distribuição que associamos atualmente à espécie.
Entretanto, o novo estudo mostra como essa imagem é historicamente incompleta.
Há dezenas de milhares de anos, os animais também percorriam ambientes áridos no noroeste da Austrália, muito longe das florestas e paisagens atualmente associadas à espécie.
E aparentemente não evitavam os seres humanos.
Pelo contrário, podem ter percebido que locais utilizados por pessoas ofereciam oportunidades constantes de alimentação.
A história recente da fauna australiana também envolve outro marsupial emblemático. O CPG mostrou como o tigre-da-Tasmânia, oficialmente extinto há quase um século, continua no centro de pesquisas e projetos científicos que tentam recuperar características biológicas da espécie.
Os dois casos mostram como a história dos grandes marsupiais carnívoros da Austrália é muito mais ampla do que sua distribuição moderna sugere.
Restos humanos podem ter atraído esses animais por dezenas de milhares de anos
O fragmento mais antigo de diabo-da-Tasmânia apareceu em sedimentos com idade que pode chegar a aproximadamente 47.100 anos.
Além disso, marcas de alimentação compatíveis com grandes marsupiais aparecem repetidamente nas diferentes camadas arqueológicas.
Isso permite imaginar uma paisagem muito diferente daquela encontrada hoje.
Pessoas chegavam aos abrigos trazendo animais caçados.
Preparavam e consumiam alimento.
Ossos e outros restos permaneciam no ambiente.
Depois, diabos-da-Tasmânia poderiam circular pelo local consumindo parte desse material.
Essa dinâmica pode ter se repetido por milhares de gerações.
Muito tempo depois, dingos chegaram ao continente e começaram a ocupar parte desse mesmo espaço ecológico.
Alguns milênios depois, os diabos já haviam desaparecido da Austrália continental.
Uma descoberta científica saiu de um sítio atingido pela mineração
Essa combinação torna a pauta especialmente relevante.
Não se trata apenas de uma descoberta paleontológica.
O estudo conecta mineração, arqueologia, povos tradicionais, extinção, mudanças climáticas e uma possível relação ecológica entre humanos e animais iniciada dezenas de milhares de anos atrás.
Os pesquisadores analisaram mais de 8 mil ossos, encontraram fósseis separados por dezenas de milhares de anos e identificaram marcas de alimentação distribuídas por diferentes camadas do sítio.
Esses vestígios revelaram que um animal hoje associado quase exclusivamente à Tasmânia conseguiu viver no árido Pilbara e provavelmente encontrou nos acampamentos humanos uma fonte recorrente de alimento.
Tudo isso permaneceu preservado em Juukan Gorge.
Então, em 2020, explosivos usados em uma operação ligada à mineração atingiram os antigos abrigos.
Seis anos depois, o material arqueológico continua revelando quanto conhecimento científico estava guardado naquele lugar e quanto poderia desaparecer quando um sítio dessa importância perde seu contexto original.
E você, imaginava que diabos-da-Tasmânia já circulavam perto de acampamentos humanos há mais de 40 mil anos?
Fonte
The Guardian
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

